"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver
prosperar a desonra, de tanto ver
crescer a injustiça, de tanto ver agigantar-se o poder nas mãos dos
maus, o homem
chega a rir-se da honra, desanimar-se da justiça, e ter vergonha de
ser honesto!"
(Ruy Barbosa - 1917)
***
Estava no bairro do Seminário em Curitiba, mais precisamente no
Internato Paranaense, quando fomos chamados ao pátio central. O
reitor, vestido com olhar cinzento, boca crispada, estava acompanhado
de um séqüito de professores circunspetos, exalando ansiedade. Ainda
virgens de preocupações políticas, econômicas, sociais, sentimos que a
notícia era grave.
– O Presidente da República, Getúlio Dorneles Vargas, acabou de se
suicidar.
Olhamo-nos inseguros.
Eu era menino e temi por nosso futuro.
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Estava na Rua Quinze de Novembro, esquina com a Barão do Rio Branco,
acompanhado de alguns amigos. Uma agitação repentina tomou conta dos
transeuntes. A apreensão escorreu por nossas faces. Algumas pessoas em
desabalada correria, sabe-se lá para onde, gritavam em desespero:
– O Presidente da República, Jânio da Silva Quadros, acabou de
renunciar.
Olhamo-nos assustados.
Eu era jovem e temi por nosso futuro.
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Estava percorrendo as rampas da Faculdade de Filosofia Ciências e
Letras da Universidade Federal do Paraná a caminho do anfiteatro do
quinto andar para mais uma aula de Antropologia, quando um grupo de
colegas disputava melhor audição em volta de um pequeno rádio Spika.
Enfáticos discursos militares anunciavam uma nova ordem.
– Tropas do exército se deslocam pelo país.
Olhamo-nos apavorados.
Eu era adulto e temi por nosso futuro.
***
Estou em meu retiro, ao pé do Anhangava que enfeita a Serra do Mar,
não para descansar de uma vida de guerras sem fim, mas para prosseguir
compulsoriamente em novas batalhas. Daqui, vejo o país jogado na
indiferença de um povo que perdeu as esperanças, a confiança e os
valores mais caros de uma sociedade séria.
Rui Barbosa me vem à mente...
O jovem que, de tanto ver a malandragem, a desonestidade, a astúcia, a
bandidagem vencer, passa a imitá-las alegremente.
De tanto ver prevalecer, não o mérito, mas a esperteza sem-vergonha, o
jovem adota as vias tortas do sucesso.
De tanto ver exaltada a ignorância, envergonha-se do conhecimento.
De tanto ver as manobras desonestas e com elas os patifes se
abarrotarem de vantagens imerecidas, empregos doados, riqueza
duvidosa, dirige sua vida para os meandros de atalhos preguiçosos.
De tanto ver os supostos líderes da nação se comportarem como bandidos
de sucesso, faz deles seus heróis.
De tanto ver a impunidade como norma, não teme afrontar a ordem, a
Lei, o Direito.
De tanto ouvir falsos líderes beócios e safados, passa a se orgulhar
da própria ignorância.
Diante das eleições que se aproximam, toma atitude risonhamente
tolerante para o roubo, para a quebra dos preceitos morais e legais.
Minha juventude começa a enxergar a desonestidade como valor e os
assaltos de qualquer natureza como paradigma de conduta.
E ouço com freqüência:
– O importante é vencer mesmo que seja roubando, invadindo,
assaltando. Não é isto o que todos fazem? Quem não faz assim, se dá
mal.
E, para tristeza profunda de meu espírito, constato:
Desvalorizou-se o mérito que é a porta da frente.
Valorizou-se a cota que é a porta dos fundos.
Conduta ética virou coisa para idiotas.
Estarrecido, vejo que, ao invés do poder do povo, prevalece o poder do
crime organizado. Temo pela democracia. Temo por nossa liberdade!
E ouço mais uma vez ferir meus ouvidos:
Que se elejam os mais espertos! Sejamos também espertos.
Que cada um tome o que puder para si. Às favas com os outros.
Que os bobos desta nação trabalhem quietos e paguem nossa conta.
Endeusemos os ladrões vencedores.
Eu era menino... Até quando vou temer por nosso futuro?
(03 de junho/2006)
CooJornal no 479
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
“Contos de Curitiba” e "Bichos do Poder"
Curitiba - PR
airo@protexto.com.br