
10/06/2006
Ano 9 - Número 480
ARQUIVO AIRO ZAMONER
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Airo Zamoner
Até o final
de seus dias?
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Carmita abominava empregada novinha. Desde que veio morar em Curitiba,
havia decidido: empregada tem que ser mulher madura, responsável e, de
preferência, pouco atraente. Feia, seria qualificação imbatível. É que
tinha um marido a preservar e seguro morreu de velho, dizia toda
orgulhosa no chá das quintas para suas amigas.
Mas não só isso! Aliás, o marido era só um pretexto que caía bem nas
conversas vazias que rolavam durante as reuniões pachorrentas de todas
as semanas. O velho não atrairia nenhuma sirigaita, ainda mais,
novinha. Ou melhor, nenhuma delas sentiria atração por aquele traste.
A preocupação maior era o filho. Este sim, um garotão vistoso, lindo
que só vendo. Onde já se viu uma empregadinha qualquer se engraçar com
ele, amarrá-lo para o resto da vida? Nem pensar! Marcelo Antonio
haveria de se casar com uma princesa. Uma menina inteligente, esperta,
ágil, bonita, formada pela PUC, ou, vá lá que seja, uma outra dessas
faculdades aí. Mas, principalmente, alguém que o amasse de verdade.
Sim, porque estas menininhas que ficam rodeando o filho querem mais é
se aproveitar da condição dele. Afinal, um garoto de família, cheio de
estudos e profissão rendosa, sempre cobiçado por elas que têm tudo
para oferecer, menos aquele amor desinteressado e leal. Melhor não
arriscar.
Um dia, apareceu uma daquelas em sua porta. Disse ter sido recomendada
por Dona Verônica. Carmita já estava sozinha há um tempão. Pediu ajuda
às amigas das quintas-feiras. Foi aquela enxurrada de candidatas. Mas
só apareciam as novinhas. E agora, estava ali com a porta entreaberta,
olhando para a garota, pensando que precisaria contratar alguém meio
logo.
– Sou Eugênia. Dona Verônica disse que a senhora...
Carmita encarou a tal Eugênia. Deu logo pra ver que era feia.
Desengonçada, baixinha, cara espinhenta, cabelo desgrenhado, pés em
ângulo para dentro, braços esquisitos, corpo esquipático.
– ...está precisando de ajuda, e como eu também estou precisando de
trabalho...
Carmita continuava em silêncio, medindo a candidata de cima para
baixo, de baixo para cima. Deduziu: aquela coisinha não poderia trazer
o menor risco, nem para o velho, muito menos para seu garotão
maravilhoso. E olhando fixamente para a tal Eugênia, ponderou consigo
mesma: onde já se viu imaginar meu garoto, meu Marcelo Antonio se
engraçando com este poço de feiúra e insignificância?
– Impossível!
– Mas, Dona Carmita! Impossível por quê? Dona Verônica me disse...
– Eu não quis dizer impossível. Acho que você não tem perigo!
Eugênia enxugou algumas lágrimas.
– Como foi que disse? Perigo?
Carmita desconversou e mandou entrar. Mostrou a casa, o serviço.
Quando explicou algumas rotinas que deveriam ser obedecidas, Eugênia
não entendeu. Explicou e tornou a explicar. Percebeu que, além de
feia, era um tanto burrinha. Mas não se irritou com aquela
incapacidade mental. Ao contrário, ficou mais tranqüila.
– Feia e burra é garantia absoluta – Pensou com seus velcros, deixando
escapar um sussurro.
– A garantia que eu tenho, Dona Carmita, é que, apesar de ser uma
pessoa muito pobre, sou honesta, não minto nunca, respeito as coisas
dos outros e...
Eugênia foi contratada.
Carmita parecia absorta, mergulhada num êxtase de meditação profunda,
entregue a recordações incômodas sobre empregadas domésticas, quando o
padre, solene, feliz, sorrindo, perguntou a um Marcelo Antonio
abobalhadamente apaixonado:
– Marcelo Antonio. Aceita Eugênia, aqui presente, como sua legítima
esposa, para respeitá-la, amá-la, na saúde e na doença até o final de
seus dias?
Pela nave de uma pequena igreja perdida no bairro do Boqueirão,
Eugênia deixou escapar uma risada estridente, histérica,
inconveniente, constrangendo os convidados, provocando horrores nas
estátuas de todos os santos.
(10 de junho/2006)
CooJornal no 480
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
“Contos de Curitiba” e "Bichos do Poder"
Curitiba - PR
airo@protexto.com.br
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