
17/06/2006
Ano 9 - Número 481
ARQUIVO AIRO ZAMONER
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Airo Zamoner
O Calendário de Feliciano
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Feliciano acordou cedo naquela manhã remanchosa. Levantou-se, usando
as mãos para ajeitar as pernas. Esbravejou pensamentos mudos contra a
obrigação repetida de dobrar sua espinha enferrujada para interromper
o escorregar teimoso das chinelas que impedia encaixar seus pés
gratuitamente dolorosos.
Abriu a janela. Recebeu o bafo agradável da alvorada e se debruçou em
Curitiba, ainda quieta, amarrada, silenciosa.
Espreguiçou-se como um gambá, soltando ruídos vasconços. Murmurou
rabiscos vocais desconexos e parou diante do calendário para arrancar
mais uma folha.
O décimo andar do prédio mais antigo da Rua Quinze de Novembro, viu
Feliciano largar a folha daquele seu dia e ficou admirando a queda
lenta, a navegação caótica, exatamente como caíram todos os seus dias.
Lá embaixo, o minúsculo homem sentiu algo em seu ombro. Bateu a mão
com raiva, livrando-se violentamente do dia de Feliciano.
No chão, a folha foi se prostituindo, ora pisada por um, ora por
outro, até desaparecer em frangalhos sob as sapatas do tempo.
Feliciano não mais admitiu continuar sendo o ator inerte daquelas
cenas. Não queria mais ver seu tempo se desmanchar como bolhas de
xampu, voláteis, transitórias, inúteis.
Sentiu-se coberto de bobagens, assaltando cada pedaço de seu tempo.
Estava enfadado da seriedade cansativa a locupletá-lo por dentro, a
envolvê-lo por fora. Queria brincar. Queria liberdade. A liberdade de
voar como voaram seus pedaços de vida janela abaixo. Queria voar como
eles. Um vôo interminável. Um vôo que nunca chegasse ao chão como
chegam diariamente suas folhas efêmeras que se perdem na podridão do
pisoteio indiferente.
O mês corre célere. Ele anda até o calendário e arranca
precipitadamente o dia de hoje que recém começa. Vira e o revira nos
dedos duros. Vai até a janela e libera-o no espaço. Nem aguarda vê-lo
chegar ao chão imundo. Volta apressado. Arranca outra lâmina, outro
pedaço de vida. Vida que agora está sob seu domínio. Os minutos se
escoam. Os pequenos e finos papéis esvoaçam às dezenas.
O gari prestimoso vai reunindo, uma a uma, as folhas pequenas que se
borram pela calçada. Folhas pisadas, folhas virgens, folhas
satisfeitas, folhas frustradas, folhas úteis, inúteis. Folhas que não
param de cair. Olha para cima e recebe a chuva imensa de existência a
despencar num esvoaçar irresponsável. Não consegue mais cumprir sua
tarefa com esmero e seriedade. Por um tempo, senta-se no banco
próximo. E espera que todas terminem sua queda em revoada.
Feliciano pára em frente ao calendário. Lá está o último dia,
esperando ser arrancado. É trinta e um de dezembro. Algo dentro dele
flui como pensamentos líquidos se derramando pelos poros em rebelião.
Olhando insistente para cima, o varredor sente dores no pescoço. A
derradeira não desce. Ou já teria caído? Ele espera... Todas aquelas
folhas espalhadas no espaço, muitas também pisoteadas como a primeira,
tornando quase impossível sua missão solitária. Mas Feliciano não tem
pressa. Vai saborear este seu último dia em todos seus contornos. Num
repente, arranca o dia trinta e um. Vai à janela, amarrota aquele
resto em sua mão e se lança do décimo andar, num gozo infinito de
liberdade, agarrado a seu último dia. Lá embaixo, cumprimenta
rapidamente o lixeiro e vai recolhendo, um a um, cada fragmento. Uns
intactos, outros nem tanto. O gari, percebendo a angústia de
Feliciano, ajuda-o com denodo. Em pouco tempo, de posse de todos os
pequenos papéis, confere dia por dia e volta feliz a seu mundo,
agarrado a suas últimas e preciosas folhas para gastar vagarosamente,
sentindo o sabor das bobagens, fugindo como um louco da seriedade que
mancha e amarrota seus dias curitibanos.
Repentinamente, Feliciano volta apressado até o ontem.
Corre como criança, as mãos cheias de saborosos dias.
(17 de junho/2006)
CooJornal no 481
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
“Contos de Curitiba” e "Bichos do Poder"
Curitiba - PR
airo@protexto.com.br
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