
24/06/2006
Ano 9 - Número 482
ARQUIVO AIRO ZAMONER
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Airo Zamoner
Já trabalhei que chega!
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Basta parar num beco qualquer de Brasília – daqueles penumbrosos, de
preferência nos meandros do Palácio do Planalto, o maior beco do país
– e escutar. Será muito fácil ouvir algo assim:
– O companheiro não está entendendo. Tem que falar com o camarada que
é cúmplice do confrade lá de Carapicuíba. Ele é nosso cupincha e sei
que é conivente porque foi cooptado pelo compadre da consorte. Anda!
Vai lá que tá limpo!
E por aí vai.
Foi-se o tempo em que companheiro era aquele que nos acompanhava
amistosamente. Ou uma forma gentil de se referir a um amigo, até ao
cônjuge. Hoje precisamos segurar a língua. Falou companheiro, já vão
olhar torto para você e pensar que está metido em alguma tramóia,
agora denominada maracutaia. Mas isto já é assunto para outro dia.
Foi-se também o tempo em que camarada era aquele amigo que só queria
seu bem. Só vivia fazendo camaradagens para todos. Hoje camarada e
companheiro são palavras que ficaram corrompidas por ideologias.
Ideologias que se perderam ou se perderão no tempo.
Este rol de palavras poderia ser organizado em dois grupos.
No primeiro, apareceria companheiro, comparsa, cúmplice, cupincha,
conivente, cooptado.
No segundo, colega, compadre, consorte, camarada. Não! Camarada já
havia sido banida de nossas bocas no tempo negro da ditadura. Sim,
porque se alguém pronunciasse esta palavra, certamente esconderia um
exemplar de Das Kapital do velho Marx em sua casa e era, sem sombra de
dúvida, muito suspeito. Poderia até ser preso e desaparecer para
sempre. E para não desaparecer, teria que fazer uma bela plástica,
trocar o nome e ir viver no interior do Paraná. Ficar lá quietinho,
escondidinho, esperando a chuva passar, casar, ter filhos e esperar,
esperar, esperar. E daí, era sair do casulo e fazer parte abundante do
primeiro grupo. Aquele do companheiro, comparsa, cúmplice, cupincha,
conivente, cooptado, lembram? Sendo assim, é melhor colocar a palavra
camarada no grupo dos companheiros.
É isto que me aborrece hoje, entre muitas outras coisas. Fico aqui
parado em meu espaço, olhando para o Anhangava, este morro que poderia
ser meu companheiro, mas não é. Talvez seja meu camarada, mas não é.
Quem sabe seja meu cúmplice. Mas cúmplice no bom sentido. Enfim, fico
aqui olhando para ele, perguntando o que acha das transformações pelas
quais passamos nestes anos todos, com estas palavras todas se
espalhando por aí. O que ele acha destes tempos de avalanches de
tecnologia invadindo nossas casas, nossos escritórios, nossos espaços.
Sim, nossos espaços, porque virando um pouco a cabeça, meus olhos
deixam de ver o Anhangava e enxergam três ou quatro torres enormes,
faiscando ondas para todos os lados, para que nossos celulares se
comuniquem. Estas torres são cupinchas, coniventes, cooptadas, mas são
também companheiras. Tal e qual os companheiros que se vêem aos
borbotões nas filas que se formam todos os dias e noites diante dos
cofres subterrâneos da capital federal.
E por falar em cofres da capital federal, estamos em junho e graças ao
bom Criador, já posso parar de falar bobagens e trabalhar para mim
mesmo, porque para aqueles cofres eu já trabalhei que chega.
(24 de junho/2006)
CooJornal no 482
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
“Contos de Curitiba” e "Bichos do Poder"
Curitiba - PR
airo@protexto.com.br
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