
01/07/2006
Ano 9 - Número 483
ARQUIVO AIRO ZAMONER
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Airo Zamoner
Massagem na Praça
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Por que ela estava ali, naquele banco, em meio às frondosas árvores da
Praça da Cultura? Praça da Cultura, não. Praça Santos Andrade, por
onde passo muitas vezes, pisando distraído na cultura que emana deste
centro fervente de Curitiba.
Ela estava ali porque marcara um encontro. Seria o encontro decisivo.
O último. Estava cansada de sua abominável clandestinidade afetiva.
Remexia-se no banco, incomodada por ter que enfrentar uma situação tão
inusitada em sua vida. Estava tensa. Os ombros doíam. O lenço escuro
amarrado na cabeça. Lenço que ela comprou ali na Rua João Negrão, bem
perto da antiga estação rodoviária, naqueles mascates de carrinho
verde, tão organizados nas esquinas. Lenço de quinta, tão diferente
daqueles abundantes em seu closet. Melhor usar um lenço destes,
amarrado na jugular, cobrindo a cabeça. Assim não seria reconhecida.
Comprou também um óculos escuro. Lentes grandes funcionavam como
máscara, escondiam boa parte do rosto. Estava segura para sentar ali,
em plena Praça da Cultura.
Olhava a hora no celular e se agitava. O tempo não passava.
Perguntava-se porque teria chegado tão cedo. E o desgraçado que não
aparecia! Relaxou os músculos do pescoço, que também doíam. As pernas
cruzadas balançavam involuntariamente. Tentou fazê-las parar. Olhou em
volta da praça. Alguns pedintes. Alguns, bêbados já nesta hora, tão
cedo. Gente se aglomerando no terminal de ônibus. Viu a Universidade
Federal do Paraná ainda ali, do mesmo jeito, atravessando um tempo
infinito. Tempo em que tagarelava nas escadarias, aguardando mais uma
aula de Direito Romano. Virou o rosto e lá estava o Teatro Guaíra. Não
fazia muitos dias, aguardava na fila para assistir... O que mesmo? Nem
lembrava mais. Também, estava com o marido e o desgraçado, aquele
descarado ali ao lado, sorriso sarcástico, abraçando a esposa,
deixando-a desesperada. Onde já se viu? Como podia lembrar que peça
era? Ou nem era peça alguma, mas uma formatura, talvez.
Olhou para aquele busto de pedra. Era ela, a Júlia. Como era mesmo o
sobrenome da Júlia? Distraiu-se. A Júlia, ali no meio deles. O Nilo
Cairo, o Victor Ferreira do Amaral, até Rui Barbosa e o Santos Dumont,
o Alberto. E o desgraçado não vinha! Precisava urgentemente resolver
aquilo. Nem sabia mais como tinha se envolvido com o desgraçado. Vivia
um tempo de angústias. Não que se arrependesse totalmente. Fernando a
satisfazia em quase tudo. Mas a aflição de uma vida dupla a
massacrava. Não tinha estômago para isto. Era uma conversa definitiva
e tinha que ser numa praça pública! Lembrou-se! Wanderley. Júlia
Wanderley. Que contra-senso, pensou. E pensou com lógica. Quero
resolver isto numa praça pública e estou me escondendo atrás destes
óculos, deste lenço! De repente, veio a sua mente um trabalho sobre
Júlia Wanderley que fez no tempo do Colégio Estadual. E o que lembrou
daquele trabalho? Quase nada. Júlia foi professora, nasceu em Ponta
Grossa. Lembrava só isto.
Olhou na tela do celular. O desgraçado estava atrasado e nem tinha a
decência de telefonar. O que estaria acontecendo? Não, Júlia foi algo
mais além de professora. Olhou os canteiros. Algumas flores dispersas
se desorganizavam por ali. Sim, como não lembrei antes? Flores
Dispersas. Um dos livros de poesia da Júlia Wanderley. Era poeta. Ou
seria poetisa? Por onde anda o desgraçado?
Quero ser bem firme e dizer, fixando os olhos dele, que tudo está
acabado. Não quero mais continuar com isso. Quero ter minha vida de
volta. Normal, como toda mulher decente. Essa dor nos ombros está me
matando! Uma massagem seria tão bom... Isto, aperte mais um pouco.
Mais para o lado. Assim. Hum... Que alívio! O quê? Fernando? Seu
desgraçado. Por que demorou tanto, amor? Estava tão aflita! Por que
estou disfarçada? Ora, não seja ingênuo. Sim, tenho coisas muito
importantes para resolver com você. Mas, antes termine essa massagem
que está deliciosa...
(01 de julho/2006)
CooJornal no 483
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
“Contos de Curitiba” e "Bichos do Poder"
Curitiba - PR
airo@protexto.com.br
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