
08/07/2006
Ano 9 - Número 484
ARQUIVO AIRO ZAMONER
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Airo Zamoner
ACABARAM COM NOSSA BOLA!
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Foi na busca por trajetos inusitados que passei pela obra de um enorme
"Shopping Center". Parei estarrecido. O terreno, meio ondulado, há
muitos e muitos anos, foi um "campinho de futebol". Tínhamos uma
grande turma de amigos. A gente se reunia nos finais de semana. Nas
férias era todo o dia. O meu time era o Pindorama. O outro grupo não
tinha nome. Era o time do Pedrão. A organização? Era anarquista em sua
essência. Tínhamos uma única bola, de couro, com os gomos descolados.
Volta e meia a levávamos para Seu Rolf colar. Nem sei quantos anos
durou. Nem quanta cola o seu Rolf gastou conosco. Cada vez que
chegávamos em sua oficina ele nos olhava por cima dos óculos com um
sorriso gostoso.
Fechei os olhos e as antigas cenas estavam ali, coloridas, vivas do
outro lado da rua. A algazarra. As brigas pela vitória. As discussões
pela falta que foi ou que não foi dentro de uma área imaginária. A
chuva que começava no meio de uma partida. Ninguém ligava. Ninguém
parava de jogar. Dávamos a vida e o sangue por um gol, a alegria
máxima. Voltávamos completamente enlameados para casa e agüentávamos
todas as broncas, felizes da vida.
Um dia, toda nossa alegria e divertimento começou a morrer. Nenhum de
nós percebeu este início.
Chegaram três senhores e ficaram assistindo. No intervalo, chamaram a
turma em sua volta e nos deram uma bola novinha. Foi uma alegria só!
Prometeram construir umas traves novas e construíram; consertar o
campinho e consertaram. Já não jogavam sete de um lado e nove do
outro. Sabíamos quem era mais forte e mais fraco. Criava-se um
equilíbrio intuitivo. Não! Agora não podia mais. Agora tinha que ser
do jeito deles. O jeito certo...
Engraçado o que aconteceu dali para frente. Perdemos alguma coisa
importante, mas não sabíamos o que era. Surgiram regras, muitas
regras. Já não entrava na brincadeira quem queria. Já não mandávamos
em nosso time. O Pindorama passou a vestir um jogo de camisas.
Colorido. Bonito. Vistoso. O outro time também. De vez em quando, um
de nós era levado para treinar em algum clube importante. Muitos
desapareciam do velho campinho. Em nossa inocência, achávamos que “os
homens” gostavam de nossos gols e por isso nos ajudavam. A velha bola
ficou largada atrás de uma das traves, com seus gomos soltos. Um dia
desapareceu. Ninguém ligou. Devem ter levado para outro bairro, outro
campinho. O seu Rolf nunca mais a consertou. Nunca mais vimos aquele
sorriso bonito do velho alemão que jamais pediu pagamento pela cola,
pelo tempo que gastava. Acho que ele sim, gostava de futebol.
Quanto àqueles três, lembro vagamente seus nomes. Nomes que ouço e
leio no rádio, nos jornais de hoje.
Nosso grupo foi se desmanchando pelos calendários da vida. Alguns se
tornaram famosos. Nos últimos tempos eu ia ao campinho e ficava
olhando de longe. Não participava mais. Já não era a mesma anarquia
gostosa de outrora. Nunca mais se continuou um jogo debaixo da chuva.
Nunca mais vi a cara preta de barro do Pedrão, depois que ele
mergulhava numa das fundas poças do campinho, desesperado para
alcançar a bola, fazer o gol.
Agora o "Shopping Center", está nascendo naquele chão ondulado,
enlameado de nossa alegria efêmera, selando para sempre alguma coisa
que se corrompeu em nós.
Fecho os olhos e revivo acontecimentos. Consigo entender porque
aqueles três se transformaram hoje, numa multidão. Multidão que vai
precisar chafurdar em suas contas bancárias aqui e no exterior para se
safar de alguns antigos membros do velho Pindorama. Gostaria muito de
vê-los com a mesma cara do Pedrão. Enlameados em suas profundas poças.
Velhos amigos meus que largaram o futebol da bola nova, queremos saber
por que abandonamos a velha bola do seu Rolf e por que eles acabaram
com nossa bola.
(08 de julho/2006)
CooJornal no 484
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
“Contos de Curitiba” e "Bichos do Poder"
Curitiba - PR
airo@protexto.com.br
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