15/07/2006
Ano 9 - Número 485

ARQUIVO
AIRO ZAMONER

 


Airo Zamoner
  



O contrato

 

Quase todos os dias, Onidal vinha de mansinho à casa de Oirato. Os mais íntimos, para simplificar pronúncia tão estranha, chamavam-no apenas por Oi. Era comum ouvir:

– Oi, Oi. Tudo bem?

E ele respondia sem pestanejar:

– Oi tá bem! - sem vírgula, é claro!

E o que fazia Onidal todos os dias na casa de Oirato?

Explicação difícil para pôr em uma única linha! É necessário um pouco mais de espaço...

Como Oirato não era Oirato por acaso, prestava-se muito a trabalhar de graça para Onidal – que também não era Onidal por acaso. Onidal é daquelas criaturas que nasceram para fazer absolutamente nada. Vivem apenas para enganar os outros. Mas o fazem de forma cortês e muito educada, porém, firme.

No começo, eram apenas ajudas que Onidal pedia a Oirato. Vinha com uma história triste, cheia de boas intenções. Onidal nunca pedia nada para ele! Sempre para os carentes, necessitados e para o bem da sociedade em que viviam... Oirato, sensível a estes apelos, foi cedendo um quinhão cada vez maior de seu trabalho. Um dia, porém, aconteceu algo diferente. Onidal, mais ousado, veio com um grupo de companheiros e um contrato na mão.

– Oirato! Vamos formalizar suas contribuições. Precisamos ter garantias de que poderemos executar nossos planos de benfeitorias para todos, inclusive para você mesmo.

Neste mesmo tom, um por um dos visitantes foram falando, deixando Oirato meio tonto. Olhava para um, olhava para outro e depois para outro. Sua boca foi amolecendo, abrindo involuntariamente. Abobalhado, só ouvia, ouvia, ouvia.

Onidal leu em voz alta o tal contrato e pediu para os presentes votarem pela aprovação. Aprovação unânime, com direito a aplausos efusivos, diante dos olhos imbecilizados de Oirato. Foi uma alegria circense. Festejou-se o documento com um alarido que se espalhou pela vizinhança. Depois que o último convidado colocou seu garboso pontinho ao fim da assinatura, todos se voltaram para Oirato, fazendo um silêncio sepulcral. Sepulcral porque era daqueles silêncios absolutos que só sentimos no cemitério depois da meia-noite. Onidal colocou, até com certa violência, o papel já virado de frente para Oirato. Oirato por ser Oirato de nascença, mesmo sem entender nada, vermelho por ser alvo de tantas atenções, grafou seu nome rapidamente, concordando com tudo. E sabe-se lá que tudo seria aquele...

Desde o dia do contrato, não é mais Onidal que vem recolher seu quinhão. Manda sempre um emissário. Chega de “limousine” blindada, com um séqüito de assessores, mais quatro policiais em motos poderosas como batedores. E cada vez revistam toda a casa de Oirato. Querem saber se ele não está escondendo algum ganho, na tentativa de diminuir o quinhão contratado.

Oirato, certa vez, num gesto de inusitada ousadia, queixou-se que estava pagando muito. Mas só ouvia que Onidal precisava mais, cada vez mais para sustentar toda a máquina administrativa do recolhimento, para empregar muita gente e gente bem paga. É. Não tem jeito. É pagar ou pagar.

Numa daquelas visitas, Oirato revoltou-se e disse não ter recebido nenhum dos benefícios prometidos. Nem ele, nem ninguém que conhecesse. Os assessores de Onidal tentaram acalmá-lo. Deveria ter muita paciência, esperança no futuro. A equipe era muito competente. Estava preparando um futuro maravilhoso para breve, muito breve.

Oirato, por ser quem era, acreditou piamente. Cada dia trabalha mais e mais para poder honrar seus compromissos com o contrato. Todos do bairro também recebem agora as visitas de Onidal. Todos da cidade, do estado e do país, pois Onidal fez crescer muito sua estrutura para distribuir “bem-estar e prosperidade para todos”.

Hoje, todos já mudaram seus nomes para Oirato, ou Soirato. E você? Também mudou o seu?



(15
de julho/2006)
CooJornal no 485


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
“Contos de Curitiba” e "Bichos do Poder"
Curitiba - PR
airo@protexto.com.br