
22/07/2006
Ano 9 - Número 486
ARQUIVO AIRO ZAMONER
|
Airo Zamoner
Ouçam o silêncio!
|
 |
Londrina fervilhava de sonhos. Amassava-se barro em plena Avenida
Paraná. Sem calçamento algum, os passeios eram barrancos altos de
terra nua. O bosque atrás da Igreja Matriz era mata virgem, ávida por
conhecer os prazeres do mundo. Quando os conheceu, entristeceu de dar
dó. Fustigada, cantada, assediada foi perdendo sua virgindade aos
poucos.
O farfalhar metálico das correntes, revestindo pneus, construía o som
do momento. O momento das enxurradas, das chuvas, do barro profundo.
Um cheiro de progresso, de otimismo, de confiança no futuro tomava
conta dos ares e dos bares, das ruas e das puas, dos mercados e dos
pecados, das mentes e das sementes. Eis aí, a “piccola” Londres
tupiniquim de minha infância.
O barulho dos homens com suas máquinas. O barulho da natureza com seus
ventos. Tudo impulsionava corações na construção de um novo canto,
embutido nas florestas frescas e densas do norte de meu Paraná.
Houve um dia, porém, menino ainda, senti um choque nos ouvidos e um
susto no coração. Repentinamente, as rotinas se quebraram. As máquinas
pararam. Os ventos cessaram. O céu, sem nuvens, escureceu a tarde de
verão. No ar estático, homens e natureza largaram suas ferramentas,
pegaram suas armas, suas defesas. Um silêncio longo espinhava as
entranhas, não se falava palavra alguma.
Angustiado, tanto quanto um menino pode ter de angústia, perguntei a
meu pai o que era aquilo. Colocou o indicador nos lábios e disse: É o
silêncio que prenuncia a tormenta.
E a tormenta veio. Implacável, destruidora, impiedosa. Arrasou
plantações. Arrastou casas. Destruiu obras. Desnutriu sonhos. Inundou
praças. Afundou suores. Decepou frutos. Aflorou lutos.
Nunca mais esqueci daquele silêncio aterrador. Hoje, Londrina não é
mais a mesma. Transfigurou-se em metrópole. Não há mais silêncio, nem
tormenta capaz de arrasá-la. Não há mais ninguém com ouvidos para
ouvir o silêncio, trombeteando catástrofes.
Não é mais o silêncio daqueles dias que nestes dias aflige meu
pensamento. Aprendi a ouvir o barulho de meu país. Barulho feito por
braços e cabeças de quem trabalha para valer. E se há barulho neste
Brasil, este vem das máquinas, das mãos e das mentes produtoras que
vencem a preguiça dos aproveitadores. Vence a má-fé dos mandarins de
araque. Ultrapassa o assalto contumaz ao imposto, do imposto, imposto
imoral a ultrapassar os limites da cidadania. Ele que esvazia a
barriga do povo para engordar a pança dos traidores.
Agora, a mesma aflição do silêncio repentino de Londrina-criança me
assalta e me aferroa. É o silêncio desta nação espoliada. Um silêncio
soberano de norte a sul. Silêncio de advertência muda. Um
silêncio-ultimatum.
Ocupados com seus poderes, seus haveres, seus adultérios, não ouvem
nossos perderes, nossos sofreres, nossos revertérios. Ocupada com a
partilha, a camarilha não é capaz de ouvir nossos silêncios.
Agora, a tormenta se avizinha sobre a pátria que foi minha.
(22 de julho/2006)
CooJornal no 486
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
“Contos de Curitiba” e "Bichos do Poder"
Curitiba - PR
airo@protexto.com.br
|
|