29/07/2006
Ano 10 - Número 487

ARQUIVO
AIRO ZAMONER

 


Airo Zamoner
  



O Cacareco de Curitiba


 

Este é um país engraçado. Esta é uma nação engraçada. Somos muito bem-humorados. Enfrentamos nossas vicissitudes com piadas. Fazemos graça com tudo, inclusive com nossas desgraças e as desgraças alheias, mesmo que trágicas.

Houve um tempo em que elegemos um jacaré que se chamava Cacareco. Era a anedota feita na própria desgraça. Como Demóstenes, não encontrávamos um cidadão que merecesse nossa escolha, talvez nem dentro de nós mesmos, e nosso bom-humor votou no Cacareco.

E continuamos fazendo isto ao longo da história recente. O Cacareco original não levou a sério, não assumiu o cargo. Nem poderia. Era absolutamente irracional. Isto deve ter ocorrido já no início dos anos sessenta. Portanto, há quase cinqüenta anos. Mas parece que o político brasileiro nada aprendeu com aquela eleição. Ele vem piorando de ano para ano. Piorou em formação, capacidade, competência e honestidade.

Nos últimos tempos, o povo tem elegido muitos Cacarecos. Só que estes assumem seus cargos, cheios de si, pensando serem grandes estadistas, mesmo que lhes falte qualquer tipo de base educacional, cultural, formativa. Sem caráter, sem ideais, sem valores morais são presas fáceis do crime – quando não são o próprio crime. Não percebem que não são estadistas nem aqui nem alhures, na verdade são meros Cacarecos.

De analfabetos a ladrões, o desfile de cacarecos é sortido. Tem para todos os gostos. O que o povo faz é rir dos eleitos, dos quais nem lembra mais o nome depois de uma semana. Rimos das mentiras repetidas como verdade. Rimos de vê-los empolados, pensando que são grande coisa, quando na verdade se revelam minúsculos, moluscos, minguados, mentirosos de coração e de mente. Cacarecos. Só Cacarecos.

No fundo, sabemos o que está acontecendo. No fundo e no silêncio de cada alma brasileira, há uma sabedoria escondida. Sabemos que nossa brincadeira está acabando muito mal. Dos pequenos bandidos que assumiram cargos, chegamos às grandes organizações criminosas. O Estado, tomado de assalto com o respaldo da Lei, protege o criminoso descaradamente. Pudera! São todos máscaras da mesma face!

Este é um país engraçado. Sempre fomos atrás de um herói.

Quando a vassoura passou a símbolo na lapela de quase todos, a esperança aflorou nas ruas, nas praças, nos corações. Durou pouco. Era mais um Cacareco.

Foi assim também no significativo primeiro de abril de sessenta e quatro. Cansados de cacarecos, nos conformamos com a exceção. Nossa esperança voltava. Viria a limpeza e pela força das armas puras, o povo se livraria dos Cacarecos. Não se livrou. Amargou vinte anos de loucuras.

Quando a nação se cobriu de cores, a alegria voltou. Imensa. A esperança sorriu novamente. O homem colorido iria dar camisa a todos. Iria acabar com os marajás. Todos aplaudiram e deixaram o Cacareco de lado. Não demorou muitos meses e tudo novamente se desnudou. Outro Cacareco.

Era chegada a hora de nova eleição. Este não parecia ser um deles, muito embora a dúvida estivesse na cabeça de muitos. Mas era preciso ousar. Ousamos. A esperança bateu ponto.

Aquele ser puro, límpido, honestíssimo, com uma cara bíblica, cheio de idéias fantásticas, vindo de alguma catacumba desconhecida, finalmente, nos salvaria do mal e nos entregaria a felicidade extrema numa bandeja de prata. A esperança enchia nossas almas. Abandonamos temporariamente o Cacareco e colocamos lá, o nosso herói de plantão. Mas os heróis se tornaram bandidos, no jornal e na novela. Em pouco tempo, percebemos que o salvador era um Cacareco também.

Embora assustado, o país ainda acreditou por um lapso de tempo que tudo estava indo bem... E veio a dúvida, o cansaço, o desânimo...

Da esperança à tristeza foi um passo, um passinho. Da tristeza à profusão de piadas desrespeitosas, muito engraçadas e divertidas é inegável, outro passo, bem mais curto.

E pasmem! Nem mesmo sendo motivo de escárnio, o Cacareco de plantão quer porque quer continuar lá! Desencanto para os que enxergam. Alegria para uma nação posta à margem da informação.

Nunca se cobriu este país com tanto deboche. Nunca este país se rendeu a uma quadrilha tão eficiente.

No lago do Parque Barigui, aqui em minha Curitiba, há tempos surgiu um misterioso jacaré. Ninguém, até hoje, sabe como ele chegou lá. Parece que depois, imitando a Bíblia, brindaram-no com uma fêmea. Hoje, fala-se em filhotes, sem nunca se falar em maçãs. Talvez uma família de Cacarecos esteja sendo gestada sob nossos narizes coniventes...

Onde está a graça?

É! Este é mesmo um país muito engraçado!



(29
de julho/2006)
CooJornal no 487


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
“Contos de Curitiba” e "Bichos do Poder"
Curitiba - PR
airo@protexto.com.br