
19/08/2006
Ano 10 - Número 490
ARQUIVO AIRO ZAMONER
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Airo Zamoner
Aconteceu no 5599
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O cartaz estava ali na cara dele. Petrificado, encarava-o sem
controlar os pensamentos. Correu até a esquina e conferiu a placa
azul, pendurada no poste. Ela não mentia: Rua México, bairro Bacacheri.
Que era Curitiba, não precisava de provas. E que a casa era aquela,
também não. O número estava ali, no bronze brilhante: 5599.
Mas o que fazia ali, na janela de sua sala de estar, aquele cartaz de
Vende-se?
Onde estava a mulher de seus sonhos, aquela com quem se casara mês
passado? Ela, que ficara deslumbrada ao conhecer a capital paranaense,
seu movimento colorido, seus prédios e parques, os ipês amarelos,
florindo no meio deste inverno diferente. Ela que... Não! Só podia ser
obra de algum engraçadinho...
Ao tentar empurrar o portão: o cadeado! Cadeado no portão? Quem o
pusera ali, se nunca tivera cadeado? Enfiou a mão pelas grades com
dificuldade, até alcançar o botão da campainha. Abusou dos apertos:
intermitentes, prolongados, raivosos, danados da vida. Ninguém
apareceu.
Cansado, a luz da tarde já esmaecendo, os pensamentos se digladiando
numa luta dos infernos em meio a ridículas tentativas de considerar
alguma lógica, virou as costas. Caminhou até o meio-fio. Sentou-se na
clássica posição dos desolados.
Veio a idéia luminosa: quem está vendendo? Deve ter o nome de alguma
imobiliária, ou o telefone neste maldito cartaz. Levantou-se, voltou
correndo até o portão. No lusco-fusco, brilhava apenas a palavra
“vende-se”. Mais nada! Nem imobiliária, nem telefone.
O vizinho! Sim, o vizinho saberia alguma coisa. Mas ela estaria ali,
no vizinho, este tempo todo?
Não conseguiu caminhar. Correu como um atleta, trombou no portão
metálico, fazendo tremer o ar e vibrar os tímpanos. Onde está a
campainha? Aqui também esconderam esta infeliz?
Uma luz alaranjada, muito fraca, se esgueirava pelas cortinas. O
ambiente lá dentro parecia romântico. Nenhum movimento. E o diabo do
botão da campainha, onde estaria afinal?
Correu de um lado para o outro. Foi até o poste de entrada de luz. Os
olhos percorriam os recantos escurecidos pela noite que ameaçava
chegar, para se alojar definitivamente. Olhou para cima. Viu os fios
mergulharem pelos vãos do telhado. Um estalo de bigorna fez doer suas
têmporas: o telefone. Que estúpido! Pegou o celular. Procurou açodado
o número de casa, enquanto seus neurônios disparavam a informação: se
ela tivesse adormecido, acordaria, atenderia o telefone. Mas se não
ouviu a campainha, como ouvirá o telefone?
O vizinho! Agora sim, era a salvação. Mas a porcaria do botão da
campainha não estava em lugar algum. Bateu palmas. Palmas
desesperadas, insistentes, malucas, sem parar. As mãos ardiam, ardiam
e ele batendo palmas e mais palmas como um demente. As mãos se
amorteciam e batiam palmas. Com as palmas, o vizinho apareceria,
fazendo silhueta naquela luz mortiça da cortina. Ele perguntaria de
sua amada. Ele responderia... O que ele responderia? Ela fugiu,
arrependeu-se do casamento, voltou para Shangrilá, resolveu vender a
casa. Vender a casa? Como vender a casa, se é alugada? Ou ela estaria
ali com ele? Fazendo o quê?
As palmas não paravam. As mãos já sangravam. Ninguém aparecia. A noite
já mostrava a Lua, subindo pela abóbada negra, brincando de
esconde-esconde com nuvens safadas que escorriam de um lado para
outro, mudando de forma de repente, numa brincadeira mágica neste
vai-não-vai com a Lua muda, de um prata indiferente, seco. Uma vontade
de chorar como criança, de se atirar sob as rodas do primeiro
automóvel que passasse, de arrombar a porta com a força que não tinha,
mas com a raiva que tinha. No pensamento, a idéia de que sua amada
estaria ali, junto com o vizinho, num encontro libidinoso de traição
maldita. Não! Isto não poderia estar acontecendo. Mas poderia estar
acontecendo! Parou com as palmas. Agarrou as grades do portão. Começou
a sacudir insaciável e o barulho de ferro foi se alastrando pela casa,
pela rua, pelo bairro inteiro. Gente incomodada se aglomerou na frente
do número 5599. As mãos sangrando abundantemente perderam o ímpeto.
Ele foi escorregando para baixo num agachar involuntário, enquanto os
vizinhos, todos os vizinhos, menos o maldito vizinho, se perguntavam o
que estava acontecendo.
Ela vem se esgueirando pela pequena multidão que se acotovela para ver
a cena patética. Chega perto dele. Toca seu ombro, seu rosto. Ajuda-o
a levantar-se. Aconchega-o junto à camisola que se tinge do sangue das
mãos feridas. Apóia-o em seus ombros, ampara-o num caminhar lento em
direção a seu lar recém formado. Atravessaram a alameda formada por
vizinhos, muitos vizinhos mudos, que apenas abrem passagem ali, na Rua
México do Bacacheri, na bela Curitiba. Ela sussurra em seu ouvido:
querido! Quando é que você vai aprender que moramos no 5588 e não no
5599?
(19 de agosto/2006)
CooJornal no 490
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
“Contos de Curitiba” e "Bichos do Poder"
Curitiba - PR
airo@protexto.com.br
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