
02/09/2006
Ano 10 - Número 492
ARQUIVO AIRO ZAMONER
|
Airo Zamoner
Finalmente, a verdade!
|
 |
Nada me desperta mais a atenção que a expressão de seu rosto. Olhos
pequenos, escuros, escondidos atrás de sobrancelhas grisalhas de onde
salta um brilho ofuscante. Olhos ligeiros, matreiros, espertos a
contrastar com a velhice que o ronda, que o paquera, que joga alhures
seu charme traidor. O sorriso dele, não é coisa facilmente
identificável. É um ligeiro esgar maroto, quase sarcástico, às vezes
para o lado direito, outras para o esquerdo. É algo forte que agride
meu cérebro.
Algumas vezes cruzo com ele pela Rua das Flores da minha Curitiba
encantada. Em outras, estamos lado a lado, lendo a mesma notícia no
jornal pregado na banca.
No frio, sempre usa um surrado capote desbotado. No calor, o mesmo
paletó xadrez de mangas puídas. Claudicante, corpo encurvado, forçando
o olhar para o chão se contrapondo com uma vontade altiva que ergue o
olhar para o horizonte humano.
Sentir esse duelo, olhar e sorriso, tal e qual exímio espadachim,
atuando em conjunto, causa um desconforto imenso. Gera uma vontade
intempestiva de virar a cara e ver outras coisas pela rua nossa de
cada dia. Ver a juventude sem compromissos, consumindo coca-cola. Ou
admirar os cartazes de candidatos de nossa democracia, sorrindo falso,
mais uma vez, em suas fotos retocadas, ou sentir as mulheres de nossa
terra, rebolativas e graciosas sobre a arte do petit-pavet antigo,
reformado. Mas não funciona! Existe alguma coisa muito importante
nesta criatura que atrai de volta o olhar, na busca de se desvendar o
mistério que ronda por dentro da cabeça enfiada no sobretudo
desbotado. E lá estou eu novamente a vê-lo desfilar o corpo, dos pés à
barriga, formando um zigue, e da barriga à cabeça, formando um zague.
E eu sem coragem de abordá-lo de uma vez, saber de sua vida. Afinal,
por que ele ri? Por que olha daquele jeito indescritível para tudo e
para todos? Por que parece ridicularizar a todos e a tudo? Pensei que
hoje teria essa coragem. Mesmo porque não sei que necessidade é essa
de coragem. Coragem para abordar um aspirante a velho que vagueia como
tantos outros pelas calçadas da civilização contraditória de todos os
dias? Essa é muito boa! Mas faz sentido, sim. Chegando-se bem perto
dele e sendo agredido pela dupla, sorriso e olhar, você compreenderia
o que digo. Ele desencoraja qualquer argumento de conversa,
desembainhando seu florete pontudo. E a gente finge estar indo para
outro lugar, quebrando o vetor da caminhada, como um tolo, um imbecil,
um calouro do mundo.
Há quantos anos eu o encontro, não consigo calcular. Sei que também
acabei sendo vítima e seduzido pela velhice namoradeira e ele continua
por aí do mesmo modo. Resistindo sempre ao assédio macabro, afastando
todos os perigos com a expressão explosiva de seu rosto misterioso. E
porque o meu tempo também andou passando, não preciso mais travar
conversa alguma com ele.
Agora, por exemplo: estou aqui diante da banca de revistas e ele a meu
lado, lendo os jornais que falam as mesmas coisas sobre nossas vidas.
Notícias cercadas de fotografias de caras sorridentes, aparentemente
humilhadas em pedir nosso apoio para que eles consigam seus objetivos
eleitoreiros ou financeiros ou econômicos ou sei lá mais o quê, com a
condição velada, ou nem tanto, de que não consigamos os nossos. Então
eu ganho coragem e de soslaio arrisco investigar para qual notícia ele
se dirige. Ele faz o mesmo e nossos olhares se encontram. Nossos olhos
soltam rajadas brilhantes pelos arredores. Minha boca faz um esgar
para a direita depois para a esquerda. Ele faz a mesma coisa, primeiro
para a esquerda depois para a direita. Silenciosos nos afastamos um do
outro. Eu arrumo minha manga esfiapada e enterro minha cabeça no boné
antigo. Ajeito o ziguezague de meu corpo e enquanto ele desaparece ao
sul, eu vou sumindo para o norte, feliz por saber finalmente toda a
verdade...
(02 de setembro/2006)
CooJornal no 492
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
“Contos de Curitiba” e "Bichos do Poder"
Curitiba - PR
airo@protexto.com.br
|
|