
09/09/2006
Ano 10 - Número 493
ARQUIVO AIRO ZAMONER
|
Airo Zamoner
A viagem de Arlindo
|
 |
Quando o neto saiu do pequeno sobrado e acenou, apontando o polegar
para cima, quase não conteve sua ansiedade. Finalmente, seus dias
iriam ganhar novo colorido. O que vibrava no peito de Arlindo era
coisa que há muito não sentia. Transformara-se num adolescente. Correu
para o micro recém chegado e, tentando lembrar da aula que o neto
acabara de lhe dar, começou a pensar numa viagem. Viagem que faria a
partir daquele dia, como nenhuma outra jamais fizera em sua vida.
Repentinamente, a concentração se desfez por um pensamento intruso,
maldosamente intruso, a perturbar sua alegria. Olhou as paredes do
quarto escuro, refletindo a solidão dos dias e das noites. Viu as
janelas camufladas com véus diáfanos, desgastados pelo tempo. Percebeu
as cortinas que ensaiavam um movimento sinuoso, embaladas pela brisa
do final de tarde. E então, deparou-se com o pequeno abajur antigo,
aquele que acendia uma centena de vezes durante suas noites de vigília
na busca do sono perdido. Noites de caminhadas até a cozinha, da
cozinha ao quarto, às vezes até a varanda para olhar a madrugada
vertendo luzes sombrias a se derramar do poste fronteiriço. Poste que
se tornou seu companheiro de inércia. Era ali, da varanda, que ele
divertia sua insônia. Eram longos papos de velho inspirado na criança
que foi, que não deixou de ser, que voltou a ser. Era capaz de falar
com aquele objeto inerte de concreto a segurar fios imensos com a
paciência dos monges, expondo, incansavelmente, a mortiça luz amarela
até que a manhã vigorosa o despejasse no descanso compulsório. Não se
perturbava com o esvoaçar incômodo das mariposas, zumbindo em coral
caótico. Arlindo tentava interpretar aquela vontade de enviar
mensagens secretas. Mensagens de consolo pelo nada fazer, nada ter,
nada valer, nada, nada, nada...
Um nada que começou na aposentadoria e se agravou com a velhice
profunda, imprestável que impõe o abandono. Todos, todos sem apelo,
têm muito que fazer o dia todo. Ninguém terá tempo para as bobagens de
um ancião que mais nada tem a falar, nem a fazer. Mas o neto! Ah! Este
vale ouro. Ele o visita. Ele abriu esta janela desconhecida, colorida,
cheia de movimentos, vozes, música, pessoas. Pessoas como ele que, no
outro lado da tal Internet certamente irão conversar pacientemente,
alegremente. Vão ouvi-lo com atenção garantida. Sim, sua vida renasce
agora.
As paredes do pequeno quarto vão explodir e voar para longe. Com elas
a solidão se decomporá para sempre. Os véus das janelas serão os véus
das deusas orientais a dançar para ele danças exóticas que o
divertirão noites inteiras. O pequeno abajur se multiplicará em mil
luzes de ribaltas distantes que entrarão em seu quarto,
transformando-o no mais luxuoso camarim de teatros parisienses. O
poste não será mais o poste. Será sua rainha e o acolherá, fará
sussurros libidinosos em seus ouvidos, deliciando-o com carícias
intermináveis ao longo de seus dias, de suas noites.
O telefone bate insistente. Insistente demais.
A madrugada já se apronta, quer partir. É hora tardia.
As luzes já se infiltram por todas as dobras da cidade, das casas, do
sobrado de Arlindo.
O neto, desconfiado, larga o telefone e corre aos saltos.
Seus pensamentos imaginam o avô, ainda deslumbrado com as maravilhas
da Internet, esquecido das horas. Bate inúmeras vezes. Chama.
Experimenta a porta que se abre. Chama novamente. No quarto, Arlindo
está debruçado sobre o teclado. Não teve e nem terá tempo de usá-lo
uma única vez.
(09 de setembro/2006)
CooJornal no 493
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
“Contos de Curitiba” e "Bichos do Poder"
Curitiba - PR
airo@protexto.com.br
|
|