
23/09/2006
Ano 10 - Número 495
ARQUIVO AIRO ZAMONER
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Airo Zamoner
O DEMÔNIO E O ELEITO
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Fez um pacto, uma coligação com o Demônio e ganhou as eleições.
Festejou. O Demônio veio cobrar a dívida. Foi chegando perto do
Eleito. Cutucou suas costas. O Eleito olhou para trás:
– O que você quer?
Tinha um tom de aspereza na fala dura.
– O que é isso? Não se lembra de mim?
– Você acha que vou me lembrar de todo mundo? Não vê que fui eleito
com milhões de votos? Milhões, entendeu? Sabe o que é isso? Milhões!
Não vê minhas ocupações diárias? Nem sei como você passou por minha
segurança, por minha assessoria e tem a ousadia de me cutucar pelas
costas. Vou chamar minha guarda pessoal!
– Calma! Não imaginei que você se esqueceria de quem permitiu sua
vitória...
– Saia pra lá. Qual é a graça, agora?
– Não é graça nenhuma. Você fez uma coligação comigo, lembra? Sou o
Demônio em pessoa aqui novamente! Sou quem viabilizou sua eleição...
– Olhe aqui, seu... Como é mesmo seu nome?
– Demônio!
– Preste atenção, seu Demônio! Eu fiz pacto com todo o mundo. Fiz uma
grande coligação, rapaz! Deixe de ser burro! Pactos se fazem apenas
pra gente se eleger. Depois mandamos todos... Esqueça! Afinal, o que
você quer?
– Você está me faltando com o respeito! Você é surdo? Eu sou o
Demônio! Sou o mal em pessoa! Posso acabar com você e levá-lo para
minha casa pra sempre. Conhece minha casa? Lá você ficará eternamente
e aprenderá a me respeitar!
– Nem conheço você, que dirá sua casa. Que casa é essa?
– O Inferno, seu Eleito dos infernos! O Inferno! É pra lá que vou
levar você. A não ser...
– Deixe de gracinhas e ameaças infantis, seu idiota. Não tenho tempo a
perder. Saia daqui! Se quiser vá até a sala do meu assessor
parlamentar. Deixe lá seu pedido. Aliás, já vou avisando que tem uma
fila enorme pra atender. Vai ter que ser paciente...
O Demônio parecia ter perdido toda a paciência. Gritou e seu gritou
ecoou por toda a democracia.
– Olhe aqui, seu palerma, seu arrogante, seu ingrato. Está
subestimando meu poder demoníaco. Vou levá-lo de corpo e alma para o
inferno se não cumprir nosso pacto.
O Eleito virou-se para o Demônio e cresceu em tamanho. Suas roupas se
rasgaram, pequenas que ficaram para o corpo que se avermelhava em
brasa. Seus olhos se esbugalharam ameaçadores. Suas unhas cresceram
como espadas afiadas. Seu corpo em curva se tornou gigantesco e
inclinou-se perigoso sobre o Demônio.
Inexplicavelmente, o Demônio assustou-se como nunca. Sentiu-se pequeno
e frágil. Lembrou-se do dia em que seu ex-chefe o expulsou da
categoria de Anjo e sofreu novamente. Encolheu-se, acovardou-se e
fugiu para o inferno, seu lar doce lar, onde ficou tremendo até agora
há pouco.
O Eleito voltou imediatamente a ter a agradável aparência humana.
Ninguém percebeu nada. Sorriu sarcástico e debochado para o espelho.
Ajeitou seus cabelos com delicadeza feminina. Retocou o nó da gravata
italiana, ou indiana, ou brasileira mesmo. Estava pronto para a
entrevista que dará nos próximos minutos e que será transmitida por
todos os órgãos de comunicação do país. Claro que será aplaudido por
muito tempo por todos nós. Afinal, foi eleito por milhões! Milhões,
entendeu? Sabe o que é isso? Milhões!
(23 de setembro/2006)
CooJornal no 495
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
“Contos de Curitiba” e "Bichos do Poder"
Curitiba - PR
airo@protexto.com.br
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