
21/10/2006
Ano 10 - Número 499
ARQUIVO AIRO ZAMONER
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Airo Zamoner
MAUS PENSAMENTOS DELICIOSOS
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Centro de cidade sem automóvel é a melhor invenção do século, isto é,
do século passado! Se sua cidade ainda não desfruta dessa comodidade,
brigue com seu prefeito! Você não sabe o que está perdendo! Levar uma
buzinada estridente faz o coração de um tranqüilo aposentado sair pela
boca. É preciso botá-lo de volta antes de desmaiar. Esse é um risco
que não existe mais no chamado "calçadão". É graças a essa invenção
que eu posso andar calmamente até um dos bancos e olhar o pequeno
grande mundo em meu redor.
Numa dessas tardes, fiquei curtindo meus costumeiros maus pensamentos.
E como são bons os maus pensamentos! Desiniba-se das amarras
educacionais e experimente! Pense na sensação maravilhosa de
materializar, de uma vez por todas, um belíssimo soco no nariz daquele
presidente, governador, prefeito, senador, juiz, vizinho, chefe! Vê-lo
capotar de costas, nariz sangrando e correr covardemente para se
esconder na saia da mulher, chorando como criança! Que maravilhoso mau
pensamento! Não faz mal a ninguém, mas faz um bem enorme a você mesmo.
Nessa divagação, nem notei a chegada daquele velhinho.
– Boa tarde!
Foi difícil afastar os maus pensamentos para responder àquele
cumprimento meio rouco e baixo demais para um ouvido cansado de tantas
besteiras vida afora. Olhei para ele e realmente era um velhinho. Boa
tarde arrastado. Muito arrastado. Sua fala era sincronizada com o ato
de sentar. Ato demorado. Espinha dobrando, causando dores. Pernas
fazendo esforço hercúleo para segurar uns noventa anos. Eu ouvia o
rangido das juntas, parecendo uma velha máquina faltando óleo. Não sei
bem se ouvia mesmo ou era o vício dos maus pensamentos. No meio
daquele gesto esquisito do corpo dobrado, joelhos em ângulo, ele parou
a coreografia. O braço foi para trás, apoiando a mão no encosto. Uma
parte do peso ficou ali, naquela mão. Continuou a queda livre até
chegar no assento. Assim que o bumbum chegou o "boa tarde" terminou.
Conclui que estou jovem e leve. A minha resposta foi rapidinha:
– Tudo bem?
– Você não é tão moço assim, para achar que está tudo bem. Você sabe
que não está!
– Só quis saber como o senhor está passando! - acho que ele nem me
ouviu.
– Como vai estar tudo bem se olho para esse meu país e o vejo como se
fosse um avião em desordem? Não tem suprimento para todos. O que a
tripulação faz? Hein? - um olhar, assustadoramente inquiridor,
atravessava o espaço entre seus olhos e os meus.
– Festejam entre eles. Riem de sua própria incompetência e burrice. A
gente tenta mudar a tripulação por outra mais esperta, mais
inteligente e o que acontece? - olhei rápido para frente, escapando
daquele olhar balístico que quase derrubava o país-avião que o
velhinho inventara.
– Eles querem ficar com todos os suprimentos só pra eles e seus
amigos. Então a gente tenta trocar a tripulação por gente menos
esperta, menos ladina e o que acontece? - lá vem ele de novo com o
olhar de fuzil.
– Botam suprimentos pela janela para tentar diminuir o peso! Você me
entende? Estou a noventa anos assistindo a tudo isso. Venho aqui ao
centro, sentar e apenas ter maus pensamentos para me aliviar e você me
pergunta se está tudo bem! Se tudo estivesse bem eu não precisaria dos
meus maus pensamentos! Por exemplo: pense no presidente mais exibido.
Quase todos são assim, mas pense em um deles. Pois então! Vê-lo
sentado naquele vaso branco. Calças arriadas, rolo na mão, aparecendo
em cadeia nacional de televisão. Que belo mau pensamento! Imaginem
como seria o próximo discurso dele!
– Confesso que o senhor é exímio nisto. Estou com inveja!
– Gostou? Tenho outros aqui escondidos, - apontou para as têmporas. -
Mas vou deixar para outro dia.
Começou o que seria o esboço de se levantar. Fiquei assistindo aquelas
manobras do velho e cansado corpo, tentando se erguer e voltar a
caminhar. Ele foi se afastando, trôpego, sorriso matreiro nos lábios.
Lá ia ele, com aqueles maravilhosos maus pensamentos.
Pensei de um dia, reunir todos vocês da confraria dos maus
pensamentos. Fazer acontecerem todos eles, sem exceção! Vai ser a
revolução definitiva!
(21 de outubro/2006)
CooJornal no 499
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
“Contos de Curitiba” e "Bichos do Poder"
Curitiba - PR
airo@protexto.com.br
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