04/11/2006
Ano 10 - Número 501

ARQUIVO
AIRO ZAMONER

 


Airo Zamoner
  



NOSSAS CICATRIZES


 

Meu posto predileto de observação é este banco aqui no centro de Curitiba. É daqui que vejo minha gente, com seus erros e acertos, suas alegrias e infelicidades, suas angústias... Sofro, vendo a esperança escoar devagarinho. Minha tristeza é grande, assistindo os sonhos se apequenando vida adentro. Por outro lado, assisto estarrecido o que se faz pela conquista do poder. O grande poder. O pequeno poder. O poder mesquinho. E até pelo poder idealista.

Quando chegou de mansinho, nem afugentou esses meus pensamentos matinais.

– Bom dia! - arrisquei animado.

– Dia... - relutou em responder e sua economia já se refletia nas palavras.

– Tá um dia bonito, não?

– É...

– Como vai a vida? - provoquei resposta com mais palavras.

– Vai.

Bem se via que não estava para muita conversa. Meia idade, olhar distante, corpo sofrido, alma machucada. Esse era o retrato. Lídimo representante de nossa história, de nosso povo.

– Mora muito longe? - sempre fui persistente...

– É...

Acho que hoje amanheci meio burro. Que pergunta estúpida! É o tipo de pergunta que provoca uma resposta de palavra única até nos prolixos. Resolvi melhorar...

– Muito longe? - outra escorregada... Claro que vai responder sim ou não ou longe ou...

– Sentei aqui pra tentar descansar um pouco. Dá pra me deixar em paz?

Confesso que levei um susto. Senti-me ofendido. Recolhi minhas índoles de bom vizinho.

– Desculpe. Bom descanso!

Descruzei as pernas, ou melhor, fiz aquela troca da perna esquerda com a direita. Apliquei aquela coreografia milenar: perna direita faz um semicírculo no ar e o pé que estava suspenso vai para o chão. A seguir sai do chão o pé esquerdo, sobe, faz o seu semicírculo e a perna vai parar sobre a direita. O pé começa imediatamente a dar aquelas balançadinhas.

– Espera aí. Eu é que peço desculpas. Perdoe-me. Fui grosseiro. Espero que me desculpe.

Dei o troco. Não respondi. Estava chateado. Fiquei olhando para lugar nenhum. Pé balançando...

– Tem razão de se chatear. Por outro lado, veja o que acontece. - tirou de uma sacola encardida, uma espécie de agenda, ou caderno meio esfarrapado. Páginas desalinhadas.

– Está vendo esse caderno?

– Sim - olhei rapidamente e voltei meu rosto. Ainda não tinha passado meu desagrado.

– Não imagina minha alegria, quando escrevi aqui minhas primeiras anotações. Eu tinha casado naquela semana. Minha mulher e eu sentávamos na sala, todas as noites após o jantar, com esse caderno e íamos alinhavando nossos sonhos. - parou um pouco, olhou pra frente e voltou a me olhar. - Estou aborrecendo?

– Agora não! - às vezes não gosto das minhas reações. Podia ter sido mais gentil...

– Passados quase trinta anos de minhas primeiras anotações, aprendi o que faltou...

– O que foi? - mostrei interesse. Afinal, minha mágoa já estava passando.

– A ingenuidade me levou a esquecer uma palavrinha. Pode procurar aqui - ofereceu aquele alfarrábio ensebado - Não vai achar uma única vez essa maldita palavrinha...

– Qual foi a palavra? - já estava curioso...

– O senhor vai achar aqui de tudo. Filhos, casa, emprego, felicidade, alegria, plano de saúde, boa escola... Raios! - ele deu um berro raivoso, chamando a atenção de quem passava.

– Faltou a palavra raios? - perguntei meio imbecilizado.

– Faltou a palavra "poder", homem! Poder! Eu nunca planejei abocanhar poder algum. Daí, tudo isso que eu tinha aqui nesse caderno, foi morrendo aos poucos. Quando minha mulher adoeceu, doença grave, não tive o poder de dar a ela o melhor tratamento. Morreu sofrendo que dava dó. Fiquei com um filho doente também. Precisava uma cirurgia importante. A fila da saúde pública era tão grande que nunca pôde se operar. Hoje sofre seqüelas. Tem vinte e cinco anos e parece que ainda tem sete. Não tive o poder de mudar isso.

Tentei começar alguma observação consoladora, mas ele não me deu tempo.

– Tem idéia de quantas casas eu poderia ter comprado, com todos os aluguéis que paguei? Pois não tive o poder de comprar uma casa decente pra minha família.

– Não se deve perder as esperanças...

Absorto nos meus pensamentos sobre poder, não percebi, e nem meu interlocutor percebeu, a aproximação de alguns policiais por trás de nosso banco. Eles foram rápidos.

– Ah! Então você está aqui, seu safado!

Ele nem reagiu. Colocou seus braços para frente, juntando as mãos sem largar seu caderno. Foi nesse momento que percebi as cicatrizes nos seus pulsos, acostumados com algemas. Profundas cicatrizes que se prolongavam até sua alma.




(04
de novembro/2006)
CooJornal no 501


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
“Contos de Curitiba” e "Bichos do Poder"
Curitiba - PR
airo@protexto.com.br