
11/11/2006
Ano 10 - Número 502
ARQUIVO AIRO ZAMONER
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Airo Zamoner
LADRÃO ÀS AVESSAS
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Ofegante galguei a ladeira da Rua José Danit e parei na esquina com a
Avenida São Sebastião. Vencer aquela subida não é coisa pra
caminhantes de primeiros passos.
Há quem me ache extravagante sair de casa antes dos rasgos que
inauguram o dia. Não sabem que é recomendação médica. E eu gosto. É
hora em que Quatro Barras dorme ainda o sono profundo. Não encontro
viva alma. Se puderem façam como eu. Vocês irão conhecer um centro
diferente daquele que se agita depois das nove.
Tentava retomar a respiração e prosseguir pela Avenida São Sebastião
quando, do ponto em que eu estava, percebi um vulto no muro da
Biblioteca Municipal Princesa Izabel.
A manhã prometia ser agradável, mas ele vestia um capote escuro,
comprido e um boné preto enterrado na cabeça. Aba cobrindo os olhos.
Pulou de dentro pra fora. Examinou o entorno. Ergueu a gola escondendo
o rosto e trocou passos lentos em direção à Igreja. Depois foi se
apressando. Nada carregava, nem se comportava como ladrão.
Tentei segui-lo, esgueirando-me, camuflando-me. Passou rápido ao lado
do Colégio Dom Orione e desabalou a correr até sumir na mata. Parei
muito antes, quase sem fôlego, titubeando entre a curiosidade e o
temor.
O sol já iniciava o fabrico de suas brechas luminosas. A vida de minha
cidade explodiria dentro em breve. Alguns pedestres já apontavam pelos
cantos. Era hora de voltar.
Passei novamente em frente à Biblioteca ainda deserta. Fiquei
imaginando que motivos tinha, o talvez ladrão, para invadi-la.
Precisava voltar aos meus afazeres, percorrendo o longo caminho da
Vinte e Cinco de Janeiro, e mergulhei em meus problemas.
Só voltei a me lembrar do episódio no dia seguinte quando repetia meu
exercício obrigatório. Um pouco mais cedo, apontei a cabeça ao final
da escalada, espiando a Biblioteca. Tudo estava deserto. Pensei, em
minha ingenuidade, imaginar que ele estaria novamente ali. Fazendo a
mesma coisa. E o que é pior, que eu pudesse desvendar o mistério.
Ri de mim mesmo e voltei a caminhar quando ele apareceu. Só podia ser
ele! O mesmo capote, o mesmo boné. Cabisbaixo, caminhava rente ao muro
da Biblioteca. Parou bruscamente. Aproximou dos olhos o volume que
trazia. Olhou-o demoradamente. Cheguei mais perto. Percebi que era um
livro. Repentinamente, ele saltou o muro e contornou a biblioteca. Em
menos de um minuto voltou sem nada nas mãos. Repetiu a cena do dia
anterior. Vontade eu tive de segui-lo, mas desta vez até o final.
Adentrar com ele no mato. Descobrir quem era e de onde vinha aquela
criatura. Fiquei paralisado. Pensei esperar ali até que a vida
rompesse a dormência de Quatro Barras. Entrar na Biblioteca. Descobrir
o que se passava, e há quanto tempo. Mas, não poderia. Precisava
enfrentar a infinita reta da Vinte e Cinco de Janeiro. Andei
ensimesmado. Um dia ainda vou conversar com esse ladrão às avessas.
(11 de novembro/2006)
CooJornal no 502
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
“Contos de Curitiba” e "Bichos do Poder"
Curitiba - PR
airo@protexto.com.br
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