25/11/2006
Ano 10 - Número 504

ARQUIVO
AIRO ZAMONER

 


Airo Zamoner
  



Luísa, a amante do imperador



 

Quando cheguei a Quatro Barras, região metropolitana de Curitiba, não imaginava o que iria encontrar por estas bandas. Encantavam-me as matas abundantes, a proximidade com a Serra do Mar, escancarando o despudorado morro do Anhangava, soberbo, orgulhoso, vigilante. Vim em busca do ar absolutamente puro e da pequena cidade, concentrando quase numa única rua a exuberância de um povo amigo, trabalhador, amante da natureza.

O que eu não esperava, era conhecer Luísa. Encontrei-a, certa vez, na entrada da Secretaria de Educação, ali na Rua Dom Pedro II, perto da Prefeitura. A primeira impressão foi de estar diante de uma dama antiga, pertencente a outra época. Refinada, apesar de suas vestes desgastadas, desbotadas, descasadas, indicava riqueza perdida. O que me chamava a atenção era a qualidade das rendas que se podiam ver apesar do desalinho, do extemporâneo que exalava de cada centímetro seu. Aquilo não era comum. De onde teria saído aquela mulher?

Atrevido, abordei-a. Mostrou-se arredia, temerosa. Afastou-se. Baixou os olhos. Virou o rosto. Pedi desculpas. Disse de minha boa intenção em conhecê-la, pois me parecia de finíssima educação. Perguntei seu nome. Luísa, balbuciou. Foi daí que percebi o sotaque português, ligeiramente afrancesado. Quis saber de onde era e recebi a resposta desalentadora: não sabia. O que procurava? e me disse quase aos prantos: buscava seu amado. Quem era seu amado? insisti, mas ela correu em direção oposta. Tentei alcançá-la. Virou na rua dos Correios. Quando cheguei à esquina, tinha desaparecido. Vasculhei a região toda. Entrei nos Correios. Ninguém a tinha visto. Segui até a outra esquina, junto às oficinas da Prefeitura. Nenhum sinal de Luísa.

Final de tarde de um dia pardacento. Quando fazia minha caminhada vespertina, a cidade já quase parada, notei um vulto descendo as escadas da igreja. Só podia ser Luísa. Mesmas vestes, o andar nobre, passinho por passinho. Corri a seu encontro. Quando me viu, sorriu inesperadamente. Em minha pressa, tropecei, esfolando joelhos e mãos. Quando ergui os olhos, eu a tinha perdido mais uma vez...

Hoje, percorrendo a esmo minha velha enciclopédia, descubro o desgosto de Dom Pedro II quando recebeu sua esposa Teresa Cristina. Chegara da Europa, depois de um casamento por procuração. Decepcionado com seus parcos atributos físicos, tentou até anular o casamento, sem sucesso. Conformou-se com Tereza por 46 anos. Descubro também que foi infiel a Teresa Cristina Maria de Bourbon. E qual era o nome de sua amante fervorosa? A belíssima e inteligente Luísa Margarida de Barros Portugal. Sim, Luísa! Talvez perdida no dia em que Dom Pedro II esteve em Quatro Barras? Absurda conclusão, mas não contive minha ansiedade. Saí em busca de Luísa como um doido. Queria encontrá-la a qualquer custo, contar que eu já sabia de tudo.

Nunca mais a vi, apesar de ter varrido minuciosamente cada metro quadrado de Quatro Barras, em todos os horários, em todas as direções.



(
25 de novembro/2006)
CooJornal no 504


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
"Contos de Quatro Barras"
Curitiba - PR
airo@protexto.com.br