02/12/2006
Ano 10 - Número 505

ARQUIVO
AIRO ZAMONER

 


Airo Zamoner
  



O andarilho marrom

 

Ele andava cabisbaixo, devagar. Caminhada trôpega. Mochila rota às costas. Calças esfiapadas, sujas. Sandaliões de couro bruto, feitos por mãos sem arte, sem esmero, mas parecendo resistentes.

Caminhava pela margem da estrada que liga Curitiba a São Paulo, nas imediações da entrada para minha Quatro Barras, cidade que adotei há quase quinze anos. Como não levantava os olhos, o acostamento o conduziu imperceptivelmente para o centro da cidade. Resolvi acompanhá-lo de longe, para ver quando notaria o engano. Desceu a grande curva e passou por baixo do magnífico portal. Os transeuntes logo percebem que estão entrando numa área diferente, um lugar em que a natureza tem vez e a preservação é o ponto alto. Ele nem se deu conta de nada. Subiu em direção ao semáforo moderno, sem levantar a cabeça uma única vez.

Rosto marcado pelas surras da vida. Olhar mortiço. Muito cabelo explodindo para fora de um chapéu ensebado. Olhando-o de longe, era apenas mancha amarronzada no cenário. Tudo nele era marrom. Pele. Roupa. Sandálias. Olhares. Tristeza. A tristeza era tão profunda, que sua alma também deveria estar marrom.

Semblante fixado para baixo, o corpo se vergou para compensar a inclinação da subida. Os passos se encurtaram e a marcha vagarosa se tornou ainda mais lenta. Passei por ele, procurando um lugar para estacionar por ali, de fronte à Papelaria Pôr-do-sol. Voltei a pé pelo outro lado da rua, sempre observado o andarilho marrom.

Ele não se importava para aonde ia. Queria apenas ir... Ou, quem sabe, fugir. Deixar sua vida para trás. Abandonar suas marcas indesejadas. Talvez esquecer alguma coisa trágica. O que poderia ser? Precisaria abordá-lo, arriscar uma fala amistosa. Quem sabe me tornar um ombro amigo. Que bobagem! Um perfeito estranho, ou um estranho perfeito, não me daria atenção. Ou pior: pedir-me-ia alguma coisa, moeda, passagem de volta, de ida e sabe-se lá o que mais todos pedem por aí.

Ele prosseguia lento, passando em frente à Prefeitura. Não desviava de ninguém. Desviavam dele, isto sim. Alguns olhavam para trás, sacudindo a cabeça em desaprovação. Talvez cheirasse a álcool. Talvez cheirasse muito mal. Sujo como estava, certamente não estaria perfumado.

Continuei pelo outro lado da rua. Já estava diante do Colégio Graciosa. Foi aí que aconteceu o inusitado. Alunos se aglomeravam, uniformizados, alegres, falantes, prontos para uma chacota qualquer. Pela primeira vez, desde que o encontrei na estrada, ele parou. Olhou para os alunos, voltou seu rosto para o Colégio. Levantou a cabeça, percorreu toda a fachada com o olhar vagaroso. Janela por janela. Parede por parede.

Ficou ali, estático, apenas olhando o prédio, enquanto os alunos se dissipavam. Ele não arredou pé.

Resolvi me aproximar. Cheguei de mansinho. Vi seu rosto borrado pela mistura de poeira e lágrimas. Arrisquei um “olá” discreto. Olhou-me demoradamente. Passou as costas das mãos pelo nariz, nos olhos. Mais aumentando a sujeira que diminuindo. Arriou a mochila das costas. Escarafunchou no meio da balbúrdia de coisas inúteis. Tirou uma foto com as bordas carcomidas. Foto envelhecida, em preto e branco, beirando sépia. Virou-a para que a visse. Era a fachada de um Colégio antigo e uma turma em festa de formatura. Todos rindo felizes, professores e alunos. Ele apontou o dedo emporcalhado para um dos mestres. Olhei demoradamente. Vi um homem jovem, semblante cheio de alegria e o reconheci! Fiquei sem palavras. O professor era o andarilho de Quatro Barras.

Guardou a foto. Fechou a mochila. Virou-se para o centro e saiu caminhando, mais trôpego, mas cabisbaixo, muito mais marrom.



(02
de dezembro/2006)
CooJornal no 505


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
"Contos de Quatro Barras"
Curitiba - PR
airo@protexto.com.br