09/12/2006
Ano 10 - Número 506

ARQUIVO
AIRO ZAMONER

 


Airo Zamoner
  



A menina de Quatro Barras

 

Chuva barulhenta e ventanias assustadoras varriam impiedosamente o centro de Quatro Barras. Toldos arrancados voavam descontrolados. Galhos de árvores se soltavam e se projetavam pelo ar. Árvores enormes se contorciam, ameaçando cair. Placas balançavam perigosamente. Muitos lembram bem deste dia.

Protegido em meu carro, andava devagar em direção à Estrada da Graciosa quando vi aquela figurinha encolhida, sentada num vão de muro que hoje não existe mais. Segurava os joelhos numa tentativa de ficar menor, reduzir as ameaças. O vento fustigava o rosto amedrontado.

Manobrei o carro e subi na calçada, aproximando-me o máximo permitido naquela hora. Abri o vidro e o vento aproveitador fez turbulência, trazendo a chuva em conluio malandro. Gritei para sobrepujar os roncos da natureza, perguntando se precisava de ajuda. O rostinho era de menina, mas menina apavorada. Quer se abrigar da chuva? Não respondeu. Está com medo? Venha pra cá. Não reagiu. Continuou como se ninguém ali estivesse.

A água intrometida, fria me encharcava. O vento trovejava um rumor que me angustiava, me chateava. E me chateava porque ria de mim como louco. A chuva batia seus milhares de dedinhos, tamborilando raivosa no carro, no vidro, em minha cara estupefata. Não podia mais deixar aquela janela aberta. Gritei pela última vez que viesse pra dentro do carro. Não se mexia, aquela figurinha. Mas tremia e continuava tremendo, apertando cada vez mais as pernas contra o peito.

Vestido fino, leve, floreado. Flores vivas. Pés mal abrigados numa sandália. Sim, aquele tipo de sandália cor verde-ninguém, uma tira em forquilha, fingindo proteção, mas cobrando o preço de se intrometer entre dois dedos e ficar ali até que a vítima se acostume, aceite, conforme-se e por fim ache bom, muito bom.

Gritei mais uma vez depois daquela última, agora a plenos pulmões, antes de fechar a janela de verdade e desistir vencido.

O vento não perdoou nada nem ninguém naquela tarde escura.

A calçada era varrida brutalmente, os detritos viajavam burlando os limites de velocidade, numa desabalada carreira, levando tudo o que encontravam pela frente.

Formigas se aglutinavam estranhamente nas vizinhanças dos pezinhos da menina, uma fila desesperada em busca da entrada do formigueiro, da proteção.

Fechei a janela um pouco. Pensei outro pouco. Como deixá-la ali, daquele jeito? Como trazê-la para a proteção? Como continuar no meio da tempestade mais longa e violenta da história de minha Quatro Barras?

A fila enorme de formigas se desfazia em balbúrdia incompatível com sua organização espartana. Levantei os olhos, a menina sorriu de leve, olhando para baixo. Nos pés, uma fila gigantesca de formigas subia pela sandália, depois pelos dedinhos, continuavam a fila nas pernas e ela apenas ria. Não reclamava, parecendo gostar do inusitado. Aos poucos, todo seu corpo deslizou pelo calçamento, rindo muito, gargalhando como se cócegas desmedidas tomassem conta de sua pele inteira. Ainda segurando os joelhos, deslizou cada vez mais depressa pela calçada, até desaparecer num terreno baldio, fazendo curva perigosa.

A chuva, aos poucos silenciou. O vento, aos poucos se converteu em brisa. Liguei o motor do carro, andei, também aos poucos, até a frente do terreno abandonado. Atônito, só pude ver a mãozinha da menina para fora do buraco de um gigantesco formigueiro, sacudindo um inacreditável adeus.



(09 de dezembro/2006)
CooJornal no 506


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
"Contos de Quatro Barras"
Curitiba - PR
airo@protexto.com.br