
30/12/2006
Ano 10 - Número 509
ARQUIVO AIRO ZAMONER
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Airo Zamoner
Sorriso sem-vergonha
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Nemésio acordou disposto naquele dia. Comemorava mais um ano de vida,
além dos sessenta completados ano passado. Todos notaram sua alegria,
seu otimismo e estranharam. Estranharam, porque há anos andava
macambúzio, deprimido, descontente com o mundo, ranzinza, chato,
enfim. Estranharam, porque de repente ele se levantou, espirrando
alegria pela cara. Estranharam mais ainda, porque não cumprimentou
ninguém. Nem olhou para a mulher, para os filhos, para a Bástia, a
velha empregada herdada dos pais de Custódia.
Cantarolando, barbeou-se e, durante o café, mexia-se desenvolto. Não
respondeu aos cumprimentos. Fugiu dos abraços, constrangendo até o
Bica, netinho de oito anos, órfão de pai, que de mochila a tiracolo
tentou abraçá-lo. Custódia o repreendeu firmemente, argüindo-o sobre a
razão daquele comportamento estapafúrdio.
Nemésio não se abalou. Não respondeu. Sequer perturbou seu cantarolar
de um samba antigo de Noel. Pegou sua pasta, sorriu para ela.
Abraçou-a com carinho inusitado, fechando os olhos, esboçando um ar de
apaixonado. Acariciou o chaveiro com estranho cuidado e delicadeza,
demorando um bom tempo sob os olhares atônitos da família.
Já na porta, voltou-se, deparado com aquele grupo de pessoas
assustadas. Por um momento, todos acharam que era uma grande
brincadeira e que agora correria para elas num abraço coletivo. Mas,
não! Ele apenas dirigiu o olhar para o teto, para as luzes, para os
quadros na parede, para os bibelôs encardidos da cristaleira e, sempre
olhando para eles, acenou em despedida. Jogou beijos, sumiu.
Apinharam-se na janela e ainda puderam ver Nemésio saltitando
felicidade desusada. Quando desapareceu na esquina, voltaram-se em
olhares de estupefação.
Custódia foi a primeira a falar, tranqüilizando a turma de que aquilo
só podia ser uma crise da idade e que tudo voltaria ao normal na hora
do almoço.
E quem disse que Nemésio voltou para o almoço? Buscas daqui e dali,
constataram que nem ao trabalho compareceu. Sumira!
Organizaram as buscas. Mobilizaram parentes, amigos, vizinhos,
conhecidos, bares e clubes da redondeza. Nem um único sinal do Nemésio.
No dia seguinte, a casa amanheceu cheia de gente querendo ajudar, mas
a conclusão era uma só. Tinham que partir para a polícia, para
hospitais e, quem sabe, até para necrotérios.
Depois de dez dias, o desânimo era total. Apelaram para a imprensa,
para a Internet. Sua foto foi publicada em toda parte. Um grupo de
colegas de trabalho imprimiu cartazes; forraram o bairro.
Custódia chorava pelos cantos sujos da casa. Bástia molhava o avental
de lágrimas abundantes. E Bica já nem lembrava que um dia tivera um
avô.
Vencidos pelo cansaço e pelas evidências dos meses corridos, foram
retornando à pachorrenta rotina antiga. As coisas foram aos poucos se
ajeitando.
O vizinho advogado, prontificou-se a mexer com a papelada. Custódia
precisava receber o seguro, a pensão. A vida tinha que prosseguir.
Algo, porém, intrigava Custódia. Por que naquele dia Nemésio não olhou
para ninguém? Por que apenas os objetos foram alvo de seu interesse? O
amigo psicólogo tentou explicar. Custódia não conseguiu entender
aquela conversa estranha sobre o desencanto com o mundo, com as
pessoas e uma substituição de sentimentos em direção aos objetos.
Bica foi quem puxou Custódia e a mãe pela mão para dentro do museu.
Ele insistia para ver o avô. De nada adiantou dizer que Nemésio havia
sumido para sempre. Quando entraram, Bica soltou-se das mãos, correu
certeiro até a mais nova aquisição do museu local: a estátua de um
homem sorridente, envolto por objetos de todos os tipos e cores.
Alguém fizera a doação. O material e a origem estavam sendo
investigados. Eram desconhecidos. Bica se abraçou à escultura. No meio
de tantas coisas coloridas, o rosto de Nemésio sorria um congelado
sorriso sem-vergonha.
(30 de dezembro/2006)
CooJornal no 509
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
“Vim te contar vinte contos”, Ed.Protexto, 2006
Curitiba - PR
airo@protexto.com.br
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