20/01/2007
Ano 10 - Número 512

ARQUIVO
AIRO ZAMONER

 


Airo Zamoner
  



Vitorina

 

Seu rosto titubeava entre criança e mulher. Olhos jorrando alegria perdulária por todos os brilhos. Flor nos cabelos a concorrer maldosamente com o sorriso colorido. Vestido de festa junina, rodado, estampado, abundante, chocando desinibido com a moda corrente. Mangas bufantes na impúbere manhã de uma primavera distante. E a cesta repleta de pequenos ramalhetes de amor-perfeito engatada na mão esquerda. Interrompeu seus passos bruscamente quando, cabisbaixo, distraído em meus pensamentos solitários, não pude desviá-la a tempo e, num encontrão do destino, a segurei para que não caísse. Único reflexo que funcionou razoavelmente na surpresa intempestiva da trombada iminente.

Não se assustou. Ao contrário, riu solta, enquanto esperava conformada que a largasse. O assustado era eu mesmo. Demorei um tempo, nem sei quanto, para me recompor e libertá-la, sem constranger-me, sem constrangê-la. Ela aguardou paciente que me refizesse, deixando que eu a prendesse sem esboçar reação que não fosse rir. Rir na mais larga amplitude.

– Desculpe! – foi o máximo que consegui balbuciar, ao tempo em que soltava seus braços.

Ela ajeitou a flor dos cabelos, tirou da cesta um ramalhete de flores e me ofereceu, silenciosa, jogando em minha cara o mais intrigante de todos os sorrisos.

– Sou Vitorina!

Não me deu tempo de suspirar ou de me apresentar em retribuição. Muito menos de pagar pelas flores. Afastou-se, pulando como criança, flertando como mulher. Como um tolo, estático, fiquei travado uma eternidade inteira e talvez mais outra.

– Hei! – gritei desconsolado, levantando o ramalhete – Quero pagar!

Jogou um beijo com a mão direita e sumiu na multidão viciada de solidão, espalhada pela calçada da Rua das Flores.

Perdi o rumo do que fazia naquela manhã estúpida, pasmado pela inércia de meus reflexos. Devo ter parecido um perfeito idiota, segurando as flores lá no alto e olhando para lugar nenhum em busca de alguma coisa, de coisa alguma.

No dia seguinte, no outro e em outro mais, tentei como criança reproduzir cada passo, cada gesto. Calibrei milimetricamente o lugar da calçada, na esperança infantil de que tudo se repetisse; porém, com uma diferença única: eu estaria preparado e a seguraria mais tempo e assim mergulharia com desespero para dentro de Vitorina.

A multidão não era a mesma. Não se movia do mesmo modo. Não tinha os mesmos sonhos, nem o mesmo destino. A conjunção dos detalhes da vida jamais se repetiria, jamais se repete.

Teimoso, vaguei por mil dias; depois outros mil, até que o cansaço da alma me jogasse de volta para a vida e a névoa da memória ingrata fosse apagando pouco a pouco a emoção abortada no encontro fugaz.

Enfiei-me na multidão, mergulhando nos labirintos de meu povo que quer o clarão da esperança. Esperança que escapa de suas mãos pelo ralo de cada novo Sol, como Vitorina me escapou um dia. Nem percebi que depois de tantos anos andava no mesmo lugar. No mesmo exato lugar, arrastando meus pensamentos igualmente solitários.

O encontrão foi inevitável. A flor nos cabelos. O sorriso inconfundível. A mesma fisionomia, titubeando entre menina e senhora. A alegria vazando incontida nas flores da cesta de amor-perfeito. O mesmo vestido colorido. Tudo igual, apesar dos anos impiedosos que me envelheceram. Segurei-a quase brutalmente. Senti que seu rosto se crispou assustado quando gritei:

– Vitorina!

Num relance, a cesta não tinha flores. Na mão direita um celular; na esquerda, uma pasta executiva. O vestido era sóbrio. A fala era dura:

– O senhor, por favor, me largue! Não sei quem é Vitorina! Dá licença?



(20 de janeiro/2007)
CooJornal no 511


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro “Dezoito Mulheres, dramas e amores”

Curitiba - PR
airo@protexto.com.br