
03/02/2007
Ano 10 - Número 514
ARQUIVO AIRO ZAMONER
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Airo Zamoner
Quem são eles?
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Quem são esses homens e mulheres que se alojaram na torre? Torre alta, tão
alta que seu topo fica imerso em bruma diabólica. Tão inacessível a exibir
luzes de outros mundos. Nesta torre de acesso proibido, de intestinos
decorados com a mais escandalosa suntuosidade, eles deslizam como
excrementos de luxo, em seus caminhares leves e felizes.
Quem são estas mulheres e homens? Missionários? São todos tão cheios de
idéias, tão preparados e inteligentes, abnegados defensores dos destinos
brilhantes de seus feudos...
Quem são eles que seus risos ecoam pelos campos e cidades, misturando-se
com o choro desesperado dos que rastejam lá longe?
Quem são eles que se alojam nesta maldita torre e nada mais vêem a não ser
uns aos outros, acotovelando-se ao redor do cofre que somos compelidos a
rechear todos os dias, cada vez com mais ouro, pedras preciosas, moedas,
riquezas sem fim, tudo arrancado de nossas mãos doloridas, pela força do
poder desta torre dos infernos?
Quem são estes homens e mulheres? Gritamos aqui do chão, mas eles nada
ouvem. Não reagem, não se importam. Nem se abalam com os rumores
sanguinolentos que escalam as íngremes paredes desta torre abominável, mas
que, antes de esbarrarem nos limites de suas janelas imponentes, esgotam
suas energias e escorregam miseráveis para o chão seco que abriga nossos
restos.
Quem são eles? Estou cansado! Você está cansado! Estamos todos cansados
desta farsa a que nos submetem todos os dias. Derrubar a torre, já a
derrubamos algumas vezes. Eles a reconstroem, porém, com a rapidez de suas
mãos leves de exímios batedores de carteira, surrupiando o sorriso
inocente que alimenta nossa lida. Eles a reconstroem usando as lágrimas de
nossas mulheres que apanham, que berram nos partos, que criam filhos
aleijados, que educam corações empedernidos, corpos dilacerados pela
droga, suas crianças assassinadas pelos monstros criados por eles para nos
encurralar em grades e morte. Derrubar a torre? Quem são eles que a
reconstroem com o suor e o calo de homens esfolados, escurecidos e
franzidos pelo sol, pela escravidão do trabalho imenso, forçados pela
sobrevivência biológica, produzindo a riqueza a se esvair abrupta de suas
mãos feridas por algemas, escorregando para o cofre ambicioso da torre dos
homens. Mas que homens e mulheres são eles?.
Quem são vocês, homens de pedra?
Quem são vocês que vivem encapsulados por embalagens brilhantes,
coloridas, lindas, fabricadas por feiticeiros pagos, sem que saibamos, com
nossas mortes prematuras? Quem são vocês que vivem a seduzir nossas
inteligências medíocres, empobrecidas com a sagacidade hipócrita de
demônios insaciáveis, mantendo-nos como escravos para todo o sempre?
Quem são vocês que não se perturbam com a fama desgraçada de desonestos,
mentirosos, traidores, assaltantes de nossas pobrezas, assassinos de
nossos filhos, feitores de nossa escravatura eterna?
Homens imundos! Estamos cansados e não sabemos o que fazer! Esta torre,
que deveria ser o símbolo de nossa liberdade, se sustenta com nossa
ignorância, com nossa conformada servidão histórica, com nossa
incapacidade eterna de vê-los como na verdade são.
Mas, quem são vocês, afinal?
(03 de fevereiro/2007)
CooJornal no 514
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
“Dezoito Mulheres, dramas e amores”
Curitiba - PR
airo@protexto.com.br
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