10/02/2007
Ano 10 - Número 515

ARQUIVO
AIRO ZAMONER

 


Airo Zamoner
  



Santa ou demônio?

 

Anda sempre carregando um enorme saco às costas. Pouca gente aqui de Quatro Barras, imediações de Curitiba, conseguiu ficar frente a frente com a criatura. É voz corrente que ela realmente existe, porque nas rodinhas que se formam ali pelo centro, seja nas imediações dos Bancos, ou em frente à lotérica, sempre tem alguém que jura tê-la visto. Alguns afirmam, categoricamente, terem trocado algumas palavras.

Não se sabe ao certo se é homem ou mulher, já que as histórias se contradizem. Nem mesmo a idade é conhecida. É um velho, dizem alguns. É moça, muito moça, dizem outros, acrescentando que, por trás dos andrajos, há um lindo rosto de mulher.

Uma santa! Até isto já se ouviu afirmar. Corre, à boca pequena, que ela operou alguns milagres na redondeza.

A vendedora de guloseimas que fica muitas vezes ali no Coreto, voltava para casa numa noite escura. Vinha sozinha e chorava muito. Um exame feito lá no Hospital Cáritas indicava sofrer de um câncer mortal. Chovia a cântaros, quando ela se deparou repentinamente com alguém, segurando um enorme volume sobre suas costas. O susto foi grande. Parou congelada, olhando aquele vulto. Parecia uma santa iluminada, chegando de mansinho. Não pôde se mexer. Esperou tensa, ansiosa. A mulher, se é que era mesmo mulher, pôs a mão sobre sua cabeça. A tensão desapareceu subitamente. Fechou os olhos e quando voltou a abri-los, a chuva tinha passado. Suas roupas haviam secado. Um luar mortiço iluminava o entorno. Não havia ninguém. O câncer havia sumido. Novos exames foram conclusivos. Sim, é mulher. É santa. É linda!

Um demônio, afirmou o velho taxista. Disse tê-lo atropelado numa noite nevoenta, lá pelos lados de Borda do Campo. Jurou ter passado por cima do corpo. Sentiu o tranco. O carro balançou muito, quase saindo da pista, mas viu pelo retrovisor a criatura em pé, gesticulando raivosamente, segurando um saco enorme, intacto, pendurado nos ombros. Antes de chegar ao Colégio, na entrada da cidade, não sabe como, mas os quatro pneus furaram ao mesmo tempo. O carro derrapou, bateu no meio-fio e quebrou uma das rodas. Só pode ter sido maldição daquele desgraçado. É o diabo em pessoa. É horrível!

Incrédulo, sempre debitei estas lendas à fértil imaginação do povo que é hábil em fazer crescer determinas histórias. Foi assim que, numa destas manhãs impúberes, quando uma leve neblina embaça a vista e o silêncio impera, aguardando que a vida comece ali no centro, senti um sussurro muito perto de meus ouvidos:

– Já não agüento mais segurar este peso!

A voz era mansa, timbre agradável, dicção perfeita. Virei-me rapidamente mas não vi ninguém. Continuei a caminhada, consciente apenas do ruído de meus passos, quando novamente alguém resmungou:

–Por que insiste em carregar todo teu passado aí dentro?

Parecia a mesma voz. Dava a impressão de ser feminina, aveludada, culta, até.

Parei. Fiz um giro de trezentos e sessenta graus, com o cuidado de um matemático e o detalhismo de um artista. Vasculhei canto por canto. A neblina incomodava os olhos. Apurei os sentidos. Vi dois vultos se afastando. Conversavam. Iam em direção à estrada federal. Cada um com um saco às costas.

Tive certeza! As histórias eram mesmo verdadeiras, a não ser por um detalhe. Eu estava vendo, juntos, a santa e o demônio.




(10 de fevereiro/2007)
CooJornal no 515


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro “Dezoito Mulheres, dramas e amores”

Curitiba - PR
airo@protexto.com.br