10/03/2007
Ano 10 - Número 519

ARQUIVO
AIRO ZAMONER

 


Airo Zamoner
  



QUEM É VOCÊ?


 

– Quem é você?

– Eu sou EU, ora essa!

– Ah! Então é você o modelo?

– Sim! Sou o modelo absoluto para tudo neste mundo. EU sou quem dita as normas. EU sou quem dirige os destinos de todos... EU...

– Desculpe interromper, mas e seu sobrenome? O sobrenome é sempre muito importante...

– EU não preciso de sobrenome. EU me basto...

– Desculpe interromper novamente, mas não acha isso um pouco petulante?

– Não posso fazer nada quanto a isso. O fato é que fui e sou competente para chegar onde cheguei. Agora todos devem se curvar diante de minha presença...

– Mas você é relativamente novo. Como conseguiu ultrapassar os mais velhos, os mais experientes?

– Bem, isso é uma longa história... E você, quem é?

– Não se irrite, mas também sou EU.

– ...?%@#

– Calma, não precisa apelar. Tem mais uma coisa. EU tenho sobrenome, não sou como você que fica se vangloriando pelos quatro cantos do mundo e nem sobrenome tem...

– Olhe aqui, seu pirralho subdesenvolvido. EU não preciso de sobrenome. EU sou EU e basta! Portanto, pare de fazer perguntas e vá fazendo sempre o que EU mandar.

– Nossa! Que violência!

– É isso mesmo! Sou violento quando não sou obedecido...

– Mas você mesmo me disse há pouco que é o modelo absoluto... Por certo é também um modelo de democracia, de honestidade, de probidade. Estou estranhando a afirmação de que é violento quando não obedecido. E a democracia?

– Sou violento para justamente salvaguardar a democracia. Quero porque quero a democracia imperando no mundo todo, nem que pra isso tenha que invadir todos os lugares e impor a democracia a qualquer preço.

– Não acha isso um contra-senso? Credo! Que horrível!

– O que EU penso não interessa a ninguém, muito menos a você que nem sei quem é...

– Já disse que tenho sobrenome... Mas o que interessa mesmo é que vim aqui pra te vender algumas coisinhas...

– Coisinhas? Suas coisinhas não têm qualidade pra competir com as minhas. EU sou o melhor, o mais competente, o mais evoluído, não sabe? Pra que vou precisar das suas coisinhas? Que coisinhas?

– Estão aqui. Dê uma olhada...

– Nossa! Quanta coisa! Como foi que conseguiu? Estou abismado...

– E tem mais. Olhe bem pra elas. Veja a qualidade. Veja a criatividade. Veja o design. Desculpe-me, mas eu estou fazendo as coisas bem melhor que você...

– É, mas por certo o preço não é competitivo. EU faço sempre melhor e mais barato...

– Aqui está a tabela de preços. Veja que é praticamente tudo pela metade de seu custo...

– Se você consegue fazer mais barato é porque está roubando, ludibriando, e isso não vou permitir... EU posso impedir que você venda essas coisinhas...

– Olha! Na verdade eu já sabia que teria essa conversa. Eu vim aqui mesmo, foi pra mostrar e avisar que você é na realidade uma casca meio apodrecida...

– Ei, que ousadia é essa? Vá...

– Não me interrompa! Casca apodrecida, sim! E trate de ir melhorando essa podridão aí. Pra começar, arranje um sobrenome decente. Eu tenho sobrenome. Um sobrenome bem brasileiro. Sou EU do Brasil, Estados Unidos do Brasil se preferir. E você? Só Estados Unidos? Só EU? Ah! Você emprestou o “América”, pra quebrar um galho, não é? Que falta de imaginação! Olha aqui, modelito. Seus dias estão contados... Tem muitos outros “eus” chegando... Bem melhores e todos com sobrenome...


(10 de março/2007)
CooJornal no 519


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro “Dezoito Mulheres, dramas e amores”

Curitiba - PR
airo@protexto.com.br