
17/03/2007
Ano 10 - Número 520
ARQUIVO AIRO ZAMONER
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Airo Zamoner
O BECO DE NAZIRA
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Nazira morava num vão estreito entre dois prédios do centro. Vendia sorte.
Uma espécie de amnésia a impedia de ser infeliz. Sorria sempre, um sorriso
desdentado. A voz esganiçada ecoava oferecendo fortunas. A roupa que
vestia era a única que possuía para trabalhar, passear, dormir.
Acordava e no repuxo da praça fazia uma suposta higiene matinal. Corria
até a lotérica. Seu João confiava em consignação alguns bilhetes. Era
honesta. Sempre prestou contas até o último centavo. Dava pra comer e
viver mais um dia.
No meio da tarde devolvia os bilhetes não vendidos antes que saíssem os
sorteios. Se ficasse com algum em suas mãos perderia tudo o que ganhara.
Depois, vagava pelas calçadas. Lia os jornais pregados nas bancas,
aglomerando-se com outros curiosos. Opinava sobre as notícias, puxando
conversa. Parecia entender de tudo. Para os transeuntes, sua conversa
parecia demência. Afastavam-se. Debochavam. Nazira nem percebia. Apenas
vivia sem planos, sem saudades, sem dores.
Passeava pela redondeza, aguardando a noite. Remexia nos lixos das lojas
em busca de alguma fita colorida para pregá-la em seu vestido sujo e ter a
ingênua impressão de roupa nova.
A noite chegava e Nazira corria para o vão dos prédios, deitar-se em seus
papelões protegida do vento, do frio, do medo. Deitava-se mesmo era sobre
os esquecimentos, protegida da miséria.
Acordava com os primeiros ruídos. O centro tem seus ruídos cativos quando
dá os primeiros sinais de vida. Para Nazira, as notas musicais dos latões
trombando uns com os outros era sua música preferida. Gostava do matracar
das portas de aço, enrolando-se para descortinar o palco dos bares. Ficava
atenta para ouvir o atrito das vassouras de garis preguiçosos. Apurava os
ouvidos para sentir o arrulhar dos pombos em busca dos grãos. Essa era a
orquestra de Nazira, que fazia seu espetáculo todas as manhãs. E ela, sem
lembranças de sonhos, recomeçava seu ciclo enfadonho como se fosse o
primeiro grande acontecimento de sua vida.
Eu a vi pela primeira vez num momento desses. Ela se esgueirou pelo beco,
ajeitando sua saia colorida de fitas. Espreguiçou-se faceira e sorriu,
jogando o olhar investigativo para conferir os detalhes da cena e correr
para o repuxo.
Segurei-a pelo braço, nem sei porquê. Ela me encarou sem susto. Jogou-me
dois grandes olhos negros e depois olhou seu braço preso. Larguei-a
incontinente. Obedeci ordens de uma rainha. Ela ajeitou-se,
empertigando-se. Pedi desculpas. Disse que a estava observando. Quis saber
seu nome. Foi então que soube ser Nazira.
Caminhamos juntos vagarosamente até a lotérica. Perguntei muitas coisas.
Ela respondia com um sorriso contido, prendendo os lábios para não mostrar
as lacunas. Enrolava as fitas nos dedos como menina envergonhada, e
caminhava como rainha petulante. Escondeu sua história quanto pôde. Pediu
licença com a fineza de uma dama e depois sumiu na cidade como fugitiva.
Encarei a multidão. Examinei com cuidado. Era feita de brasileiros a
correr para todos os lados. Bem vestidos, mal vestidos. Pobres, ricos e
remediados. Aflitos, alegres, infelizes, tristes, felizes. Corriam atrás
de fitas, de becos, de mais um dia de vida. Achei que Nazira havia sido
uma ilusão dos meus devaneios. Olhei para esse meu povo brasileiro e vi a
Nazira em cada um deles. Saí deprimido dali e fui procurar um vão estreito
entre dois prédios quaisquer. Não consegui. Estavam todos ocupados.
(17 de março/2007)
CooJornal no 520
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
“Dezoito Mulheres, dramas e amores”
Curitiba - PR
airo@protexto.com.br
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