Rosa Clement
Nasci em Manaus, quando a cidade pouco conhecia asfalto e shoppings.
Eram dias de missas fervorosas de domingos, folclore alegre e
verdadeiro, tartarugadas aos domingos, peixe grande assado na brasa,
nossos pratos típicos tão festivos naquela vida simples que ia
correndo doce como rapadura. No dia a dia, fosse nas festas, nas
doenças, as pessoas eram mais autênticas, muito mais amáveis e
muito mais amigas. Hoje, Manaus é uma cidade retocada e ganhou
novas cores, passou pelo bisturi das máquinas, ficou irreconhecível,
mas sempre bela em sua forma moderna. As matas e rios que a cercam
parecem manter o aspecto daqueles dias de alguns ângulos, mas um
olhar à moda antiga percebe as grandes diferenças. Muitas árvores
tombaram e os rios abraçam maior número de barcos, mais gente,
mais turistas e infelizmente a intensa poluição. Os monumentos da
cidade, a linguagem, a origem possuem uma riqueza de história, de
momentos de poesia. Não só a floresta mas também a cidade possuem
um baú profundo de temas para poemas. Eu, que sou regionalista
porque não tem como não sê-lo com tanta beleza ao redor, rendo
minhas homenagens a essa cidade em minha poesia. Incluo aqui, de
muitos poemas que tenho escrito: Mercado Municipal, Alvorada
e Pescaria.
Um dia, encontrei um americano que havia resolvido fixar residência
em Manaus. Eu que sempre estudei inglês, talvez até por
pre-destinação, vi-o interessado em ser meu professor auxiliar.
Ah, como não aceitar tal proposta para aperfeiçoar meu inglês?
Foi aí que essa parte da minha vida ficou decidida: casamos. Ele,
Charles R. Clement, biólogo, veio estudar a Amazônia e findou
ficando por aqui para trabalhar e viver. Hoje temos duas filhas que
possuem dupla cidadania, em idade de universidade. A mais velha
fixou residência na Califórnia, USA, e a mais nova já está
prestes a voar para a Pennsylvania. Foi assim, como um sentimento de
mãe que deve entender mas que não aceita o fato de verem suas
filhas indo embora, escrevi entre outros, Veredicto.
Trabalho no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, em função
administrativa na área de computação. Estudei Ciências da
Computação em três diferentes Universidades, incluindo a do
Amazonas, mas nunca cheguei a concluir o curso por diversas razões.
Também trabalho como tradutora, sendo proficiente na língua
inglesa.
Escrevo poemas desde 1992 quando morava nos Estados Unidos, onde
iniciei minha vida poética. Lá escrevia sempre em inglês. Conheci
pessoas maravilhosas que me orientaram, me introduziram à poesia, ao
soneto, ao haicai, à métrica, e me ensinaram o valor da poesia.
Sou, como diz em inglês, uma "sonnet lover", isto é, a
minha forma poética preferida é o soneto, pela beleza que encerra,
pela forma especial que sugere. Sempre que posso estou escrevendo um
soneto e aqui incluo mais três deles: Mãos, Homem do
Caminho e Soneto Pé Quebrado. O haicai é outra de
minhas formas preferidas e me fez participar de rengas com diversos
colegas poetas e publicar duas nas revistas LINX e Parnassus, com
Jeanne Cassler e Zane Parks, respectivamente. Nos Estados Unidos,
publiquei poemas em algumas revistas americanas, tais como The Lyric,
Green's Magazine, Poetic Eloquence, Mobius, Guild Press. Fiz parte
de antologias editas pela Guild Press, USA. Vários de meus poemas
foram publicados em sites da Internet, tais como The Open Scroll,
The Log Cabin, Moondance, etc. Essa série de publicações começou
quando eu ainda estava no "college", quando publiquei meu
primeiro ensaio "Getting Old", no jornal da universidade
"Diamond Head". Sou uma fã de rimas nos poemas, mas gosto
da forma livre também, e aqui incluo Receita de Mar e Chuva
Forte. Aprecio uma infinidade de poetas, tanto brasileiros como
americanos e espanhóis, etc. Tenho diversos livros de poesia e
estou sempre aprendendo com esses grandes mestres. Para terminar,
deixo um poema de amor, Estação do Amor, um de meus temas
preferidos, além dos elementos da natureza.
Mercado
Municipal, Alvorada
e Pescaria
Veredicto
Mãos, Homem do
Caminho e Soneto Pé Quebrado
Receita de Mar e Chuva
Forte
Estação do Amor

Mercado Municipal
No mercado grande o peixe
tem tamanho respeitável.
É quando quem vende enrola
filé que dá boa bola,
que com grito meio amável
vende frescura no feixe.
Vê-se campos de bananas,
sol a dourar-se no milho,
caminhos de macaxeiras,
vê-se alegres cozinheiras,
dando calor a um filho,
balançando as frigideiras.
Das frutas quer-se os segredos,
das folhagens, a promessa
que ervas, sim, tudo cura
e que qualquer criatura,
mesmo sem a fé expressa,
levará a crença nos dedos.
É mercadão e é retrato
da Manaus jovem senhora,
que o sol de selva, amarela,
abre portas e janelas
daquele que desde outrora
garante peixe no prato.
Alvorada
Caminhos de labirintos,
Alvorada é burburinho,
é rota de feiras livres,
onde gente é passarinho.
Alvorada tudo vende,
ajeita a vida quebrada
de pessoas, bichos, coisas
para não ficar parada.
Nunca dorme essa Alvorada,
mesmo se fecha as janelas,
pois fica a ouvir os sons
de pés em suas ruelas.
É noite e é Alvorada
de olhos quentes e senões.
Se não é alva em pureza,
é alvo de tentações.
Alvorada bela em nome,
eternamente em primícias,
Alvorada mãe de muitos,
mãe das missas, das notícias.
Alvorada que bem guarda
lembrança de luz e lida
pelos seus caminhos tortos,
Alvorada verde, vida.
Pescaria
O pescador vai embora,
o sol dita a hora de voltar.
O peixe vem no rumo da canoa.
Quem sabe,
vê o canoeiro na proa,
sentado, de pé, no banco a mirar.
Vê na sua mão,
o que pescadores chamam de arpão.
Na descoberta, fica parado
para a operação.
A pesca inicia,
o sol se apruma,
nenhum galho move.
E o relógio da mata,
preciso é quem marca
a sincronia
para o golpe fatal,
e o ganho de um dia.

Veredicto
O juiz tempo encerra mais um caso,
decide com quem ficam as crianças.
Resignada aceito o veredicto,
martelo a ecoar em meus ouvidos.
Devo deixá-las ir, devo sorrir.
Sou a culpada por ganharem asas,
e não saber o que fazer das minhas,
que de abrigarem, não sabem voar.
Saudade é pena, cresce em despedidas,
e livre vira escrava das notícias.
Saber missão cumprida é inútil,
coisa que mãe jamais quer entender.
Mas não tem tribunal para esse apelo,
então o pai-mundo leva suas crias.

Mãos
Trago nas mãos o toque das carícias,
ausentes do vigor dos jovens anos,
mas que do amor, conhecem as delícias,
e do sentir, a força dos enganos.
São mãos que não permitem dons ciganos
decifrar seus caprichos e malícias;
que não prometem gestos mais humanos,
para encontrar o palco das notícias.
Há tanto para ver em cada mão,
além das palmas cheias de cuidados,
distribuindo aceno ou sedução.
Há gestos de ternura e de perdão,
que caem como bens amontoados
e que de mim, no mundo ficarão.
Homem do Caminho
Meus olhos cantam para o homem que passa,
seu porte macho, peito de concreto,
o qual percorro com olhar discreto
por ser mulher e por gostar da raça.
Deve ter gosto de boa cachaça,
porém de amor indica estar repleto,
ou já encontrou um amor, o seu dileto,
a quem dócil se dobra e não disfarça.
Ai homem do caminho, que felino,
só deixa mais bonita essa paisagem
e leva mais um sonho feminino...
Vai homem, vai seguir o teu destino--
És barco que não volta de viagem
e meu olhar é terra em desatino...
Soneto Pé Quebrado
Um soneto manco
pisou meu papel,
caiu do barranco,
mas falou de céu.
Andando assim torto
faltou-lhe coragem,
fingiu-se de morto,
dormiu na paisagem.
Nessa dormideira
refez-se e disposto,
pôs os pés no chão.
Bateu a poeira
e riu no meu rosto,
todo bonachão.

Receita de Mar
Quero saborear esse mar
como se fosse comida inventada,
mas quero memorizar a receita.
É que tudo ao redor é ingrediente
enchendo minha fôrma de verso.
A areia branca em meus pés,
trigo no sol, massa nas águas...
E o mar que bate, bate, bate,
bate na pedra, bate aqui dentro.
Vou juntando conchas aos poucos,
ao ponto das espumas.
Não precisa de açúcar,
pois a tarde por sí é doce,
e a beira-mar
manda colheradas cheias
de brisa verde-azul,
e também salpica em meu rosto,
gotas de sal marinho.
Ah, fermento, maresia,
mar que chia, fervilha;
vento que chama
aquelas árvores distantes.
Elas murmuram, querem vir,
mas não tenho mais tempo
para interpretar silabas inacabadas.
Preciso ir, mas quero levar
esse sabor de mar
pronto para viagem...
Chuva Forte
Agora a chuva me cerca,
lança suas grandes gotas
por entre folhas da velha árvore.
São gotas, são palavras úmidas,
palavras tantas,
que a pulpa no alto ainda não entende
mas que tento decifrar.
A tarde, é casulo desfeito,
aborta os sons das ruas,
desfaz a terra que vai mole e barrenta.
É terra que foge em canto próprio,
que vai embora nas águas,
para nunca mais voltar.
Eu também quero ir.
"Vai", "vai", dizem as gotas gigantes...
É preciso decidir.
Para que preservar-me
da carícia das águas?
Ë melhor romper o medo,
sentir a chuva, senti-la
transformada na boca úmida
de um grande amor...

Estação do Amor
O amor cai, hoje é folha de verão
e traz prazer do sonho primo e vero,
flutua, junta dois em um bolero,
e vem pintar o verde na canção.
Cai sobre mim, derrama-se no chão,
lânguido e livre, porque assim o quero--
erva com cheiro morno, amor sincero
a rebrotar, criar sua estação.
Vem caindo em minha terra e espera,
e eu que renove toda essa lavoura
para o sol namorar a primavera.
E o amor aumenta, aumenta e amontoa.
Mas não preciso de qualquer vassoura,
porque da minha porta ele não voa.
Conheça um pouco mais da escritora Rosa Clement -
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Entrevista de Rosa Clement ao jornalista Carlos
Leite Ribeiro em Cá
Estamos Nós.