SARITA BARROS 
SOB A LUPA DE SRTX


Sou SRTX em missão especial nesta Faixa Zodiacal do Universo. Preciso estudar o primeiro ser vivo que encontrar neste pequeno e lindo planeta azul. Deixo a nave na Zona Dimensional Interface Claro-escuro. Coloco as peles necessárias para suportar esta atmosfera poluída. Ajusto-me à força gravitacional, entro em sintonia com a energia telúrica, penetro na bolha gasosa e caio suavemente em superfície verde.

Meus sensores acusam a presença de estranho ser individualizado. Força imperceptível nos atrai. Inexoravelmente somos arrastados um para o outro. Estamos no mesmo campo magnético. Não sei mais se sou eu, ou ele. Nossos arquivos se confundem. Tenho ordens de observar, registrar, relatar. O parecer será truncado e falível, não consigo analisar o fator erro. Transformei-me em sujeito-objeto, ou objeto-sujeito... Será possível separar nossas histórias? Experiência completamente nova e fascinante! Meu revestimento não possui a frescura com a qual havia me acostumado há éons. Sofro a ação do que chamam tempo... Cada infinitésimo deste tempo corresponde a desgaste acelerado do equipamento. Preciso andar rápido senão entrarei em decomposição... Senhor da Vida!

Minha observação sofre interferência das ondas energéticas desta criatura que, de alguma forma, sou eu. Vou procurar ser imparcial, embora imparcialidade não exista. Se o observador interage com o objeto da observação, que dizer quando observador e observado são a mesma pessoa? Somos, portanto, pessoa. Vou baixar a freqüência dos meus sentidos, ultra sensíveis, a fim de interpretar os meandros desta mente primitiva. Peço perdão se, conforme a consciência do momento, houver confusão de identidade.   

CURRICULUM VITAE [i]

Uma das coisas que mais me incomoda é o pedido: traga um breve curriculum vitae. Por que não pedem uma ficha cadastral? Ou uma ficha com dados profissionais? Como querem que se reduza todo um curso de vida? Portanto...

BREVE CURRÍCULO EM 10 ITENS

I-

Sou gente

Logo: amo, erro, acerto, trabalho, tenho meus grilos e defeitos.

II-

Sou brasileira

É óbvio, então, que gosto de carnaval, contar e ouvir piadas, serenatas, roda de chope com violão e, na atual conjuntura, faço um esforço danado para não ser apenas sobrevivente.

III-

Sou gaúcha

Herdei o gosto pela liberdade e justiça, bem como o senso de dever dos nossos ancestrais.

IV-

Sou mulher

E gosto disso. Quero dizer que não pertenço ao feminismo militante. Agora estou na expectativa dos “enta”

V-

Sou mãe

Tenho um filho e cinco enteados. Conclusão: amo meus seis filhos

VI-

Sou casada

E... apesar disso sou vidrada no meu nêgo.

VII-

Sou Professora

Leciono Matemática. Gosto de meu trabalho e de meus alunos . Revolta-me a estrutura que, ano após ano, os deixa mais desprovidos de conhecimento básico. Parece haver um mecanismo promotor de desumanização, de robotização do ser humano.

VIII

Sou escrevedora de poemas

Escrevo minhas alegrias, tristezas, dúvidas, esperanças e desesperanças quando a alma me transborda. Meus escritos são pedacinhos de mim, são filhos. Não sei se são bons ou maus sob o ponto de vista literário, ou se dizem algo a alguém. Sei que me dão prazer e sinto receio de expô-los.

IX-

Sou doméstica amadora

É o saldo negativo de ser mulher ou melhor, o ônus de não ser feminista de carteirinha, daí:

a) 

lavo, passo, varro, limpo, escovo, esfrego e... sempre está sujo;

b)

faço compras, vou ao super, à feira, escolho, pechincho, vou mais longe e...     sempre está mais caro;

c)

descasco, escamo, corto, frito, fervo, asso, cozinho e... sempre estou na cozinha;

d)

esse trabalho nunca aparece, não é computado, não dá carteira assinada nem descanso remunerado e... muito menos aposentadoria.  

X-

Sou Super-criatura

Do exposto podemos concluir que sou feita à imagem e semelhança de DEUS.

  AMÉM!!!

 

 


A vida — licor de pitanga — escorre lenta e espessamente pelos lábios do tempo. Gosto de me lambuzar nesse viático. Estou prestes a me tornar “sex” faltam só quarenta para sair dos “enta”...
        

CAFEZINHO [ii]


Deixa o galo cantar. Que no seu canto o sol se levanta. O medo da noite sai campo fora. Vou fazer sessenta anos. Antes fosse a idade aquela em que os seios se debruçam confortavelmente sobre a barriga. Os marcos. Os signos. Os galos. Clarim toca silêncio. Meu pai entrando sozinho naquele enorme carro de praça. Pós-guerra. Fernando de Noronha. Meu pai só e mudo naquele caixão. Flores, lágrimas e palmas. Águia em direção ao sol. Galinha. Galinha ciscando o terreiro a procura de minhoca. Pintainhos correndo alvoroçados par jantar. Mãe. Minha mãe e seu ventre volumoso. Parece que está grávida. Parece que nuca terminou de nos parir. Parece que retém em seu corpo um pouco de cada um de nós. Amor. Um amor e meu filho. Outro amor com cinco filhos. Netos. Meu marido fechado em seu esmouque esquife. Foi-se com o vento em uma noite de Natal. Me abandonou aquele fedepe. Ficou essa dor em mim. Essa dor fininha que eu penso que já foi. Quando vejo está de novo. Sacanagem! Mulher é bicho esquisito. Sangra todo mês e não tem ferida alguma. Carrega na alma ferida não sangrante. Sangue derramado na calçada. Foi do menino aquele que esfaquearam. Dez ou mais facadas. Droga. Mal do século. Novo milênio e o mundo não acabou. Está igualzinho. Ratos e baratas nos esgotos. Falta d
água e desemprego. Brasília. Políticos. FHC. HFC. Signos. Siglas. Dizem tudo e dizem nada. Carnaval. Samba. Avenida. O Jornal Nacional. Plim-plim. Tudo como dantes no quartel de Abrantes. Navegar é preciso. 500 anos. Morte e extermínio. Se é importado vale. Se é gringo merece a terra que é nossa. Merece o que está acima e abaixo dela. Gringo merece tudo neste Brasil S.A.... O beija-flor vem beijar o hibisco. Tão pequenino e frágil. Belo e veloz. Tão banal. Tão colibri. A beleza é suave e essencial. Breve beleza na inocência da menina que troca o corpo por um baseado. Pobre corpo tão caluniado pelos arautos da alma. O Lago. A Montanha. A Grande Água. Alegria.
Tui. I- Ching.  
          


Sou apaixonada pela vida. Viver e escrever são vícios de estimação. Escrevo desde sempre. Escrevia e guardava até o amado/amante fazer-me crer serem poemas, meus rascunhos. Para agradá-lo, guardei-os. Quando morreu minha gaveta estava quase repleta. Ao  ficar lotada sobreveio a dúvida — jogar fora ou mostrar? Optei pelo amor.

Ancoramos aqui, depois de aportarmos no Magazine “Cá Estamos Nós” de Carlos Leite Ribeiro, na Editora Blocos de Leila Míccolis, na Câmara Brasileira de Jovens Escritores — CBJE — de Luiz Carlos Martins. 

A viagem começou com o livro Papos e Pontos, surgido da parceria com uma amiga, após terminarmos o Curso de Especialização em Saúde Mental Coletiva. Foi uma paulada em vaidade, orgulho, preconceito e pruridos autorais. Valeu!

Pelo caminho foram encontrados diversos Concursos Literários. Uns trouxeram frustrações. Outros, alegrias.  


OUTONAL VI [iii]

a loucura desatada
corre rios e pelve
nos ombros da madrugada
azuis e amarelos vibram sinfonia
nas ourelas do corpo e virilhas do caminho
bocas de fome cobertas de sépia
                            cobertas de terra
                           cobertas de areia
por falta de amor e flor desabrochada na rua
olhos desesperados recebem choques e não
da violência institucional e da que jaz em esquinas
                          — do pensamento comum —
mãos vazias exangues sem um carmim sequer
sem vintém de lua esperanças loucuras
caíram inúteis no último outono que apenas
deixou sementes globalizadas e guarda-chuvas
esquecidos furados nas dobras da solidão
                     — e bocas de canhão —
a loucura desatada
corre rios e pelve
nos ombros da madrugada
depois do último outono...
haverá sorriso qualquer que seja
para alumiar inverno nos porões do isolamento?
desatadas estão as fitas
inaugurada foi a era desmedida
governa nossa aldeia deus mercado
                   — império da razão virtual —
indiferente alheio às dores destes insanos humanos
que teimam em não morrer e desejam o último outono
cheio de frutos luzes sons
em grande ciranda de gentes
de toda cor credo classe
onde cada qual seja o tal e não haja disputa ou rival
cada um com sua estrela
brilhando como deseje
deixando o preconceito mofar na gaveta desrespeito
                   — desfeita pelos ventos —
o último outono em sendo assim
a loucura estará a salvo
no riso infantil e olhos primaveris
de todos nós loucos da atar

         


 Passamos por algumas antologias...

         

BÁSICO [iv]

Quero
Bife com fritas
Cerveja geladinha
Aqui
Na beira da calçada
Para saborear devagarinho
Enquanto a noite não vem
E o dia
Se despede com saudade
Da tarde
Que partiu.  



...até tomarmos coragem e visitar desconhecidas ilhas. As editoras. Com a Tchê! foi possível co-editar meu primeiro, por enquanto único, livro impresso: VERSO UNIVERSO REVERSO.

        
CARROSSEL [v]

Tua mão
taça gentil
meu seio abarca.
Teus olhos
relâmpados
nos quais me fundo.
Teus negros pêlos
tenra relva
em que espreguiço
ao anoitecer

                       e rolo
                   pelas manhãs
                   retouços primaveris.

Teu pé formoso
macio e quente
se encosta aos meus
subindo ardores
ripiando pélvis
lumiando pél

                     no cio da tarde
                    nosso ócio
                   delícia só.

O teu dedinho
Com meu dedão
Num só tropel
São cavalinhos
De carrossel!  
      

 

     
Quando ventos favoráveis soprarem, virá a bordo Raízes ao Vento, há dois anos organizado.  
        

NUDEZ [vi]

Escrevo
No vão intento
De me conhecer.

Nessa procura
Escavo tanto
       que me desventro.
— Fico nua de mim —

Nesse desfenestrar
Sou pássaro
       voando para dentro
Sou árvore
         com raízes ao vento.  

        

       
Nesta viagem acontecem-me as mais diversas aventuras. Minhas circunstâncias são mutantes. Atualmente estou empresária. Tenho com Sonia, parceira de Papos e Pontos, uma Consultoria — ALBA, AL de Alcalde e BA de Barros. Estamos no olho do furacão, vivendo a loucura de idealizar, organizar e co-produzir (com a Secretaria de Estado da Cultura) o festilenda — festival da lenda, história e folclore. Ainda não deu para poetar sobre. http://www.festilenda.alternet.com.br

Procuro fazer bem feito. Assim não penso no “se”, porque no momento escolhi o melhor de acordo com as circunstâncias, possibilidades e sabedoria que possuía no tal momento. Não me arrependo do vivido. Carrego alguma virtude e n pecados.  
     

AVAREZA

Oh, Senhor!
Por que esta tortura
Esta dor, o aguilhão?
É tão fora de moda
este abrasamento
que sinto por ti...
Meus desertos
comem toda paisagem
sinto sabor de areia
em qualquer iguaria.
Não há bebida que aplaque
esta sede
que me corrói a alma.
Ansiando por ti
fujo teus caminhos
afundo-me no atoleiro.
Atestam minha busca  
             os pés feridos
             a pele crestada
             os olhos pisados
             as mãos vazias
da inutilidade
dos tesouros acumulados
enquanto...
             ? ?
              !  

       


         

Luxúria [vii]

Dedos da brisa
levemente escorrendo
pela cabeleira do canavial.
A língua do mar
prazerosamente lambendo a praia.
Raízes sofregamente sugando
águas da lagoa.
Flamingos exibindo plumas-chama
na flamenca coreografia das asas.
Coxas vespertinas entremeadas
ao insinuante luar que desamarra
negro espartilho da noite.
O dia levantando lençóis da aurora
para delícia dos velhos cerros voyeurs.
O raio de sol penetrando a sala
em lúbricas cintilações
no cálice da cristaleira.
O dente mordiscando doce amora
liberta em licores e odores
nas cores da paixão.
Teus olhos
dentro dos meus na fuga
cidade do eterno agora.
      

 
       

Viver não é preciso, disse Pessoa. Concordo. Não persigo tanto o chegar quanto o percorrer. Adoro perceber as diferenças do caminho. Sentar e olhar à volta. Contemplar a paisagem, sentir o vento no rosto. Respirar a plenos pulmões, embora vivendo um turbilhão.  
           

  BARALHADA[viii]

Em cada quarto que entro
Outros mil quartos encontro
Num labirinto de espelhos
Minh’alma presa está.

Cai fio de cabelo
Sou eu que despetalo
Rosa chá multiface
Entrefolhos de luar.

Sou mulher — tenho fases
Sou lua — faces tenho!

Entre luas-faces-quartos
As fases da vida encontro
Quais cartas de baralho:

                      Damas-Reis-Valetes
                      (figurasnadamais)

Que se cortam entrecruzam
Entrelaçadas com azes
nas urdiduras fugazes
Das BUENAS DICHAS da sorte!  
  

   

     

A vida tem nodos e ventres. Nela nem sempre a reta é o caminho mais curto entre dois pontos. O tempo de dentro precisa ser respeitado.  
             

OUTONOESPELHO [ix]
        

Estou conversando comigo. A conversa é em outro tempo. Tempo de dentro. Tempo de papoulas roxas e amora madura. Tempo atemporal. Idade não importa. Nem a morte. Nem a idéia que dela tenho. Nesta conversa falo de avessos. Des-conversa. Des-espero. Des-espero sem desespero. Desespero: angústia de saber que se foi o tempo de esperar. Que é tempo de agir e agir sob pressão. Des-espero como a flor. A lagartixa. O musgo. A nuvem. Sabedoria da Natureza. Sabedoria das coisas. Espera sem espera. Tempo de Ser.

Muitas vezes temos de percorrer quilômetros para avançar um passo. É que o tempo de ser não era chegado.
O que é meu a mim vem. Não preciso correr pelo que me pertence. O que não é meu esvai-se pelas malhas da vida, escoa pelos dedos do tempo.
 

O ofício do Poeta é tentar vestir com letras a Poesia da Vida. Vestida, vira prisioneira e em sendo cativa perde o esplendor de quando era livre e sentia as pessoas, em vez de ser sentida por elas.
A gravura de um pássaro não é o pássaro, o poema não é o que procura expressar. É o registro, de um enfoque, sobre o sentimento despertado quando a emoção é gerada, dentro ou fora de nós. O pássaro Poesia continua voando através dos séculos. O Poeta persegue o verso —sem palavras — para alcançar a Poesia.
Esse é o  paradoxo.
[x]

Não posso classificar este ser que se mostra único e múltiplo. É exterior a mim e... Seus registros poderiam ser os meus. Serão nossos? Sinto suas dúvidas, incertezas e contradições. Creio que a poesia, a qual se refere, seja minha Galáxia. O mundo das idéias, de Platão? Desconfio ser a verdadeira finalidade de minha Missão o conhecimento do meu outro, minha persona tridimensional. O depoimento de indivíduo multidimensional confinado aos limites da carne.

Nota: houve erro fatal na observação. Os humanos — habitantes do planeta azul — são nascidos uns de dentro dos outros. Para que um humano (filho) saia de outro (mãe) é necessário a intervenção de um terceiro (pai) que não pertence a raça das mulheres e sim a dos homens. Sarita nasceu de Sara. Possuidora de 83 anos, pelos registros do tempo terreal, não está submersa em escaninhos da saudade. Poeteia. No Ano da Graça de 1999, publicou seu primeiro livro: PEGADAS.           
Este programa será fechado. Se o erro persistir consulte Irene Serra/ Rio Total.


[i] Mencão honrosa no XXII Concurso Literário FELIPE D’OLIVEIRA/ Santa Maria/RS/BR.
[ii] Editora Blocos,  Brasil 500
[iii] I lugar no “Primer Concurso de Poesia de Locos de Atar”, Puerto Iguazú/ Misiones/ Argentina
[iv] “POEMAS” coleção João-de-barro.
[v]  VERSO UNIVERSO REVERSO P. 27
[vi]  Raízes ao Vento/ inédito
[vii]  Painel Brasileiro de Novos Talentos – 2ºvolume –CBJE/RJ/ BR.
[viii] VERSO UNIVERSO REVERSO p.18
[ix] Manifesto Poético no. 26 – Cultura Sul/ ano 6 - Bagé/RS/BR
[x] VERSO UNIVERSO REVERSO p. 5

 
   
 
Esta página é parte integrante da Revista Rio Total