Serjo Robert


Não sou dado a falar sobre mim, até porque entre as coisas que mais me orgulho de mim mesmo, está o meu trabalho, que acho que me supera enquanto pessoa, e enquanto pessoa, sou apenas mais uma entre tantas, com sua vantagens e desvantagens.
 

Sou artista plástico por formação, que se enveredou pelas vias da publicidade, não apenas como forma de sobrevivência, mas como forma de manter o trabalho artístico, que mantenho por diletantismo mesmo, em sua integridade, isto é: como fruto exclusivo do meu prazer de produzi-lo. Fiz algumas exposições, conquistei uns poucos prêmios em desenho, mas tenho mantido o meu trabalho de artes plásticas longe do comércio e das galerias, pelo menos por enquanto (mantenho uma pequena galeria em meu site,
http://sites.uol.com.br/serjorobert/)

Conforme tenho dito, até então, sempre me julguei um poeta de penas, pincéis e pixels, o que não quer dizer que não fizesse minhas incursões pela arte da escrita, que de fato, até pelo alto grau de consideração em que a coloco, nunca aspirei fazer se não, meramente para satisfazer as necessidades interiores: tenho alguns poemas que mostrei para pouquíssimas pessoas, alguns contos, e coisas do gênero. 

Há algum tempo atrás, após separar-me de minha primeira esposa, naquela situação em que ficam, em geral, muito mais os homens do que as mulheres após a separação, resolvi dar uma guinada de 180 graus no meu trabalho. Não me via satisfeito com nada do que eu fazia até então, e desta maneira, fui trabalhar num "barracão" de escola de samba, e esta foi uma experiência que muito me marcou. Sou um carioca que ama de loucura este estado, e particularmente a cidade onde nasci (mesmo que viva fora dela, nas serras Fluminenses, não sei passar muito tempo sem revê-la: algo em mim começa a gritar e a morrer, e apenas se sacia quando consegue ver o Cristo ainda pousado sobre o mesmo Corcovado, as praias, e o bairro que adotei, que é Santa Teresa, onde cheguei a morar tempo suficiente para não mais me libertar), desta forma, sempre achei que conhecesse bem o Rio, mas foi o "barracão" que me mostrou inteiramente o Rio, e mais ainda, o Brasil. 

Daí, então, surgiu o texto "Crônicas do barracão". Pra falar bem a verdade, a partir do momento que comecei a passar para a escrita (já havia tentado fazê-lo em quadrinhos, que é outra arte que amo, tentara roteiro de filme, etc...), percebi que seria um trabalho bastante extenso, por isto, plasmei-o em pequenos capítulos, de cerca de 3/4 de A4, e histórias curtas, mas, de qualquer forma, devido à intensidade da experiência, creio que seja algo que irá se estender por muitos capítulos. 
("Crônicas do barracão" podem ser lidas, mensalmente, no Magazine Cá Estamos Nós)

Outrossim, ainda dentro do meu amor pelo Rio, adoraria falar de seus recantos que conheço muito bem, a ponto de às vezes sentir como se tivesse deixado um pedaço de mim em cada esquina do tempo e da geografia desta singular cidade (lembro de haver subido ao Pico da Tijuca, e de lá de cima, de onde se vê toda a cidade, para qualquer lado que me virasse, reconhecia um pedaço onde eu havia morado, ou vivido de alguma forma, desde os bairros nobres da sul, até Santa Cruz; desde bairros da Leopoldina, a todo o percurso da Central, tudo estava ali fora, exposto de maneira inigualável sobre a geografia, e cá dentro de mim, que sabia desenhar tão bem aqueles planos todos em minha alma).
                  

DIÁLOGO

Eu rodava em círculos pelo cômodo, estava me deprimindo. Cansara de dizer à Mink...
Não, eu nem queria repetir.
- Comparado ao que já vivemos, estamos vivendo num esgoto!
E era realmente um esgoto, o que era pior.
- Estamos vivendo num esgoto!-repetiu ela convicta.
- Mas é claro!- redargui.
- Estamos vivendo num esgoto!
Ela estava ainda mais convicta.
Comecei a desfiar-lhe uma exposição completa da coisa, agarrado à esperança de que ela poderia fluir por aquele breve contato com a realidade; preso ainda à necessidade de soltar-me da garra que me sufocava.
- Estamos vivendo num esgoto! Repetiu possessa.
E pôs-se a repetir seguidamente como para me chamar a atenção.
- É claro!- Repeti
Estava começando a me encabular com ela. Mas tomei fôlego para continuar a oratória.
Lá fora ela continuava repetindo, agora para si, em tom mais baixo. Seus olhos me traspassavam para se fixarem em algum ponto atrás de mim.
Preparei uma sentença qualquer mas transformei o fôlego num suspiro lento, frente da inutilidade do ato.
Ela repetiu ainda mais uma vez, acordando do seu encontro com a verdade e cravando os olhos nos meus com um brilho ainda distante.
- Pô! Nós estamos vivendo num esgoto!
Eu já perdera o hálito, mas arrematei às pressas e recomecei a exposição,  ela, porém, depois de uma pausa, recomeçara a repetir com os olhos em pânico, preso aos meus, como se me alertasse sobre o apocalipse e o fogo dos céus.
A verdade é que  aquilo não estava com nada...
Eu quisera estar a léguas dali, onde sabia existir ar puro e cor.
 


Serjo Robert tem mais a dizer em sua entrevista ao jornalista Carlos Leite Ribeiro, em Cá Estamos Nós.
serjorobert@uol.com.br 
             

Esta página é parte integrante da Revista Rio Total
 
Editoração
Irene Serra
irene@riototal.com.br