Joyce 
Cavalccante

JOYCE CAVALCCANTE é romancista, contista, cronista e jornalista. Tem seis livros publicados e participou de oito antologias. Nasceu em Fortaleza, cidade situada ao nordeste do Brasil, logo abaixo da linha do Equador, por isso cheia de sol, mar, entusiasmo e sem pecados. De lá retirou elementos sobre a vida provinciana e conformada das mulheres criadas para rezar, casar e morrer. Com tais elementos tem trabalhado até hoje. Morou no Rio de Janeiro - onde descobriu a possibilidade de sobreviver numa cidade maior - em New York e Washington, DC. Mudou-se para São Paulo onde vive em estado de permanente criação.
Joyce é também a atual presidente da REBRA - Rede de Escritoras Brasileiras.

Inicia sua carreira  com o romance "De dentro para fora". Com título controvertido e curiosa narrativa, seu segundo livro, "Costela de Eva",  é também um romance. Seguem-se: "Livre & objeto", "O discurso da mulher absurda" e "Inimigas íntimas", com o qual recebeu o prêmio APCA - Associação Paulista de Críticos de Arte - de melhor ficção de 1993. Atualmente Joyce prepara-se para publicar seu sétimo livro, "O Cão chupando manga" um romance que dará seqüência à tetralogia iniciada com o premiado "Inimigas Íntimas". 

Maiores detalhes sobre a literatura de Joyce Cavalccante está disponível em: http://www/geocities.com/~joycava/ .

E sua entrevista ao jornalista Carlos Leite Ribeiro pode ser lida em Cá estamos Nós.

         


ACABARAM DE ME LIGAR PRA CONTAR A ÚLTIMA DO MIR
O

O Miro não é propriamente uma pessoa, é uma personagem. É lá do Maranhão e tem uma concessionária. Por isso, e por tanto trocar a frota do governo, ficou multimilionário. É completamente analfabeto. Não sabe fazer um “O” com um copo. Vive em pauta.

Pelo terceiro ano consecutivo ele ganhou o prêmio de campeão de vendas da América Latina, deixando a fábrica americana de carros que representa fascinada. Imediatamente foi convidado a ir aos Estados Unidos fazer uma palestra para contar o segredo de tanto sucesso. Foi morto de contente, depois de sapecar notícias nas colunas sociais. Como é de seu estilo, carregou uma tropa de compadres para aplaudi-lo.

Foi recebido como manda o figurino. Banda de música, tapete vermelho, discursos e faixas, inúmeras delas, escritas em letras garrafais: “WELCOME MIRO”. Ao ver isso, ele que estava com o coração sem caber na camisa, murchou o sorriso espalhando  mau-humor em todas as direções.  Deu logo um pito na mulher mandando que ela se recolhesse ao hotel. Despachou a caravana que o seguia e sumiu com apenas um assessor de confiança, justamente um que já tinha estado ali e que parecia conhecer bem essa cambada de americano, além de falar inglês de carreirinha. 

   Tão pensando que sou besta  — imprecava.

Ninguém entendeu nada e também não queriam entender, pois o que interessava era a mordomia. Distraíam-se escovando os dentes com champanhe. Contabilizavam tudo como mais umas das excentricidades de Miro, a quem cada um se gabavam de conhecer como a palma da mão.

Passaram-se dois dias, esses em que ele ficou trancafiado e incomunicável, saindo apenas para fazer a tal palestra, que foi proferida em português e completamente sem pé nem cabeça. Mas o assessor estava ali  para fazer a tradução simultânea e editar todas as insanidades que ele dissesse. Portanto, enquanto Miro xingava os executivos americanos, seu assessor os elogiava e agradecia a hospitalidade. A caravana brasileira só ria e aplaudia cada tirada do líder.

Miro terminou sua fala convidando a alta cúpula da fábrica estrangeira a visitá-lo em sua terra natal, acrescentando que ia oferecer-lhes a mesma hospitalidade que havia recebido. Foi ovacionado de pé, abraçado e parabenizado durante todo o coquetel seguinte. Mas olhando as paredes deparou novamente com aquela faixa maldita: “WELCOME MIRO”. Em segredo, perguntou ao assessor:

— Qual desses cabra ai se chama Wel?

O assessor distraído afirmou:

   É aquele louro, meio careca, da esquerda. 

Os americanos aceitaram o generoso convite, e mais uns três meses vieram  em peso. Não vieram antes porque Mister Wellington Russel, Well para os íntimos, estava cheio de compromissos, e era da presença dele que Miro fazia questão. Agora ele ia receber o troco:

Sapecou pela cidade inteira faixas e mais faixas enormes, com os dizeres: “MIRO COME WEL”, além de contratar uma turba pra gritar pela cidade, sem descanso, esse mesmo refrão.

 

 
 
   
 
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