JOSÉ DO NASCIMENTO FÉLIX


JOSÉ DO NASCIMENTO FÉLIX, nascido em 9/11/1946 em Luanda, Angola. Licenciado em História pela Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Nova, de Lisboa.
Desde cedo publicou poemas nos jornais e rádios da capital angolana.
Tem vários livros para publicação: Livro de Viagens, Geometria da  Palavras, Fotocaligrafia, Desconstrução do tempo, Haicais, Tankas  
Estão registados no I.G.A.C., Actividades Culturais, mas ainda não se atreveu a enviar para as editoras.

Consta da Antologia Poiesis - Vols, II e III da Editorial Minerva, DNA, da Antologia Horizontes, selo PD(Poesia Diária) do Brasil e também do Brasil, numa colectânea de poemas sensuais, "Inspiração Erótica" , editora Literarte, com o apoio cultural do Clube Jundiaiense.

Também da Editorial Minerva, na Antologia "Incomensurável", Poesia a Treze, que saiu em Maio de 2000 e cuja apresentação foi feita na Feira do Livro,
em Lisboa.

Tem poemas em várias páginas da Internet, portuguesas e brasileiras e também em «Encontros de Escrita» http://www.terravista.pt/mussulo/1701   uma página de sua autoria, onde tem uma lista de poesia que se dedica à divulgação aos poemas dos assinantes e à discussão poética.

Seguem-se vários poemas:





    
     
    
    

Verticalidade

não tinha
a verticalidade construida
e por isso olhava o horizonte
um pequeno navio

em equilíbrio sobre as ondas
pendurado na bruma
ou no bico
de uma gaivota branca

a verticalidade construida
no espelho    de palavras
translúcido

a verticalidade consumida
na posição do corpo
moldado pela água    olhos líquidos

josé félix
2000.06.21







Inclinação do tempo


à tarde   com as sombras inclinadas
nos prédios   nas paredes
as aves perpetuam o regresso
do tempo que decai

as aves que se inclinam na distância
das sombras desta tarde
cai a tarde com as aves e o tempo.
detrás da nua cortina

a esquina da tua face inclinada
tecida sobre o tempo
uma ave borda o vôo na toalha

a linha branca e a azul
a cor do céu azul da cor do céu
inclina o vôo da ave.

descanso a ave no tempo inclinado.

josé félix
2000.06.27




A ocupação do tempo


há um bonsai na estante, ao pé de livros
com as lombadas a preceito.
a árvore anã,
na atrofia de raízes, tem
os seus contemplativos que pensam, que
o tempo se constrói na castração
metódica dos ramos indicadores,
da passagem do tempo pelo tempo.
não, não contemplo o tempo no bonsai;
eu sou o próprio tempo na
rega das plantas, no aroma das flores;
sou a porta entreaberta do teu sopro.
sim, do sopro da fala que conduz
o crânio  o suporte do teu corpo
que vem até mim e dá-se.

saboreio nas pétalas violetas
o pólen que me leva
à visão do jardim da própria sala,
onde fico no tempo ocupado
de mim, de ti e de todas as plantas
que resistem ao olhar crítico. bonsai
perdido entre os livros. porque as coisas
não são simples assim, se por acaso,
não sendo acaso, tenho no bonsai
a restrita medida do meu tempo,
é porque estou além de qualquer medida
mesmo restrita da temporalidade.
é porque escrevo versos sobre o tempo,
que me interessam as frases inclinadas
nas sombras, sede das pedras quinadas
por um escultor, num lago qualquer.

ó, as pedras nas águas fertilizam
lembranças proibidas e delíquas
e me faz esquecer o cheiro da erva
que piso todo o dia. piso a erva
para restrigir o tempo medido.

reparai porque os deuses são (in)temporais.
desenhamos-lhes o infinito tempo
e até na própria morte vivem vida
com os adoradores de circunstância.
as circunstâncias são o tempo todo
e só quando colhemos uma flor
nos damos conta, dou-me donta, desinteressado
de um bonsai esquecido numa estante
que não diz nada sobre o tempo ocupado.
não gosto do bonsai, e deitá-lo fora
talvez dilua noutro tempo o tempo
que eu não quero.

porque o tempo.
porque o tempo. porquê

josé félix
2000.07.01





A minha caneta é azul


a minha caneta é azul. sempre
gostei de ter uma caneta azul. diz
bem com o ambiente e, além disso
é da côr da tinta que encerra
plasma que ela sangra das minhas
confidências na quadrícula do papel.
sim, porque eu escrevo em papel
quadriculado. não que eu encerre
cada letra em cada quadrícula;
não conjuga com a minha maneira
de ser.
desordenado, intuitivo e, até, porque
pareceria que cada letra gritasse o som
que lhe pertence num quadrado de ferro
como se fosse uma prisão - as prisões
são incompatíveis com as palavras,
conjuntos de letras feitas significantes,
à espera da boca de quem lhes queira,
na pronúncia, tomar o sabor original.

a caneta, entre o polegar e o dedo médio,
com o indicador por cima a dar-lhe segurança,
desliza no papel - simbiose estética
que não se consegue isolar a caneta do papel,
o papel da caneta, a mão sem ambas,
a caneta e a quadrícula, porque todos
sem uma e outra são absolutamente
desnecessárias.

e a tinta
é a marca deixada no documento que o
papel passa a sê-lo, após o desenho da escrita,
tinta, sangue do poema para todos
lerem e entenderem se quiserem,
das dores, amores, raivas e outros sentidos
deixados através de uma caneta azul
em transfusões contínuas quando a tinta se esvai.

a caneta, o papel quadriculado, as letras,
alimento fermento que eu tenho das palavras.

José Félix



Noite de ramadão
ou gazela do sorriso


à noite
sem shador
e a sombra no rosto
dos olhos amêndoa

dispensamos o jejum
de ramadão

pões as mãos em meu peito
do lado da oração

colhemos azeitonas
nas oliveiras
do jardim
bebemos água do oásis
pedimos desculpa a alá

e entregamo-nos à gesta
dos gestos
a saborear as tâmaras
e o corpo

lá fora
as gazelas
sombras em movimento
na tenda enluarada
esperam outro dia

ao amanhecer cobres o sorriso.

josé félix
2000.02.01




tenho a dor da palavras e não me apetece fazer versos.
não sei se as palavras que desenho significam o que sinto,
hoje que comprei pão com poesia e as palavras
mastigadas com lágrimas salivadas sabiam a quase
quase nada de um poema de ruy belo no caudal do discurso.
porque as dores são reflexas. como os espelhos. sempre os espelhos.
é neles que envelheço o rosto e consumo na pira
as conjecturas sobre a condição humana.
tem alguma importância
uma vida em que as palavras são lâminas a verter
desesperos.
subverte-se a poesia. sedenta-me a dor da palavra
e bebo chá.
prefiro o chá e os amigos. interesso-me por chá. chá de tília
lúcia lima    chá de menta  chá preto e pão ázimo.
é a minha páscoa particular. a minha remissão.

       perguntam-me o que é o triclinium. isso diz respeito
       à vida privada dos romanos   à habitação dos patrícios
       senhores do senado de roma com escravos sodomizados

vivo na periferia das palavras e encarcero-me
em silêncios nos olhos   a olhar a chuva   o sol fugaz
de verões desejos que o frio espasma na espera.
não tenho um jardim para que as pétalas me beijem
apesar de tudo
gasto gestos    hirto no horto húmero   e complicados
arranjos vocálicos quando as vogais saltam
dos gatos dos meus olhos por entre a fina folhagem
à procura do hábito que habita o poema

tão serena a tarde fere

Fevereiro de 2000




Dois sonetos:

vejo-te debruçada sobre a cama
tão serena e perpétua nos lençóis
que o brilho e a brancura de mil sóis
transaformam em velasquez inclinada.

e na serena idade reclinada
jónia, vestal caída, leve e nua
com os meus dedos toco a carne tua
que a minha própria carne tão reclama.

inicio as viagens corporais
que soltas pela mente dão sinais
de incontidos prazeres e paixões.

meço os gestos contidos mas audazes
porque tu me dás, dou-te em intenções;
é assim que nos tornamos mais capazes

de amar, por puro amar, sem condições.

josé félix


no espelho do teus olhos não me cuido
de olhar a nua breve transparência
que apaga por instantes a ausência
no tempo da palavra eternidade.

talvez assim eu possa ver a idade
nudez   a que se dá aos permitidos
harpejos   harmonia dos sentidos
na leve pele   gestos em descuido

nos lábios róseos de loendro aroma
perfume jovem   sempre que se toma
dos sábios a arte de beber o corpo.

no olhar do espelho que reflecte e vejo
a minha própria sede sai do copo
que molda e verte todo o meu desejo.

amor     é flôr que no teu corpo encarpo.

josé félix
2000.06.05





Haicai


Na orla do caminho
lampejam mil sóis  mil sóis -
as giestas em flor.

José Félix
2000.05.14










Tanka


um bando de pombos
rodeiam o céu cinzento -
estão de regresso.

os borrachos no pombal
estão de bicos abertos.


21.09.1999









José Félix, entrevistado pelo jornalista Carlos Leite Ribeiro, está em  Cá Estamos Nós

 

 
   
 
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