O PRAZER DA ESCRITA
É uma das escritoras mais célebres do mundo,
combativa e versátil: Doris Lessing. O baiano
Antonio Júnior conta como em 1998 fez
faxina durante algumas horas em sua casa lúdica
e foi personagem de um diálogo sábio.
Antonio Júnior
de Barcelona
A companheira de habitação, Rute
M., uma bela jovem do Sul, faz faxinas em velhas casas vitorianas
para pagar seus estudos de inglês em Londres. É um trabalho
duro, que inclue passar
o aspirador em toda a casa, tirar as folhas secas das varandas,
esfregar azulejos e vidros de janelas, deixar banheiros brilhantes
e inclusive lavar copos e pratos em pias sempre cheias - os
senhores do "primeiro mundo" não primam exatamente pela
boa educação higiênica. O sub-ofício apenas feito por
imigrantes ilegais tem vantagens:é bem remunerado, leva um máximo
de três horas a semana por residência e os proprietários
raramente estão presentes, deixando delicadamente um sanduíche
frio e o pagamento do dia num envelope. Quando Rute gripou
fortemente num inverno impiedoso - ou teria ido passar uns dias em
Gales com o namorado escocês? -, pediu a amigos que
substituisse-a na sua humilde faina. Repartindo a clientela,
fiquei com uma casa típica de tijolinhos aparentes num bonito subúrbio.
Sabia que vivia ali uma idosa senhora solitária, visitada
raramente por um filho cinquentão, e que possivelmente seria
escritora. Rute trocara poucas palavras com ela e
advertiu-me sobre o maior problema do serviço:livros espalhados
por todos os lados como insetos vivos, e a "escritora" não
permitia tocá-los nem para tirar o pó. Imaginei uma dessas
escritoras românticas fracassadas, tipicamente inglesas e neuróticas.
Nem ousei pensar que poderia ser Iris Murdoch ou Muriel Spark,
seria como estar na intimidade com Raquel de Queiróz ou Zélia
Gattai. Ao tocar a campainha às nove da manhã, coberto por uma névoa
gélida que atravessava o meu gorro e o casaco de pele e o forro
de lã de carneiro, reconheci imediatamente o par de olhos verdes
surgidos pela porta semi-aberta. "Miss Lessing? Sou o amigo
de Rute M. Ela está enferma e eu vim fazer o seu serviço".
"Pobrezinha. O que tem? Não é nada sério, não?".
"Uma gripe", respondi possivelmente pálido, disposto a
beijar as mãos daquela mulher de olhos profundos e rosto
costurado de rugas. "Como sabe que me chamo Miss...Lessing?",
desconfiou. "A correspondência...", menti apontando
cartas e jornais no chão. Ela sorriu, cortês, e abriu a porta
totalmente. Ao voltar-me as costas, aproveitei para observá-la
atentamente: o cabelo grisalho quase naturalmente azulado, em
coque, o colete azul elegante e um macacão branco masculino. Aos
79 anos, esta mulher versátil e imaginativa que mais parece uma
avózinha de contos de fadas, um pouco gorda, é uma das
escritoras mais celébres do mundo e seu nome é sempre
referencial para Prêmio Nobel. A sua novela mais famosa, a
quase auto-biográfica O Carnê Dourado (1962), é um êxito
mundial, inclusive no Brasil. Lembro quando a Stela Simpson de
Tonia Carrero em Água Viva brilhava numa cena lendo-o. Nascida na
Pérsia, criada na antiga Rodésia, hoje Zimbabue, é conhecida
como uma escritora realista, embora seja autora de cinco novelas
de ficção-cientifíca (o ciclo Canopus in Argus Archives).
Escreve com segurança e talento sobre o desmoronamento familiar
moderno, a permanante crise sentimental e a competição entre
casais, além de retratar a mulher dos nossos dias com lucidez e
ferocidade. Perguntou se eu queria tomar algo. Não respondi
hipnotizado com a escada que levava ao primeiro andar cheia de
caixas de livros, e ao entrar na cozinha e no salão de baixo, não
acreditei no número de livros desordenados. "Gosta de doce
de gengibre?", perguntou afetuosa. Disse que sim, mas
preferia começar o trabalho, e que ela não se preocupasse, Rute
havia me explicado detalhadamente tudo. Ela sorriu, sorria sempre,
e desapareceu escada acima. Limpei toda a parte de baixo por quase
uma hora e, ao esfregar os vidros, avistei o jardim selvagem,
tomado pelas plantas. O silêncio era completo, não ouvia-se música
nem ruídos de passos ou mesmo de uma televisão. Subi as
escadas de madeira escura e deparei-me com uma sala com poucos móveis:
uma grande mesa sobrecarregada de livros e papéis, almofadas
orientais espalhadas pelo chão, alguns pufes e um sofá baixíssimo,
sem pés - como uma morada de espírito hippie.Um gato grande e
velhíssimo saltou de um livro onde dormia - Satyricon de Petrônio
- e notei que tinha somente três patas. Doris Lessing,
praticamente imóvel, escrevia a mão sentada numa das almofadas.
Ela virou-se para mim e disse: "Este é O Magnifíco. Tem 18
anos e teve um pata amputada porque tinha câncer. Está
muito velho, pobrezinho". O gato olhou para mim bastante
indiferente e aconchegou-se em cima de outro livro. Poderia ser o
gato existencialista da atriz de Horas Nuas de Lygia Fagundes
Telles. Tudo para mim era novo, não sabia se me surpreendia mais
com a vastidão de livros em vários idiomas, o gato de três
patas ou a ágil senhora sentada numa almofada como uma
adolescente. Ao levantar-se, sussurrou:"Isto é a velhice.
Entende? A velhice é a dificuldade para levantar-se".
Iniciei o trabalho enquanto ela mexia em papéis, antes
perguntando outra vez se eu não queria tomar algo. Quando a cada
minuto voltava-me para olhá-la, os seus olhos levantavam telepáticamente
e encontravam os meus. Sorriu uns minutos depois e
perguntou:"Como se chama?". "Antonio",
respondi sem deixar de tirar o pó dos objetos. "Antonio, você
gosta de livros, não?". "Muitíssimo". Ela sorriu
e depois de uma pausa demorada, continuou a conversa: "Você
chora normalmente?". "Somente no cinema". "Eu
também nunca choro. É horrível". "Como joga fora os
seus medos?", ousei saber. "Através da literatura. Uma
vez passei um ano inteiro sem escrever e vivia de mal humor. A
escrita é uma espécie de equilíbrio". Olhei os seus
pequenos e intensos olhos verdes e vi a infância dura numa antiga
colônia britânica sulafricana, num sítio espaçoso nas
montanhas, e depois a fuga aos 14 anos e o casamento aos 18; logo
abandonou o marido e os dois filhos, enfrentando o regime racista
e machista da colônia.
Uma heroína de filmes de aventura. Uma mulher poderosa e lúcida,
de prosa perfeita e caráter fortíssimo, que cultiva a literatura
como espaço de domínio e liberdade pessoal. Ao terminar o
trabalho, que gostaria que fosse interminável, aceitei o chá e o
doce de jenjibre. Boa anfitriã, ela sentou-se ao meu lado na mesa
da cozinha, colocando a chaleira, as xícaras e o doce entre
livros. Ela sorria sempre - lembrarei dela eternamente sorrindo.
"Escrevo também. Sou um aprendiz", confessei.
"Imaginei". "Não consegui nenhum êxito",
afirmei." Cada livro tem sua própria vida. Todos os livros
tem que a lutar a princípio contra a negatividade e a indiferença.
A maioria de meus livros recebem violentas reações negativas. Na
verdade não é importante que a gente goste deles, o importante
é o prazer de escrevê-los". Foi uma conversação delicada,
cheio de evidentes e mútuos desejos de nos entendermos. Ao final,
Miss Lessing me presenteou com um livro - A Proper Marriage (Um
casamento convencional, 1964) - e insistiu que levasse um pedaço
de doce de gengibre para Rute M. Não tive coragem de beijá-la,
um abismo transparente e sagrado nos separava. "É preciso
sobreviver às piores circunstâncias, meu caro amigo",
aconselhou, sábia, enquanto me entregava o envelope com o
pagamento da faxina. Não o aceitei, ela insistiu, não o quiz de
forma nenhuma. Enfrentei a rua insultada pelo inverno rigoroso, em
direção a estação de trem. As lágrimas corriam pela face, e
na cabeça: o prazer da escrita, as alegrias intensas e a excitação
de conhecer uma criatura resistente e indômita.
antonio_junior2@yahoo.com