FRANCO DE LAGOS

por     
Franco de Lagos


         Pediram-me para falar  sobre Franco de Lagos, pois bem, fui sua sombra  ao longo de sua  vida, como tal me sinto habilitado a falar dele, apenas esperando que o compreendam.

Franco Lagos nasceu numa cidade linda, situada sobre colinas viradas para o Tejo, Santarém. Viu a luz do dia  num dia frio de Fevereiro, a vinte seis. Não nasceu num berço de ouro, não, mas o berço onde nasceu, não sendo de ouro, era de amor. Mas a vida, como alcatruzes de nora, estava dando o início da descida. Apenas a doze dias de completar três anos, sua mãe e suas duas irmãs fizeram a ultima viagem. A partir desse dia ele se encontrou só, seu pai não tinha o sentido paterno e muito menos o adicional, o materno. Depressa tudo o que o tinha  envolvido desapareceu e passados onze meses da partida de sua mãe, ele inicia um ciclo de viagens. Sua primeira viagem  seria na direcção de Viseu, uma linda cidade no interior, mas bem longe daquela onde nasceu e por lá ficou imenso tempo. Esses tempos foram dos mais difíceis de sua vida, foi nessas dificuldades que vieram ao de cima seu sistema de sobreviver. Criou um mundo imaginário e nele se fechou criando suas próprias personagens. Ninguém lá entrava. Ele dava movimento a tudo e foi bem cedo que na escrita ele se refugiou. Escrevia coisas vistas ou vividas e sobretudo aquelas que ele gostaria que acontecessem, sentindo na sua pele a indiferença dos adultos. Fugia para os campos e bem alto gritando dizia o que em seu peito sentia, revolta pelos que lhe faziam mal, revolta para com aqueles que algo poderiam fazer mas nada faziam e até sua mãe por tabela também ouvia, quando ele desesperado, de punhos cerrados e olhando o céu, de lágrimas nos olhos dizia: “Porquê, mãe? Porque aqui me deixaste e contigo não me levaste? Porquê? Era assim seu estado de espírito, era assim sua vida, como tal, a imaginação tinha que ser grande para aguentar o impacto da pancada levada. Quantas vezes ele se sentia desfalecer e o  querer da desistência era grande. Por vezes, poisava um joelho em terra, mas algo lhe segredava ao ouvido de não desistir , de não dar  prazer a essas pessoas. Aí, ele sabia quem lhe dava forças. Então, curvando um pouco a cabeça, meditando  e respirando de novo profundamente, ele a cabeça levantava e sorrindo, quase com seus punhos erguidos, apenas faltando a espada para iniciar de novo combate, dizia: “Não, eu não desisto. Tu, que me estás ouvindo, bem sabes o que te prometi, teu nome bem alto erguerei e mostrarei a todos que eu serei o melhor.” Era assim que ele de novo ia á luta.

Os anos se passaram e, meio homem meio criança, revoltado com a vida que levava, pensando na fuga para a frente, se encontra casado com apenas dezassete anos. Sim, digo bem, dezassete e aos vinte anos dois filhos, mais outros dois  anos e um terceiro. Ele que suas asas curtas e depenadas apenas lhe permitiam a tentativa de voar bem curto, agora, com tal peso, ainda menos voos poderia tentar. Assim alguns anos ele passou mas sabia e o dizia bem claro que não aceitava ter vindo a este mundo para vida tão insípida. De pés e mãos bem amarrados ele se sentia, mas seus sonhos ele não queria deles desistir. Continuou a sonhar e através da  escrita muita coisa ele disse, através dela muita gente se riu de tais sonhos, mas ele estava decidido, tinha prometido a sua mãe e tal pessoa não poderia abandonar esses sonhos. Assim, um certo dia, vendo que sua vida não mudava, decidiu de novo tentar a voar. Sentiu que  com sua plumagem reforçada talvez desta ele conseguisse voar e de novo ele volta ao mundo dos sonhos, ao mundo da estrada e se encontra em Paris, sem recursos e com fraco apoio. Ele chega a Paris a 2 de Setembro de 1970. Com apenas conhecimentos da língua de escola ele depressa sente a imensidão daquela cidade e se lembrando de tudo que tinha lido de Emile Zola,  Le Ventre de Paris, Gervaise e sobretudo Germinal, percorre as ruas da cidade tentando identificar as ruas tão bem descritas pelo escritor e procura ver na Catedral Notre Dame de Paris as pedras e recantos que Victor Hugo tão bem e longamente descreveu em seus escritos. Nelas tocou e bem para tudo que era sítio olhava procurando gravar em sua mente o que antes só pela escrita tinha “visto”, tinha dito que Paris era como um rio de cultura que desaguava  no mar da Grécia. Ele percorreu aquelas ruas tão diferentes do que até aí tinha visto e depressa as assimilou a um palco, depressa passou a olhar e seguir as pessoas com seus rituais de viverem todos iguais e todos diferentes. Ele estava sozinho na arena. Agora era necessário que ele pegasse os cornos do toiro nos braços e enfim lutasse. Não foi fácil não, mas aquele sonho o despertava continuamente e aos poucos foi criando seu espaço próprio na Alta Costura. Trabalhou para gente famosa, entre eles Paco Rabanne, mas sua meta era trabalhar com nome próprio.  Assim aconteceu, num mês de Novembro ele cria a sua pequena casa que ao fim de três anos era enorme e, como não podia deixar de ser, com o nome de “griffe”,  TONY FRANCO. Diminutivo de seu primeiro nome e lá está, o de sua mãe.

O sucesso de sua casa  foi enorme e o espaço para a escrita começa a encolher. As pessoas bem o criticavam por ele não escolher essa forma de arte, mas a esses ele apenas respondia: “e enquanto eu escrevo, vivo de quê?” Já nessa altura a selva em que vivemos se fazia notar, se descurava a arte pela parte mercantil. Fez várias voltas ao mundo, a  maior parte de suas viagens relacionadas com o lazer eram passadas em locais onde pudesse utilizar suas câmaras. Assim, depois em casa as olhando descrevia textos e outras coisas.

Ao fim de dezassete anos de Alta Costura chegou um momento de saturação. Ele  sempre disse só trabalhar nela enquanto isso lhe desse gozo e não passar o tempo a alimentar mais de centena de empregados e as lojas espalhadas pelo mundo fora. Assim, decidiu voltar a suas origens. Muitas viagens fez, sempre no intuito de captar imagens com suas câmaras, Galápagos no Equador, Mar da China, enfim, quatro continentes sobre  cinco ele percorreu. Muito viu, muito viveu. Ele se sentiu, enfim, pronto para aquilo que ele tinha prometido depois de muita insistência, escrever. Ele de suas viagens falou, suas histórias contou, já que ele tem uma particularidade, aprecia o pequeno detalhe. Ele não descura, mesmo um pequeno pulgão numa flor, ele quer compreender porque ele se encontra lá. Se vê uma pequena formiga trabalhando ele a acompanha e o tempo aí pára, ele tem seus olhos nela. Se vê uma gaivota voando, ele fica encantado como criança recebendo brinquedo, ele se extasia, pára e embevecido pensa  no que ele faria se tal animal ele fosse. Então dá asas a seus sonhos e quantas coisas ele imagina. Depois passa para papel tudo o que “viu” e sai  qualquer coisa que ele mesmo depois de ler fica admirado de tais palavras e diz: “mas fui eu que escrevi tal coisa?” É assim Franco de Lagos, como criança que faz maldade, admirado fica do que lê e nem se apercebe do que escreveu, apenas contente e seus olhos brilhando do que lê.

Actualmente, ele se soltou completamente, por tudo e por nada escreve. Tem centenas de folhas com coisas que ele próprio diz ser coisas banais, mas essas coisas quando chegam às mãos, ou melhor, aos olhos de quem as lê, se transformam. Escritos, tais como a “Dor do petiz”, bastando lembrar o pedido de uma senhora de setenta e sete anos de Salvador que lhe diz: “Meu filho, não pode mudar seu estilo de escrita?” Ele inquieto lhe pergunta a razão de tal pedido e ela responde: “Sabe, é lindo, mas dói de ver o petiz sofrer e nada poder fazer.” Ou quando ele escreve a “Gaivota” e tanta gente querer e/ou mesmo se identificar com ela. São nestas coisas pequenas, nestes momentos que ele acorda, sai de seu mundo e diz com seu ar inocente: “Pois é, acho que tenho que me tomar mais a sério”.

Agora, seu tempo se passa, passeando nos campos, á beira mar, na sua lagoa preferida, procura gaivotas para que elas para ele possam posar e ele na sua câmara imortalizar seus voos. Não importa se bem, se mal, são voos que ele grava em sua mente, à sua maneira e à sua maneira descreve.

Sua forma de escrever, não é de tendências, nem estilos, nem escolas. Para não misturar eventuais interferências com outras escritas, apenas gosta de ouvir tudo que é falado e é lá, na sua vivência do dia a dia, naquilo que ele sonha ou naquilo que ele viveu, que são suas fontes inspiradoras. Suas fontes preferidas são aquelas de seu canto e aquelas vistas com seus olhos no estado de Alagoas, no sertão, de Arapiraca, Delmiro Gouveia  a Agua Branca, descendo o Rio São Francisco até Penedo, as praias de Aracajú, ou Mangue Seco e sobretudo a sua  maior fonte de inspiração, a lagoa da Massagueira em Maceió. Tudo para ele é fonte, um olhar de animal pedindo com seus olhos um pouco de atenção, um olhar de criança pedindo um pouco de amor, uma rosa debruçada como que pedindo para ele  dela cuidar. Tudo. Mesmo um coqueiro de pescoço torto ou  um insignificante caranguejo procurando  refúgio na areia já que ele, na ânsia de captar seus movimentos, lhe provoca medo.

É este homem que eu conheço. Alguns defeitos, algumas qualidades. Vive apenas para proteger aqueles que ele ama e sobretudo dar e dizer o que a vida de mais sublime tem, AMOR. Tem  outras manias: falar com os animais e flores, tentar  adivinhar seus olhares, seus anseios, ver nas flores as cores e compreender a razão de tal coisa. Sobretudo olhar o mar, o horizonte e, fixando a ponta de Sagres e o cabo do Carvoeiro,  imaginar  uma linha recta atravessando o Atlântico e tentar acertar com a cidade de Fortaleza, alguns centímetros mais abaixo dessa linha imaginária,  sobre a sua esquerda,  encontrar  Recife, mais um pouco Maceió e de seguida Salvador ...

Acho que sonha demasiado e receio que ele  um dia não distinga entre o sonho e a realidade e que ambas as coisas não sejam para ele que uma só, que como se sabe não existe, esse paraíso onde só exista amor e compreensão, para com aqueles que sofrem da indiferença dos mais crescidos. Enfim, acho que ele ainda não se apercebeu que cresceu e seu olhar para o mundo não se modificou, desde o dia em que ele se refugiou na sua bola de cristal.

È assim que eu vejo Franco de Lagos. Sempre olhando para sítios  difíceis de ver e muito mais difíceis de atingir, a não ser que se faça como as personagens de Cervantes. Mas deixemos isso para outras pessoas. É bom sonhar. Assim como guarda imagens de tertúlias e quando se apercebe, vê que falou o tempo todo. Depois, como criança, pede desculpa de falar tanto assim, tal a maneira arrebatada de ele querer falar. As pessoas embevecidas respondem: “não, a sua  forma de falar nos emudeceu e ainda queríamos mais.” Ele, como criança no olhar,  olha e apenas diz: “Desculpem. É esse mesmo que noutra tertúlia, ouvindo alguém que falava divinamente, bebeu cada palavra, cada espaço e tom sem dizer nada, não perdendo nada, de tal maneira que ainda hoje tem na mente gravadas as palavras desse homem. Apenas escutava e nada dizia, apenas escutava.”

É esse homem que eu conheço, Franco de sua mãe,  Lagos de sua cidade.


Algumas de suas obras
   

POEMAS:  Chegada - Eu sei - Gosto!!

CONTOS:    ESCREVINHADOR POR NECESSIDADE
                    O ESBELTO

 


Contato: francodelagos@clix.pt 

 

 
   

 

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Editoração
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