I capítulo

O Esbelto
    

Num fim de tarde de Agosto, Manuel e Julieta chegam de Portugal onde tinham ido passar suas férias de Verão. Vinham cansados e assim que saíram do carro,  a mim eles se dirigiram com um sorriso nos lábios, tinham trazido para me oferecer um animal de estimação. Então,  olhando me dizem: “Patrão, sei que gosta de animais, por isso lhe trouxe mais este! É um lindo exemplar e cantador de primeira este canário!” e me estende uma pequena gaiola com uma minúscula ave lá dentro que acabara de fazer em automóvel mais de dezassete horas de viagem, sem pararem. Manuel, a mulher e o filho  estavam exaustos, apenas a ave saltitava, quem sabe de espanto de ali se encontrar, mas dava para perceber, com seu bico bem aberto, que necessitava também de descanso e sobretudo água fresca.

De facto tinha muitos animais, desde coelhos, patos, gansos, cães, gatos, pombos  e sobretudo uma bela colecção de faisões, mas nunca me tinha passado pela cabeça ter ave tão pequena. Era um belo exemplar, cor amarela e de belo porte. Parecia estar de peito feito, parecia ter vaidade de seu porte. Tinha sido  oferecido com carinho e, ao para ela olhar, depressa me veio á ideia de o baptizar. Meus filhos lhe queriam chamar Titi, por causa desse dos desenhos animados, mas para mim não era nome á altura e de repente, para ele olhando e o vendo tão vaidoso, lhe chamei Esbelto, e assim ficou. Com o tempo a ele me afeiçoei de forma carinhosa, passando a partir desse momento a  fazer parte da família.

A partir  da Primavera, na minha casa de Paris, eu o colocava na varanda de um terceiro andar para assim ele poder desfrutar do sol e das árvores frondosas em frente . Ele cantava que nem louco. Enfim, meu esbelto era feliz. Eu por vezes, para ter um pouco de silêncio, à noite era obrigado a colocar uma toalha sobre a gaiola. Tinha me afeiçoado a ele de tal maneira que tinha sempre de meter conversa com ele. De facto, ele era lindo e um cantador de primeira, mas por vezes nos distraímos e desleixamos um pouco os cuidados para com aqueles que amamos. Pois bem, numa tarde de Maio uma trovoada forte abanou tudo e todos. Devo dizer que tenho um medo imenso de trovoada e de repente, quando a trovoada estava no auge me lembrei: “E o esbelto?”. Como um louco, mesmo com medo da trovoada, fui á varanda. Estava um vendaval terrível, as árvores que estavam quase colocadas junto á minha varanda enorme quase se esmagavam contra, mas eu esqueci  medos e a chuva que me fustigava o rosto e só me preocupava com ele. Quando enfim vejo a gaiola, ela estava partida no chão e meu esbelto nem vê-lo. Corri a enorme varanda e nada. Num repente, desci os degraus da escada de dois em dois e vim à rua. Era  enorme o pandemónio de destroços de árvores. À chuva e vento, eu deveria parecer um louco à procura de uma simples ave minúscula. Mas milagre dos milagres, eu consegui avistá-la no meio dos ramos quebrados das árvores, bem junto á parede de meu prédio. Com meu rosto banhado pela chuva, de meus olhos escorriam lágrimas de pena, de ver meu Esbelto tão mal tratado. Como um louco me culpabilisava de não me ter lembrado dele, antes da tempestade começar. De joelhos me coloquei e tentei ver, antes de nele pegar, se estava vivo ou ferido. Parecia morto, todo encharcado e inerte. Nele com cuidado peguei e reparei que ainda tinha vida. Acto contínuo, em minha mão o coloquei fazendo uma espécie de concha, pela parte superior comecei a enviar meu bafo para o aquecer e aos poucos ele começou a querer se mexer. Senti que ele estava vivo e voltei para casa. Lá dentro, no aconchego, aos poucos o sinto se querer mexer. Seus olhos, que pareciam estar vidrados momentos antes, começaram a tomar suas formas normais e sua plumagem foi secando aos poucos. Minha ânsia era enorme e à minha volta toda a gente torcia para que desse certo. Enfim, ele começa  a se mexer e querer arrebitar. Eu o acalmava tão bem que mal, não esquecendo que ele de uma ave não passava. Certamente ele quereria voar assim que pudesse, não fosse suas asas pesadas pelo peso da água e ele fugiria de minhas mãos. Mas ele nem isso tentava, dava a entender que sabia o que lhe fazia e eu apenas lhe dava meu bafo quente e palavras de carinho, como se acalmasse criança sofredora. Então, quando seu primeiro pio ouvi, meu coração se alegrou. Ele estava salvo e com mais cuidado dele cuidei. Aos poucos ele começou a se querer pôr de pé. De novo voltava à vida reclamando com seu pio que sua hora não tinha chegado. Nessa noite ele dormiu num pequeno açafate feito com a ajuda de minha filha pequenina, Bea, que foi correndo em seu quarto buscar o que foi nessa noite sua cama. Ela, tal como eu, chorava e se alegrava à medida que meu esbelto arrebitava. No dia seguinte o coloquei de novo em gaiola nova.

Durante muito tempo seu canto acabou e eu triste ficava de o ver assim sem nada poder fazer. Falava com ele, ele me escutava, mas não cantava. Ele decerto me entendia, já que nossas conversas eram muitas vezes para o chatear por ele cantar tanto. Desta vez não, ele não cantava e eu de seu canto tinha saudades. Até que um dia ele, certamente farto de me aturar, se meteu de novo a cantar, o esbelto.

Julho 2000             
                        
Franco de Lagos

 

 

 
   

 

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