Escrevinhador por necessidade
         

Quando por vezes ouço falar referindo a escrita como uma arma terrível, eu tenho vontade de questionar se essa arma é de defesa ou ataque. Para mim a escrita sempre foi arma de defesa, de diversão e, porque não, de sedução ou chamada de atenção daqueles que  passavam  e nem o desperdício do seu tempo gastavam para sequer me interrogarem se de algo eu precisava.

A escrita foi para mim a descoberta do mundo real e, porque não dizê-lo, do irreal. Quantas vezes, sem saber ler ou escrever, tive que inventar a linguagem gestual. Através do olhar, através de minhas  mãos bem pequeninas, fazendo com elas movimentos de voo de ave ou avião, ou gestos de pequeno palhaço, como que chamando a atenção do que eu queria mostrar. Ou quem sabe evitar que uma bofetada eu levasse e chamar a atenção das gentes. Mas porque razão o deveriam  fazer? Eu, um vintém de gente, que poderia afinal  dar a  conhecer nessa minúscula figura?

Quando aprendi a ler, depressa descobri que outros caminhos eu poderia seguir. Não aqueles que a vida me dava, não, mas aqueles dos livros. Então, com uma avidez avarenta, tudo eu queria ler e compreender. Tudo para mim era interesse e de dia ou noite, em tudo que era sítio, eu passava devorando essa leitura que me impregnava. Quanta pancada eu levava pela minha teimosia de querer ler e ler sem parar. Daqueles que me castigavam por tanta leitura, mais tarde vim a perceber o porquê da mudança de trato quando à minha porta se acumularam homens casadoiros, esperando a autorização de meu pai para eu lhes poder escrever suas cartas de amor. Me lembro do dia em que certo jovem chega à porta de minha casa e diz: “Senhor Santarém, trago aqui uma coisa para você! Não se importa de deixar seu filho me escrever uma carta?” Meu pai responde: “Claro Daniel, ele pode escrever as cartas que tu quiseres. Mas dá para cá isso.” E num ápice pega numa garrafa de vinho tinto de sete decilitros e meio. Era esta a forma de pagamento que ele cobrava para quem quisesse cartas escritas.

Me lembro bem da fama que atingi. A tal ponto que mesmo na cama de um hospital, onde certa vez fui parar, mesmo aí eu tinha visitas. Não visitas de cortesia, não, mas visitas de corações amorosos ou despedaçados. Visitas que uns faziam para consolidar seus corações e outros para os tentar salvar do naufrágio. E eu, mesmo doente, lá escrevia cartas inflamadas para uns, dengosas para outros. Aí, a cobrança não se fazia de garrafas de vinho, mas sim de laranjas ou bananas, minhas frutas preferidas.

A escrita, ao longo dos tempos, sempre foi para  mim um refúgio. Quantas vezes eu numa folha de papel agarrava, escrevia e, mal lia de novo, rasgava com medo de ser lido e mal compreendido. Quantas vezes eu algo escrevia e oferecia a crianças, histórias de algo que eu via e em que desejava ser a personagem central dela, mas que por capricho do destino não o poderia. Então, escrevia, contando e dando azo à imaginação. Nessas histórias, eu e meus colegas de infortúnio, éramos os heróis que de espada de madeira em punho bem levantado acabávamos sempre por ganhar as batalhas no olival do Maçorim de Viseu.

Quantas vezes escrevinhei cartas de amor e meu coração se inflamou de ler, reler e tentar me decidir se eu seria capaz, quem sabe, de ousar as entregar à destinatária. Quantos poemas eu escrevi e depois, ao sabor do desejo, os oferecia  a quem eu julgava com mérito suficiente para os receber. Quantos?

Quantos poemas eu escrevi e mais tarde reli me achando incapaz de tais escritos escrever, e pela certa assim era. Eu incrédulo ficava e me interrogava de onde e como eu conseguira escrever tais coisas. Então meus olhos levantava, os fechava e me recordava como tal coisa tinha sido feita. Aí, eu compreendia que era um estado de alma, como ave que voa.

Pela vida fora devorei sem cessar livros e livros, e em todos neles me embrenhei e senti viver como se de dentro eu pertencesse. Neles tentei aprender as mensagens que eles encerram e foi desta maneira que eu me fui construindo e assumindo o que para mim era vital, ler para aprender, para mais tarde saber dizer o que tantas interrogações me causou a leitura. Quantas dúvidas meu espírito encerrou, por querer duvidar que a verdade das mensagens lidas alguma vez me viesse a servir para transformar minha vida e eu acreditar no que lia. Assim, dessa maneira eu contava e representava traços e trechos dessa leitura e me revia vivendo de outra maneira. De tal maneira eu me revi que aprendi , se queremos, quando queremos, tudo pode acontecer. E de tal maneira acreditei que eu aqui estou vos dizendo porque para mim a escrita é vital. Direi mesmo fundamental para eu poder respirar, ler e escrever, já que de outra maneira eu não saberia viver.

Ao longo dos anos muita gente me instigou a escrever, contando todas as histórias de que eu falava, e sempre da mesma forma dizia que se parasse para escrever de que iria eu viver. Sempre da mesma forma eu disse que quando a hora chegasse, o sinal eu sentiria. Então, muita coisa poderia contar, já que um dos meus maiores defeitos de catraio, sempre foi o de eu parar para  ver e compreender. Tudo que eu visse interesse, mesmo de minúsculo animal viver, eu parava e esquecia que o mundo existia. Me lembro dessa faceta e me lembro bem da primeira tareia que recebi por ser feito dessa maneira, ou não fosse um pequeno besouro se atravessar no meu caminho onde eu, armado em vaqueiro, conduzia meu carro de bois puxado por um cordel. Quando vejo que esse perigoso animal se encontrava em dificuldades, me decido a ajudá-lo para não ser esmagado pelos passantes. Assim decidi, assim o fiz. E vamos ao trabalho, montar o besouro sobre meu carro de bois, pousando o saco do pão com vinte escudos lá dentro sobre uma pedra. Na azáfama de transportar o animal me vou e esqueço do sítio onde pousei o saco. Me dando conta de o ter perdido ainda tive a lucidez de ir buscar o pão mesmo sem  dinheiro. O problema veio quando me pediram o troco. Aí, não houve resposta que valesse, foi uma tareia e pêras, ainda não tinha cinco anos.

Esta minha forma de ser me trouxe muitos dissabores. Mas que importa, meus olhos se exclamavam com tanta coisa que eu nada queria perder. Quer em criança, ou mais tarde pela vida fora,  sempre essa memória me tem servido sem cessar. De tal maneira que a minha maior riqueza é quando num grupo de amigos, ou com meus filhos à volta, aí vou eu para mais uma rodada de historias. Então, é ouvir por vezes esta frase: “Conte lá aquela vez em que ...” E de novo, lá vou eu viajar no tempo e me colocar no sítio dessa história que faz parte de tantas histórias que contei e tantas outras que tenho para contar.

Deus me deu um dom, ter boa memória. Tudo o que eu conto, em escrita ou oral, ao descrever não puxo  pela memória para me relembrar. Basta me colocar no espaço e no tempo e vem ao de cima todas as imagens do acontecido. Depois basta descrever tudo o  que eu vejo nesse mesmo momento. Casos que me abalaram na minha vida são imensos. Na entrada de um restaurante no Rio, um mendigo com seus pés cheios de feridas puerentas, bastaram para eu perder o apetite. Mãe chinesa com seu filhinho amarrado nas costas enquanto ela, conduzindo seu pequeno barco e pequeno cesto na mão estendida, tenta chamar a atenção para a pequena esmola. Chineses em Hong Kong, esqueléticos, que mal se mantêm de pé. Eu interrogava meu amigo chinês porque eles estavam daquela forma tentando não cair, ao que ele me dizia: “Eles sabem que, se caírem nunca mais se levantam, já que eles morrerão ali de fome”. Eu dizia: “Mas como pode ser isso?” e ele de novo me respondia “Quando algum cai, ele sabe que não será socorrido e  morrerá. Então, ele resiste”. Eu incrédulo pelo que acabara de ouvir, e ele ajunta: “Porque se lhe fossem acudir, metade dos chineses da cidade caíam para o lado”.

A observância da vida é uma cena quotidiana que eu não deixo passar sem a focar. São as cenas reais da vida que eu gosto de descrever. É a pureza da poesia, sem palavras caras, em que o mais  comum dos mortais não terá que ir ao dicionário para tentar compreender  o que acaba de ler. A simplicidade da escrita de todos e para todos, sejam histórias, prosa ou poesia.

Nas minhas mensagens tenho o hábito de escrever em metáforas ou de forma desenhada. Talvez hábito de quando eu falava mais com as mãos do que com a dicção da palavra escrita. Gosto de falar e sentir minhas palavras como notas de música. Assim eu vejo a minha forma de escrever, gostando de fazer transparecer para os outros o amor por aquilo que escrevo, englobando nessa forma de escrever aqueles para quem eu escrevo, amor, carinho e o cuidado, mesmo por uma simples planta ou animal. Como poderia eu escrever, e sobretudo descrever, aquilo que sinto se ao passar pelos campos não reparasse nos animais, sobretudo as aves ou flores selvagens. Como poderia eu me inspirar nos meus passeios pela beira mar se eu não sentisse seu cheiro, seu falar, o cantar das gaivotas ou o roncar dos motores dos barcos dos pescadores. Como poderia eu me inspirar se não sentisse e procurasse  os jardins vivos, aqueles onde as crianças são os donos do mundo. Sim, como poderia eu me sentir se tudo isto e muito mais eu não procurasse. Como me sinto eu ao olhar tanta criança sem futuro, a não ser esse futuro que é feito do nada e apenas têm o vazio à espera. Como poderei eu ficar indiferente às pessoas que, aqui ou noutra parte qualquer, sofre as injustiças desta sociedade devoradora e sem escrúpulos para pisar aqueles que do chão já não se conseguem levantar e que apenas esperam o milagre de uma rabanada de vento que lhes tragam algo de concreto para que suas vidas se transformem, mas sabendo de antemão que nem mesmo isso eles podem sonhar.

Assim, quando eu disse ser uma necessidade premente para mim escrever, eu sabia bem o  que dizia. Escrever para contar o que eu sofri, vi e aprendi, o que eu vejo e desejo, que as coisas se modifiquem um pouco. Não peço muito, apenas que as coisas se mudem um pouco de cada vez. Não quero semear revolta, não. Eu quero dizer a todos aqueles que têm a sorte de viverem uma vida tranquila, que se lembrem dos outros. Aos outros eu apenas quero deixar uma mensagem, não desistam, lutem com toda a vossa força. E de antemão eu digo, quando se luta, a luta se torna menos desigual, por isso, como eu, lutem mas com vossa mente e que vossa vontade seja superior á força. A minha luta nunca teve intervalo, sempre lutei e como bem disse uma amiga minha: “eu utilizei minha inteligência para me destruir, você utilizou a sua, para emergir e conquistar”. Eu acho que ela tinha razão em determinadas coisas e digo que  sim, a inteligência bem utilizada nos pode levar a portos bem mais seguros e bem mais apetecíveis em termos futuros. Eis a razão da minha necessidade da escrita, vi e vivi, agora quero contar e chamar a atenção das coisas. Poesia, prosa, histórias e contos? De tudo um pouco, já que um pouco de tudo pode fazer nascer uma nova vontade, a vontade de dar e amar.

Enfim, para mim a escrita representa o que para o actor de teatro representam as tábuas do palco quando ele as pisa. Quando escrevo, me sinto outro, me liberto e como ave, realizando o sonho de tantos homens desde Ícaro, voo e vejo meus sonhos desfilar sobre uma folha de  papel.

Franco de Lagos

 

 
   

 

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