JANETE,
Rosa dos Ventos

Janete, Rosa dos Ventos, nascida no Rio de Janeiro, escrevendo desde cedo aos 10 anos, foi acumulando uma acervo muito grande entre crônicas, contos, poesias, romances, peças de teatro, motivos adulto e infantil.
Vencedora de vários concursos, o que mais deixou marcas foi uma homenagem prestada pela Cidade do Rio de Janeiro ao grande poeta Vinicius de Moraes, quando então, ficando entre os finalistas, fez parte do livro editado pela Prefeitura da Cidade, intitulado POR UM POEMA DE AMOR. Dentre muitos outros livros já editados,  o último foi lançado pela Editora DPL de São Paulo, versando sobre aborto, prostituição infantil e crianças de rua, e que recebeu prefácio do Dr. Hélio Bicudo, Membro da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, considerando o teor do livro essencialmente voltado para o tema de defesa à vida em todos os sentidos.

Para saber mais sobre a autora, visite sua homepage
www.rosa-dos-ventos.hpg.com.br   


Do livro VARIAÇÕES DA ROSA, de Janete, Rosa dos Ventos, apresentamos:







RIO DE JANEIRO a DEZEMBRO

Em JANEIRO,
a fundação da Cidade
do Rio, minha terra natal
e digo com emoção:
- és da minha vida, o sal!

Em FEVEREIRO,
festa do samba
todos à rua a cantar
Rio, terra de gente bamba
teu carnaval, é de se invejar...

Em MARÇO,
mês da revolução
em coração do Brasil, transformado,
foste o caminho da solução
em busca da paz, encontrada

Chega ABRIL,
a Páscoa,
Dia do Índio e Tiradentes,
a festa em ti ressoa
ficas sendo, Rio dos contentes!

Em MAIO,
Rio das flores
mês de Maria, às mães homenagear
mês da liberdade, Princesa Isabel lembrar
e esquecendo os dissabores
teu povo, ensina a amar!

JUNHO
de S. João,
Sto. Antonio e namorados
festas juninas em todo lugar
mandam-se balões enfeitados
dizendo: sempre hei de te amar!

Em JULHO,
S. Pedro festejando
em festas vais continuar
e eu, contente, cantando
- Que bom que sejas meu lar!

AGOSTO,
mês dos ventos
mas continuas sempre lindo
são da natureza os lamentos
de nova estação
que vem surgindo...

SETEMBRO 
enfim chegou!
Mês de primavera,
emoção,
mil flores e um só pensamento
"Meu coração, sempre te amou"

OUTUBRO ,
agora vem,
crianças felizes a cantar,
Dia dos Pais e das crianças,
N.Sra. da Penha também
haveremos de festejar...

NOVEMBRO,
quinze e dezenove
República e Bandeira
em cada canto da cidade
uma festa altaneira!

DEZEMBRO,
os anjos cantam,
aleluia ao Menino-Deus
Natal e Fim de Ano,
festas a beira-mar,
fogos, alegrias, barcos a Iemanjá,
ao ano velho damos adeus!





A VIDA

Pessoas sem corpos passeiam pela Internet.
São transparentes e conheço suas almas.
Podem dizer o que pensam porque não há censura.
Podem colocar seu "eu" no ar porque tudo é válido.
Conversam, brincam, trocam cartões.
Alguns chegam a conhecer os parceiros.
Outros preferem o anonimato da forma.
O coração está exposto.
Talvez existam os piratas da comunicação;
escondem-se atrás de si mesmos e,
atrás de suas máscaras,
descrevem o que gostariam de ser realmente!
Mas não creio sejam muitos...
Penso que a maioria sofre do mesmo mal:- a solidão.
Muita gente vive só, na multidão!
Estamos navegando no mesmo barco;
içamos a vela
à procura de ecos para nossa voz muda.
A busca de sempre.
A vida!



BRUXARIA
18/01/98

Quero te morder,
te lamber, te cortar,
misturar todos os pedacinhos
no caldeirão do prazer...
Te envolver na fumaça do desejo
fazer uma gostosa bruxaria,
te comer...
Até lamber os dedos!
Deixar você alucinado
viajando, envolvido
na droga do amor,
caído, esmagado,
chorando de prazer,
gritando, gemendo de dor,
eu quero te ver!
Quero ser tua bruxa,
voar contigo na vassoura
do bem querer
sumir nas nuvens do êxtase
deixar queimar esse nosso amor
até derreter ...
E, nesse caldeirão maldito
te envolver em meus braços
te comer,
tirar de ti os pedaços
e um amuleto, quero fazer...
E para sempre
estarás preso a mim,
num medalhão transformado,
amarrado no meu corpo
embriagado no meu ser!
E, olhando no caldeirão da paixão,
lá do fundo,
quero te ouvir dizer:
" maldita! Maldita!
Teu sangue quero beber"...
E te darei tudo
mais e mais prazer,
até que fiques
totalmente mudo,
quando minhas cavernas, conhecer...
Você irá até o fundo
e não terá volta esse prazer,
de todos, o mais profundo,
que te farei viver!
Deste meu sumo,
como vinho de melhor safra
envelhecido no carvalho,
hás de beber,
e nessa bruxaria
de sexo, êxtase e prazer,
quero, dentro do caldeirão do amor,
desmanchar você!
Ouvirei sua voz fraca,
cansada, esgotada,
viciada, pedindo mais e mais,
do meu sumo, para beber...
Eu serei tua bruxa maldita
e tu serás, o meu homem,
meu único homem, e ficarás
comigo, no caldeirão, a ferver!





CÃO SEM DONO
14/06/98

Sou como cão vadio
sem dono,
pelas ruas a vagar,
cabeça baixa
sigo enfrente,
sem destino
sem ter onde chegar...
Vejo outros cães
pelas mãos de seus donos
a passear...
Chora meu coração baixinho
querendo um dono encontrar
sou como cão vadio, sem dono,
pelas ruas, a vagar...
Perdido, sem rumo,
procurando meu par,
andando, andando, andando
sem ninguém encontrar...
Sou afinal, apenas um cão vagabundo
cão vadio, cão sem dono,
em busca de alguém para amar!





AS PONTES DE MADISON
12/05/98


Me transportaram a outros quatro dias
dias que se transformaram eternos
noites que transpuseram o tempo e o espaço
e me deixaram cair em teus braços...
Pontes que relembraram travessia
coragem de transpor obstáculos
que me levaram ao outro lado da vida
que me amarraram em outros laços!
As Pontes de Madison,
seriam outras pontes quaisquer
que fizeram atravessar uma sonhadora
e de volta, passou por ali, uma mulher!





ACOSTUMAMOS COM TUDO, MENOS...
 08/08/98


 A gente acostuma, acostuma com o motorista arrancar o carro antes da pessoa subir, acostuma com a falta de dinheiro, acostuma com a dificuldade de comprar a cesta básica, remédios, acostuma a receber grosseria das pessoas que se tornaram neuróticas por tudo e por nada, acostuma com o sistema, com a falta de emprego, acostuma com o sistema maluco do Governo que amassa as classes sociais, acostuma a ver todos os dias o noticiário como se fosse apenas repetição, porque todos os noticiários só noticiam violência, drogas, assassinato, desastres, etc., acostuma a não receber o salário no dia que deveria, a costuma a emprestar dinheiro e nunca mais receber pagamento, apesar das dificuldades, acostuma a emprestar livros e nunca serem devolvidos, acostuma a sair com calor e depois quase morrer de frio porque a temperatura também enlouqueceu e cai de 10 a 20 graus em algumas horas, acostuma a não ver nada do que se passa ao nosso lado porque todos correm, correm muito sem chegar a lugar nenhum, acostuma a ser infeliz, comendo pizza e dançando pagode, acostuma a ser tratado como "coisa" pelas outras pessoas, acostuma até a ouvir baboseiras pelo rádio ou pela TV, acostuma a aceitar que o futebol, o time tri-campeão vá até o final e depois perca o campeonato de bobeira, acostuma com tudo, até assalto nos ônibus, nos carros parados nos sinais, acostuma com a visão da violência da polícia sobre as pessoas desarmadas, acostuma com a má qualidade dos programas de TV, com os filmes repetidos anunciados como inéditos, e assim mesmo liga todos os dias no mesmo canal ou então, acostuma a ficar trocando de canal na esperança de conseguir algo que consiga assistir, acostuma com quase tudo que a vida impõe, até ver as crianças do Sudão morrendo de fome e outras de qualquer parte do mundo sendo vendidas, arrancadas do colo de suas mães por uma máfia que vende seus órgãos e somos capazes de assistir tudo como se fosse apenas um filme, inventado, a gente acostuma até com a gente mesmo, todos os dias repetindo a mesma rotina, mas tem uma coisa que a gente nunca se acostuma, é com a solidão, dói mais que tudo, que tudo que possa vir de fora, porque é uma dor profunda que vem de dentro, cortante, sem fim, sem solução e tudo mais, tudo externo, depende de nós, apenas de nós, a solidão não, é implacável, é imposta pelo destino, e, infelizmente não podemos mudar isso até que encontremos, por força da vida, alguém que cruze nosso caminho e também esteja sofrendo a mesma dor!




Esta página é parte integrante da Revista Rio Total

 

Editoração
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