Debaixo do véu


As noites contigo são insones e dormentes,
Não descansam.
Nem o corpo doentio, exaltado de suspiros.
E de pensamentos puros e ardentes.

Há punhais que me rasgam as roupas e o ventre,
Nas noites contigo,
Há um lume que me prende à cama e me tortura.
Que me inspira e devora a alma.

Ninguém consegue deter o temporal que desaba,
Que é vulcão... e dilúvio... e tornado,
Nas noites contigo,
Teu corpo é seda com que teço a vida.

Meus lábios te descobrem e desenham
Em movimentos inquietos e doces.
O coração está cadente, suspenso dos céus,
Nas noites contigo…

Abril de 1998
Entrou na Poiesis I





Amêndoa Amarga

Sinto-me só e desesperada
como se a minha existência se resumisse a um negro e gigantesco nó,
que se aperta cada vez mais em torno das horas e das noites.
Sinto-me vaga e cansada
como se já te tivesse perdido,
como se não me conhecesse(s) ou tivesse ficado sem memória(s).
Sinto-me exausta e sonâmbula
como quem se entrega ao tempo sem saber se vai chegar,
como quem está a mais em todos os lugares.
Sinto-me ténue e monótona
como uma velha (in)cómoda,
que resiste, desconfiada e severa, à lenta passagem dos anos.
Sinto-me rebelde e inalcançável
como se todos me olhassem de soslaio...
E eu me risse...
num riso infinito...
de mim,
de ti e deste mundo
de inevitáveis desencontros.  

Julho de 1997
Entrou na Poiesis I

   


Palavra

O que é uma palavra?
Quando te digo tantas
em todos os instantes.

O que é uma palavra?
Quando o silêncio se instala
e a sua ausência se nota.

O que é uma palavra?
Quando é de Amor?
O que é uma palavra?
É quando a Sonhamos?

Agosto de 1998
Entrou na Poiesis I




O Cravo

A todos os que lutaram por Abril
mas especialmente a Francisco Lino, o meu rebelde bisavô,
pela fé inabalável que depositou na liberdade

A 25 de Abril de 1974
festejou-se a liberdade e o sonho,
com hinos nos lábios,
com votos renovados de esperança.
Com o País aberto à verdade,
e os braços estendidos aos Heróis,
às promessas e à confiança.
Foi dia de luta, de lágrimas,
de adeus às armas, de acolhimento.
De um sorriso para uma certeza.
As prisões e as torturas
queriam-se longe da lembrança,
pois agora reforçavam-se os desejos
de uma Pátria nova, Renascida,
de uma Pátria nova Portuguesa!

Porém,
o tempo passou,
e um cravo rubro, solitário,
ficou na estrada tombado…
As desilusões esmagaram-no
e o Homem Novo ignorou-o,
tomando-o por vinho entornado.  

E hoje,
é recordado com brindes e discursos de glória,
esse dia que ninguém esqueceu.
Mas há novos pés no silêncio a pisarem
aquele cravo de sangue exaltado e vitória
que no auge da festa alguém perdeu!..

No futuro,
uma criança,
brincando na areia da estrada,
encontrará o cravo,
que à Revolução foi ceifado.
Ao romper de uma aurora,
em vigor, plantá-lo-á de novo,
para que a fé não se apague.
E crente nas razões do povo,
na sua justiça, na sua dor,
estará a plantar, sem o saber,
a mais doce força da Saudade,
e o mais intenso poema de Amor.  

Dezembro de 1997
Entrou no (De)Corrente  



Morrem as árvores de pé?

Uma árvore cai!..
... não se (lhe) ouve um som
na Natureza
a morte é sempre assistida do silêncio.
As outras árvores choram...
e o seu pranto é mais pungente
que a dor do tronco magoado,
a descer lentamente por entre a vegetação,
até esmagar o solo.

Janeiro de 1998
Entrou no (De)Corrente



Como um mapa em tuas mãos

Em tuas mãos de seda feitas...
há rotas de finos tecidos
que o meu corpo vai percorrendo.

Em tuas mãos de pele meiga...
há traçados invisíveis
que o meu destino vai tecendo.  

Há lugares desconhecidos
que encantariam exploradores
... em tuas mãos perfumadas.

Em teus dedos de cetim...
há um mapa das Índias
com especiarias cobiçadas.

Em teus dedos aromáticos...
há suaves rasgos de pecado
que me deslumbram os sentidos.

Há uma geografia indizível
como os caminhos de Cartago
... em teus dedos reflectidos.  

Maio de 1999
Entrou no (De)Corrente  



País Florido, Portugal Livre

Na madrugada cinza,
vieram militares descer as ruas desertas.
Aconselhava-se à calma,
ao sossego na Revolução.
Mas com a manhã fresca, o povo exaltou-se num burburinho.
De entre todos os que se agitavam nas ruas, acotovelando-se,
surgiu uma Mulher
- Trazia cravos rubros na mão!

Feminina e senhora de si, como a própria Liberdade,
lembrou a Rainha Santa, abrindo aos pobres o regaço.
- Ofereceu flores aos soldados, por mais não ter para lhes dar.

Gratos p'lo gesto,
os soldados ergueram os cravos bem alto.
Como quem brinda a uma vitória, a uma dura conquista.  

Dos canos das espingardas, tantos e tantos cravos brotaram,
que visto de cima, com os olhos imensos do céu,
havia um novo tom sobre o País:
Portugal era agora de um vermelho florido!
Portugal era agora tão livre quanto o mar!

Abril de 1999
Entrou no Net Art Fax Internacional





 

Esta página é parte integrante da Revista Rio Total

 

Editoração
Irene Serra
irene@riototal.com.br