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A Saudade Segundo Quem Viaja*
"Cá por mim gosto de viajar sozinho, que é para povoar a minha
solidão da paisagem que vou vendo e para conhecer mais gente que mereça
a pena. […] Quero descobrir o coração dos que vão comigo, senti-lo
bater. Andamos no mundo como desconhecidos uns dos outros; e eu não
quero que haja desconhecidos: quero Amor…"
(Sebastião
da Gama in "Diário")
Já
me esquecera de como é viajar no segundo piso de um Expresso, da sensação
de proximidade ao tecto das estações rodoviárias que temos aqui de
cima.
Seguem
hoje comigo pessoas que se dirigem aos quatro cantos da Terra. Animadas
descrevem as viagens que já fizeram, dando-lhes contornos distintos e
pinceladas alegres e coloridas para que o senhor do banco ao lado
consiga visualizar a cena e invejar uma pontinha. Sonhadoras, discorrem
acerca dos planos traçados para a que agora realizam e para as próximas
que, "assim Deus dê saúde e fortuna", virão a efectuar.
Tenta-se
enganar o cansaço dos membros, que adivinham já a lonjura do destino e
o clima de taciturna introspecção característico dos transportes públicos,
mantendo aceso o tom das conversas. Contam-se casos de pessoas que se
viram pela primeira e última vez numa viagem como a de hoje. Pessoas
que aqui se encontraram e aqui se perderam. Amizades sinceramente
descobertas, mas que se sabem com as horas contadas pelo tempo de um
trajecto quilometrado. E a magia que permanece… E a pena que fica para
a posterioridade e se vai transformando em saudade e numa angustiante
sensação de perda… O eterno e amargo encanto de todos os laços forçados,
pela sua própria natureza, a quebrarem-se cedo de mais.
Como
é ansiado um reencontro!.. Como gostavam de se tornar a ver…nem que só
mais uma vez, nem que só para relembrar o rosto e a voz. Um desejo
crescente e inexprimível de descobrir se a imagem amarelecida que
perdura na arca empoada memória ainda se ajusta à realidade. Não há
dúvida: a nossa vida é um processo contínuo e doloroso de habituação
à saudade. A nossa existência é a da própria saudade, e o nosso
tempo é empregue em tentativas infrutíferas de a ignorar.
Mas
também se encontravam neste autocarro alguns daqueles «viajantes de
profissão», talvez mais resistentes à saudade, que estão habituados
a seguir a pé pelos trilhos de escuteiros e caminhos de peregrinos, com
as tendas a pesarem-lhes nas costas, o corpo afastado da água durante
dias e um rafeiro por única companhia.
Têm
visto um pouco de tudo por este mundo fora, mas isso não os faz
desistir de procurar novos desafios e razões e de se cansarem nas distâncias,
nem lhes apaga o brilho aventureiro do olhar. São eternos caminheiros,
quer por vontade do destino, quer por uma sina de inquietude que lhes
domina os membros.
Coleccionam
pelo corpo recordações de cada paragem, evidenciando-se os cabelos à rastafarian,
as tatuagens no ventre e o anel no dedo mindinho do pé. Do mesmo modo,
as roupas espelham lembranças de outras terras e gentes, como o
testemunham o cheiro a especiarias das túnicas indianas e o halo místico
dos xailes do Perú.
São
capazes de se aguentar dias inteiros na prática da dança do ventre, do
reggae, do flamenco, ou de
outro desses ritmos quentes que alvoroçam a mente e sacodem os ossos até
à exaustão, sem contudo apresentarem quaisquer sinais de rendição.
Aprenderam
truques de faquir, de controlo da respiração e a atravessar
passadeiras de carvão incandescente sem que a sensibilidade se afecte.
Conseguem ainda uma surpreendente fluência em alguns dialectos de África
e da América Latina.
Para
ganhar para o sustento, durante as caminhadas vão elaborando inúmeras
e minuciosas peças de artesanato. E o certo é que possuem não só um
talento inato e fascinante nas mãos bronzeadas mas também a
criatividade necessária para um eficaz aproveitamento de
todo o tipo de materiais.
Eu
saio a meio caminho por assim dizer. A maioria dos passageiros ainda terá
que trocar de transporte várias vezes até à conclusão da viagem. Há
quem considere essas mudanças atribuladas da bagagem de um transporte
para o outro como um dos episódios mais divertidos da arte de bem
viajar!..
Agora
sigo pelas ruas, orientada pelo Sol e pelos sorrisos que se abrem nos
rostos despreocupados dos turistas, eu e eles em visita à cidade-museu
de Portugal. Por todo o lado me cercam idiomas distintos, em frases
exclamativas que soam a diversidade cultural. E pensar que no Inverno é
necessário o andar apressado e as conversas ruidosas dos universitários
para que o silêncio e a calma das ruas se quebre…
Mas
desta feita estou só de passagem. Daqui a poucas horas volto para casa
e, ao gosto da imaginação e das lembranças, vou poder rever os
estudantes ondeando por entre os autocarros, com as malas coloridas
erguidas à cabeça qual varina carregando a sua canastra. O espectáculo
inesquecível das tardes de sexta-feira, em que uma chuva multicolor caía
sobre a estação rodoviária.
São
dezanove horas quando entro no Expresso, presenciando as situações
comuns a estes momentos que também eu vivi: uns vão despedir-se dos
familiares que partem atravancados pela bagagem e pelas últimas
recomendações, outros vêm receber parentes e amigos, aliviando-os do
peso das malas e carregando-os de sorrisos de boas-vindas.
Alguns
são emigrantes que terminaram as férias, aproveitadas numa visita à
terra natal, e regressam agora à sua vida rotineira num país longínquo,
sentindo um peso maior na mala que guarda a nostalgia antecipada do que
naquela onde levam os agasalhos e as especialidades locais.
Escolho
novamente o segundo piso, o que me permite apreciar o crepúsculo:
lentamente apagam-se as sombras das árvores sobre a planície e no céu
fundem-se rasgos nublosos que variam do rosa ao violeta, intercalando
tons de laranja e vermelho num fundo azul turquesa. O declínio
prossegue até que a noite se impõe e a Lua, antes sumida no horizonte,
ganha luz suficiente para banhar os montados que ladeiam a estrada.
Na
rádio tocam "Os Filhos da Nação", "Maio Maduro
Maio" e todo o "Miracles" de Kenny G. enquanto eu atento
vagamente nos faróis dos automóveis que circulam nos dois sentidos da
via. Nesse instante, na escuridão, lembram isqueiros acesos num
concerto ao vivo.
Não
tardo a ser invadida por uma sonolência de que só me liberto por volta
das vinte e uma horas, ao chegar a uma estação sem esperas, numa
cidade que nem sempre considero minha.
Setúbal
- Évora - Setúbal
*O
primeiro título foi "Histórias de ambos os lados do vidro"
Helena
de Sousa Freitas
Final do Verão de 1995
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