Aurora

"É de ouro o primeiro verde da natureza
O matiz mais difícil de conservar.
A primeira folha é como uma flor
Que pouco mais de uma hora vai durar.
Depois, a folha dá o lugar à folha.
Assim se malogrou o Paraíso,
Assim se vai da madrugada ao dia.
Nada do que é d'ouro pode durar:"
(Robert Frost, in "Poemas Completos")

"Calou-se o murmúrio das antigas brisas,
Nem medos de ausências na hora encoberta!
Desenham-se imagens de areia, imprecisas,
sobre os limos verdes da praia deserta!"
("Apontamento" (excerto),
in António de Sousa Freitas "Novamente Aventura")

 

Caminhava pela praia lentamente, sentindo o vento trespassar a malha da blusa e colar-se-lhe à pele arrepiada e os cabelos frisados esvoaçarem turbulentos. Na areia fria e húmida, ligeiramente acima do rebentar das ondas, as marcas dos seus pés iam deixando um rasto ténue.
          Sentou-se por fim e ficou, à claridade do amanhecer, a observar o areal em toda a sua extensão dourada, agradecendo no seu íntimo ao verificar que este ainda não fora vitimado pelo vírus da poluição, devastador de tantos areais dourados como aquele durante o esplendor do Verão.
          Uma bruma matinal cobria as águas, e recortava-se nela a silhueta esguia de um pescador que assobiando recolhia as redes. Os guinchos das gaivotas agitadas que sobrevoavam o barco e aquela perturbante melodia, sua conhecida desde a infância, ecoavam pela vastidão da praia. Nesse preciso momento, uma bola laranja, ardente, despontou preguiçosa no horizonte e, difundindo os seus raios sobre o manto de neblina que principiou a dissipar-se, fez as águas calmas da manhã passarem da prata ao ouro por truques de soberana alquimia.
          Fora um instante sublime, que ela recordaria para sempre, não só por ter coroado um dia de importância decisiva na sua vida, mas também porque dele guardou uma imagem na memória: tratara-se da visão de um quadro, do mais belo quadro que, até então, vira a natureza pintar.
          Reflectia agora, refazendo mentalmente o trajecto que a conduzira ao local onde se encontrava e à situação que vivia.

«Acordara a meio da noite atormentada pelo pressentimento, talvez a sombra de uma necessidade, de que algo ia mudar definitivamente e com fortes repercursões futuras.
          Desistindo de recorrer ao sono para apagar as sensações que a incomodavam, resolvera levantar-se. Não tomara cuidados de maior - ele não ia acordar! Dormia o sono profundo de mais uma conta excedida no número de copos tomado.  Recusava-se a enfrentar a situação: estava de novo desempregado. Era a segunda vez dos últimos 4 meses…
         Não suportava a menor contrariedade que surgisse no trabalho e era incapaz de conter os seus ímpetos ideológicos, que muitas vezes se manifestavam em actos de insubordinação para com os superiores. Deixava-se dominar pelos acessos de revolta, não acatando ordens nem conselhos, e tornando-se tão agressivo na linguagem como violento nos gestos. A sua natureza custara-lhe já três empregos, relativamente estáveis, nos quais a paciência dos patrões não tardara a esgotar-se.
         E o álcool entrava em cena logo de seguida - os problemas e a bebida, a bebida e mais problemas…
         Ainda tinha bem presente a imagem do automóvel, reduzido a uma amálgama de ferros retorcidos, naquela chuvosa  tarde de Dezembro em que as condições do condutor e do piso haviam determinado um aparatoso acidente. Surpreendentemente, ele escapara ileso. Por essa ocasião, ela tentara convencê-lo a procurar ajuda, mas ele recusara-se  a encarar a dimensão dos problemas que, aliás, assegurava não ter.
          Deixando-o destapado sobre a cama, vestira-se no silêncio do quarto, tacteando a roupa com que pretendia enfrentar o fresco da madrugada. Um vulto reflectido no espelho assustara-a e fizera-a recuar: na obscuridade só os contornos se distinguiam. Não era possível reconhecer-se. E foi então que teve a certeza de algo já desconfiado - também psicologicamente há muito que vivia na escuridão. Desistira de tantas coisas por ele… De demasiadas coisas… O que permanecera, afinal, de si própria?
         Já no exterior, percorrera as ruas abrilhantadas pelo luar de Agosto e por anúncios luminosos das casas comerciais fechadas. Os seus passos na calçada antiga da cidade iam ganhando sonância, enquanto pensava no encontro que tinha marcado consigo mesma naquela praia deserta para assistir a um despertar.
         Seguira até ao mar sempre pensativa: ela nascera no campo, por entre pinheiros orvalhados e aromas de fertilidade que a terra acabada de arar exalava, e herdara desses tempos a admiração pela Natureza que alicerçava até hoje os seus ideais ecologistas.
         Possuidora de uma alma poética, que tanto o ambiente bucólico em que se encontrava inserida como o regime opressivo do lar paterno haviam favorecido, sentira um prazer diferente em estar viva quando o conhecera, quando a presença dele a iluminara. Julgara então ter descoberto o seu ambicionado porto de abrigo, o farol que orienta um marinheiro perdido na tempestade. Como tal, não hesitara em idolatrar a sua natureza apaixonada, ignorando a tendência, que ele desde cedo demostrou, para o vício e para o autoritarismo.
         Para poderem ficar juntos, abandonara os estudos e os amigos, mudando de terra e de sonhos sem qualquer sinal de pena. Mas, quando o encanto inicial esbateu a sua aura, surgiram as primeiras questões da vida em comum e, actualmente, as crises haviam-se tornado uma constante.
         Qualquer tentativa de diálogo esbarrava no desalento e no alcoolismo, e tanto o afecto como as ameaças, duas armas que utilizara o melhor que sabia, não surtiam o efeito desejado de lhe mudar os comportamentos.»
          Esquecida nas suas memórias, não se apercebera de como a manhã ia alta… A maré baixara e a areia que as águas tinham abandonado secava já sob o calor do sol, quando notou sem espanto que o chão ficava indistinto, começando a desenhar-se nele círculos pequenos e húmidos. Mas não ia desistir agora! Chegara a hora, por demasiadas vezes adiada, de apostar em si mesma.
          Levantou-se com decisão e segurança, iniciando o caminho de regresso a casa. A mente recém-conquistada por velhos sonhos e o corpo vibrando de  uma energia desconhecida. Na areia que os seus pés calcavam ficava agora, em sulcos fundos, a marca dos passos que dava.

Aurora - Deusa romana encarregada de abrir ao Sol as portas do Este.
(in Mini Enciclopédia Círculo de Leitores)
Aurora - s.f. (do lat. aurora). Claridade que antecede o romper do sol; crepúsculo matutino. || Começo de qualquer coisa. || O princípio de uma época que se reputa boa ou ditosa. || Nome de uma árvore ornamental [da família das Esterculiáceas]. || Planta malvácea, também conhecida por rosa-da-China. || Cor entre o branco e o vermelho.
(in Grande Dicionário da Língua Portuguesa, Tomo I)
 

Helena de Sousa Freitas
Verão de 1995





 

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