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Vida
e Morte de um Resistente
O
velho Lino sentou-se à secretária e leu. Releu e riscou. Escreveu e
tornou a riscar, até a madrugada ir avançada, sentado na secretária
de pinho velho e carunchoso. Tinha de entregar os textos para a 'Voz
Sindical' no dia seguinte, na casa de um camarada na clandestinidade. Um
dos artigos era acerca de queixas de moradores e o outro sobre
despedimentos numa conserveira. Não eram artigos como os de outros
jornais, que se podiam ler na rua à luz do dia. Mas eram, e isso
inspirava-o, artigos a salvo do lápis azul dos censores.
Ainda
não tinha relido pela última vez as peças para o boletim quando duas
pancadas secas se fizeram ouvir na porta de entrada, trancada com um
ferrolho. A filha, que costurava para fora roupa de um enxoval, foi
cautelosamente ver quem era, com o estômago a desfazer-se de nervos...
e voltou com a voz tensa:
-
Meu pai, são eles outra vez.
Lino caminhou até à porta, sem dar
mostras nem de pressa nem de lentidão forçada, nem de ansiedade ou
medo. Abriu o postigo da janela por onde entrou uma rajada fria da
madrugada e ouviu:
-
Senhor Lino, faça o favor de nos acompanhar.
Vestiu
um casaco, despediu-se da filha e olhou para a neta que dormia, antes de
sair a porta sem resistência, acompanhado dos dois homens vestidos de
negro, com chapéus e óculos escuros.
Na
manhã seguinte, a filha deixou a menina com uma vizinha e dirigiu-se à
Investigação, para onde o pai fora levado. Ia entregar-lhe uma manta
axadrezada, para que tivesse as noites mais quentes. Mas a manta só era
útil enquanto não o transferiam para Caxias, onde deixava de ser
necessária porque não havia noite para dormir. Havia apenas uma sucessão
de horas intermináveis debaixo de socos e pontapés, de queimaduras de
cigarro e de roupa arrancada aos sacões. Durante meses a filha não
conseguia saber nada do pai, nem se ainda estava em Caxias ou sequer se
era vivo. Outras vezes deixavam-na visitá-lo. Tudo variava com a
disposição dos agentes.
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Quando
voltava para casa, o velho Lino nada contava. O que se sabia era pelos
outros, que haviam tido a mesma má fortuna de conhecer as celas do
Aljube, de Caxias ou até de Peniche, alguma delas com uns humilhantes
dois por dois metros. Os presos políticos ficavam ali durante dias, com
tempo e sem ter nada para fazer, com as horas a arrastarem-se e sem ter
para onde olhar, com as mãos vagas e sem um livro, um lápis ou uma
folha de papel. Esta tortura pode não parecer muito rigorosa, mas
quando se está preso só o tempo está demasiado livre. E ali a luta
era entre o mínimo de humanidade e o máximo de resistência.
Depois
do regresso, Lino já conhecia a peregrinação que o aguardava: tentar
voltar a conseguir emprego, coisa que ninguém, nem os melhores amigos,
queriam dar a um comunista. A PIDE tinha olho vivo e informadores a cada
esquina e todos sabiam o quanto era arriscado e passível de comparações:
'Com quem te vejo...'
Geralmente
só conseguia alguma coisa nos serviços municipalizados, nos trabalhos
mais duros e mal pagos que todos recusavam mas que eram necessários à
cidade. Por isso, era vê-lo a calcetar o chão com o sol a torrar-lhe
as costas em Agosto, ou a varrer as ruas, vestido com dois casacos,
debaixo de chuva e frio nos piores dias do Inverno.
À
noite, com os músculos derreados e o espírito inflamado voltava para
os escritos e sintonizava na velha telefonia a Rádio Portugal Livre,
que transmitia da Argélia, onde fora criada por portugueses fugidos ao
Regime e à Guerra Colonial. Quando vinha de ânimos mais exaltados,
pedia o gramofone emprestado a um vizinho e ouvia a 'Internacional' ou o
'Hino da Batalha' sob o terror da filha, sempre com um credo nos lábios:
-
Meu pai, olhe que isso se ouve na rua! Ponha mais baixo.
-
Estou na minha casa, faço o que eu quero! - como se as dores da tortura
não fossem de há uma semana, mas de há tantos anos que já as
esquecera.
O
velho Lino, a filha e a neta, de 12 anos, constituíam toda a família...
mas as mulheres da casa nunca haveriam de ser activistas políticas. E
no entanto, existiam mulheres assim, como no Couço, perto de Coruche,
onde a sua força era tal que lhes valeu serem das primeiras a sofrer os
interrogatórios da PIDE.
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Inúmeras
vezes Lino voltou à Investigação e às prisões da polícia estatal.
Nos últimos anos, as suas pernas já não aguentavam as torturas da
'estátua' - que obrigavam a pessoa a ficar de pé durante dias - e as
varizes rebentavam-lhe sob a pressão, soltando caudais de sangue escuro
e deixando feridas nas pernas que levavam meses a cicatrizar.
Mas
lá por isso nunca desistiu de encadernar jornais e panfletos
clandestinos e de os esconder num tecto falso que fizera na capoeira das
galinhas, num canto do quintal, já a contar com o
dia em que a PIDE ia irromper portas adentro para revistar a casa. Também
insistia nas reuniões de camaradas, que entravam a porta carregados de
instrumentos, como quem vai ensaiar partituras para tocar em bailes e
casamentos.
Porém,
junto com as violas, banjos e concertinas vinham papéis sobre
reivindicações do operariado, greves contra os salários irrisórios e
protestos de moradores em cujas casas entrava a 'cheia' de cada vez que
chovia.
Mas
os músicos tocavam a sério - era forçoso manter as aparências.
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A
manhã já ia alta e Lino ainda não se levantara, apesar de ter dito à
filha, na véspera, que ia acordar às seis horas. Eram quase dez e o
silêncio absoluto deixava ouvir uma chuva miudinha, insistente de
encontro à vidraça.
Filha
e neta dirigiram-se ao quarto, bateram, tornaram a bater... e rodaram a
maçaneta devagar. Lino jazia na cama, hirto, com as mãos crispadas e o
mesmo ar feroz e altivo que durante anos o governara.
As
duas mulheres entreolharam-se, comovidas pela força inexplicável que
habitara um corpo tão frágil e gratas pelo justo descanso daquele que
fora, sem dúvida, um grande Homem. Um Homem que lutara, pela liberdade,
uma luta que ajudou à sua morte.
Mas
também um Homem que conseguira resistir durante mais de vinte anos e,
por fim, vir morrer a casa, longe das mãos dos agentes e guardas
prisionais. E isto era algo que, naquela altura, já podia ser
considerado uma grande vitória.
Este
texto é dedicado a todos os que lutaram por Abril,
mas
especialmente a Francisco Lino, o meu rebelde bisavô,
pela fé inabalável que depositou na Liberda
Helena
de Sousa Freitas
Abril de 1999
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