|
Duas
Pinceladas num Quarto de Tela
"Esta
é a história de uma mulher e de um homem que se amaram
plenamente,
salvando-se assim de uma existência vulgar.”
(Isabel
Allende in "De Amor e de
Sombra")
Finalmente
descobrira um local onde o tempo se prolongava esquecido, sem maiores
pressas, pela tarde dentro. Eram poucos os visitantes da galeria naquela
tarde acinzentada de Outubro em que, lá fora, se arrastavam já as
primeiras folhas caídas sobre os ímpetos uivantes da ventania, que
fazia mover os raios de luz e desviava até a rota original das aves.
No
entanto, ali dentro, mesmo protegida dos desalvoros do vento e da
infinita melancolia do céu, continuava com uma disposição solitária,
adequada à fria palidez e ao silêncio monacal dos corredores, apenas
coloridos e quentes nas diversas manifestações de arte que ao longo
deles marcavam presença.
Devagar
ia olhando todos os quadros, com uma expressão vaga que os menos
atentos poderiam facilmente confundir com desinteresse. Subitamente
estacou, incapaz de um próximo passo, com o olhar fixo e penetrante
numa tela que, estando segura de nunca ter visto antes, juraria conhecer
desde a nascença. Sentiu-se de imediato vencida pelo magnetismo
impreciso da obra e deixou-se conduzir aos seus pormenores mais velados,
em sagrados momentos onde a celebração da vida se lhe revelou,
transmitindo-lhe uma imensa sabedoria.
«Entra.
Sente-se quase invisível, possuidora da figura evanescente dos espíritos,
mas, como não tem a certeza dessa imaterialidade, esforça-se para que
o soalho não lhe estale debaixo dos pés.
O
quarto é mediano e simples, quase pobre. Tem por única mobília uma
antiga cama de pinho e uma mesa de cabeceira vencida pela idade, sobre a
qual descansa um candeeiro a petróleo, de vidro embaciado e chama
vacilante. Frente à cama os vidros de uma pequena janela, cujos
caixilhos denunciam a passagem dos anos, evidenciam contornos do
exterior. Adivinha-se através deles a quietude bravia do lugar, o
cheiro ácido da terra e a própria dormência da Natureza.
A
luminosidade dentro do quarto é a suficiente, realçando-se o brilho da
chama à medida que se aprofunda o entardecer. Tem-se uma imediata sensação
do peso do ambiente, pois a sensualidade ali contida não parece
soltar-se apenas dos dois corpos saciados que repousam na desordem dos
lençóis. A sensualidade está presente sob todas as formas possíveis,
desprendendo-se do mobiliário, da tinta das paredes e do negrume do
tecto.
A
noite, feiticeira, traz vida àquela imagem e impregna o ar com
invulgares cintilações de poesia que ajudam a desanuviar a tensão
ambiente. Afinal, não estão adormecidos: tocam-se, desencadeando os
primeiros movimentos do ritual amoroso. As mãos, deslizando, vão
quebrar-se como ondas no seio sereno e os lábios, queimando, decoram a
fina textura da pele.
Ao
mesmo ritmo, com a mesma cadência, os corpos desprendem-se da penumbra:
já não são meros vultos escuros de perfil indistinto como sombras
chinesas recortadas na parede à contraluz. São dois corpos seguros e
ardentes, que se elevam do leito mantendo-se flutuantes a escassos centímetros
da colcha de linho amarrotada que desce pela cama até roçar no chão.
Parecem quase desmaterializar-se, perder a forma, dissolvidos numa
poalha de reflexos.
Deslizam
na fluidez do espaço e na lentidão do tempo, que são ali autênticos,
que se deleitam até ao êxtase, imitando o prazer dos dois seres que
estão incumbidos de velar. Dois seres que vivem intensamente o prodígio
de se descobrirem um no outro, de se envolverem uma vez mais em mútuo
conhecimento, sempre deslumbrados pelo repetir da revelação. Se têm
pensamentos nesse instante, estes são por certo incapazes de caber no
tempo e no entendimento da civilização. Nota-se em ambos uma espécie
de ligação livre de atalhos e fronteiras interiores entre o corpo e a
mente. Um é, em permanência, o guardião do outro e, mesmo a dormir,
vigiam-se mutuamente através de sonhos.
Encontraram
um desses raros amores, construído com demora, que parece já ter
resistido a distâncias e guerras e vencido monotonias e desilusões.
Partilham-se numa relação superior, desenvolvida e dominada por silêncios
e intuições e, permanecendo unidos do mesmo lado da sensibilidade,
consumam o seu amor longamente, como uma chama que pode durar até um
tempo que a Humanidade não conhece.
Aprenderam
a amar-se serenamente, cada um a tocar a pele do outro, descobrindo os
seus segredos e o desejo de cada fibra. Muitas vezes conseguem mesmo
situar-se longe da realidade, que as horas suspensas naquele local
ajudam a apagar ou que a imaginação ilude.
Tinham
deste modo alcançado uma plenitude que permitia a qualquer um dos dois
a libertação através dos gestos do outro, ambos se lendo e se
despindo na delicadeza de um olhar.
-
Encontram-se momentos sagrados quando entramos num mundo de
conhecimentos de tom tão secreto - pensa com assombro, ali estagnada no
calor, enquanto percepciona tudo com nitidez e embaraço, numa quase
transparência. Por instantes, a sua própria sensibilidade
impressionada esquece que a fusão total e perfeita de duas pessoas mais
não é do que uma utopia romântica. E, no entanto, não lhe é possível
saber algo de mais simples, de menos profundo: a simplicidade, o óbvio,
parecem estranhamente não corresponder às partes tangíveis daquele
amor. Só ao complexo lhe é cedido o acesso.
Não
sabe se os dois seres estão naquele quarto pela primeira vez ou
encarcerados pelos anos. Desconhece qual a razão por que não se escuta
ali um só som: nem dos estalidos secos da madeira da cama, nem do suave
toque dos lençóis, nem da voz sussurante
dos amantes. Dir-se-ia que os sons ali não se propagam, que a cena
decorre num vácuo ou para lá das vulgares barreiras espácio-temporais.
Acalmia.
Agora encontram-se já em sossego, cada um enfrentando a sua momentânea
solidão. Estão invadidos por uma paz de recém-nascido, e possuem um brilho raro na nudez semeada por gotículas de
transpiração. Deixam-se contemplar: ele de rosto largo, bem demarcado
e tronco endurecido, trabalhado com arte; ela, de cabelos agrestes,
olhar de silenciosa atenção e pele dourada, com um ardor de sal. São
belos, são incrivelmente belos porque são autênticos nas suas expressões
imperfeitas, o que lhes imprime contornos de misteriosos animais
selvagens. Por entre sorrisos trocam olhares onde a mansidão dos prados
nos olhos dele suaviza a terra ardente dos dela. O aroma adocicado, intrínseco
aos dois, lembra o da tinta fresca, do verniz da moldura e do tecido da
tela, associado ao extravagante cheiro a luxúria dos quartos de pensão.
Quando
só um dos dois amantes ali estiver, vai certamente sentir o corpo
ancorado ao leito e a alma encolhida no espaço que a ausência do outro
deixou vazio. Sempre que tal sucedia, ela procurava-o com desespero em
cada recanto de si mesma e ele agia de igual modo, embora nunca o
tivesse confessado, pois o assunto era parte integrante da sua natureza
enigmática. No entanto, ela soube-o, tal como sabe toda a verdade sobre
ele agora: nunca um homem é tão transparente, frágil e vulnerável
como quando repousa ao nosso lado na sua completa nudez.
Inicialmente,
essa falta deixava-lhes a existência sem rumo possível, mas a experiência
levou-os a descobrir um mundo de invisibilidade onde podiam orientar-se
como entidades transcendentes. Aprenderam a guiar-se pelo ardor impalpável
do desejo, que se recusava a desimpregnar a pele atormentada e invadia a
candura dos lençóis, transformando, em cada ausência, a cama numa
prisão.
Só
um tinha então autoridade para entrar nos sonhos do outro, despindo-se
na sua noite, vindo da penumbra do quarto, das fragrâcias da distância
e da dor do silêncio. Enquanto isso, sucediam-se sonhos tão intensos
que por pouco não incendiavam os lençóis, transformando a cama de
madeira exausta numa pira dantesca. E durante todo o dia essas lembranças
permaneciam como sombras na face da memória, ameaçando persistir para
vidas posteriores.
-
Esta é a milésima segunda noite de encantar, aquela que Scherazade
nunca chegou a criar durante a sua longa odisseia de contista virgem -
pensou quase alto, numa tentativa de sobreviver ao seu próprio espanto.
Na sequência destes pensamentos, uma total imobilidade regressou à
cena e ela sentiu a leveza nascer-lhe nos pés, possibilitando-lhe de
novo o caminhar, e a capacidade de decisão ser-lhe restituída: já
podia optar por sair livremente da tela e, contudo, hesitava em fazê-lo…
a energia tinha-se-lhe esvaído…»
Por
fim, despertou das brumas e abandonou a tela ao seu erótico perfume.
Sentia os membros pesados e dormentes e a vista inadaptada à
intensidade da luz.
Ainda
se ficou a contemplar o quadro, demoradamente, mas não se despediu
porque isso lhe era impossível. Nunca o veio a adquirir pois soube
desde logo que as suas paredes, tal como as daquela galeria, não eram
suficientemente amplas para a mensagem que, num envolvente e delicioso
secretismo, o autor tencionava transmitir. A tela devia ser pertença
exclusiva da Natureza, ou de alguma outra entidade igualmente grandiosa
e indomável.
Além
disso, temia demasiado que àqueles dois corpos, construídos em duas
simples pinceladas rosa, ocorresse em alguma ocasião o cansaço do seu
quarto encolhido na tela e se resolvessem a escapar dos limites da
moldura. Então, seriam livres para lhe povoar os sonhos de
arrebatamento, a perseguir na noite imensa e lhe transformar em fogo os
alvos lençóis e a amarrotada colcha de linho que, nos momentos de
maior desordem, pende cama abaixo até roçar no chão!…
Helena
de Sousa Freitas
Verão de 1995
|
|