ARLETE MOREIRA DOS REIS

Arlete Moreira dos Reis, foi uma menina sonhadora.Tudo para ela foi muito difícil. De família humilde, o pai cearense e a mãe operária do Moinho Inglês, ela achava que embaixo da enorme pedreira, que era o fundo do quintal de sua casa, havia pessoas conversando, tocando, e colocava o ouvido na  pedra para ouvi-las todos os dias. Era sua imaginação. Não tinha muito com o que brincar e para ela e o irmão conjecturar o que os habitantes subterrâneos estavam fazendo era a maior distração e também o segredo dos dois.

Foi para uma escola administrada por americanos. O Instituto Central do Povo, na Gamboa. Ali recebia todas as informações necessárias a uma boa  formação. Logo, Arlete estava enturmada: era segunda voz no coro da igreja,  fazia teatro, recitava poesias, jogava no primeiro time de vôlei da escola às tardes de toda quarta-feira, era convidada pelo superintendente da escola  e sua esposa a ir até a casa deles comer um delicioso "pie"(torta). 

Alimentava um sonho.Estudar muito, formar-se em Medicina, comprar uma casa confortável para seus pais e um carro para levá-los a passear.  Mas, a realidade de Arlete era outra. Muito pobre, precisava ajudar seus pais. Não podia estudar Medicina, era tempo integral. Não poderia trabalhar. Guardou o sonho. Após completar o ginásio, maior orgulho de seus pais. Naquela época quem tinha o ginásio era considerado doutor, no bairro pobre da saúde. Quase ninguém estudava. O número de analfabetos era enorme. Como no filme Central do Brasil, Arlete lia as cartas chegadas para a vizinhança e as respondia.

Embora jovem, era como uma líder no lugar. Todos gostavam de participar a  ela as dificuldades que sempre eram em maior número do que as alegrias. Assim, fez o curso de datilografia e, concluindo, foi em busca de emprego como datilógrafa. Não tinha experiência, embora fosse exímia. Aceitou  trabalhar sem nenhuma remuneração, por 90 dias, em uma Agência de Emprego com a promessa de colocação no mercado. Aconteceu, realmente. Toda feliz  começou a trabalhar na editora LIVROLUZ.  Ao receber seu primeiro salário, entregou a seu pai para ajudar nas despesas. Assim, todos os meses, era o mesmo ritual. Não tirava um tostão, sequer. Seu pai lhe dava o quanto precisava para a passagem. Almoço? levava marmita. Era muito feliz. Sua mãe comprou uma geladeira e um ventilador. A família estava orgulhosa da filha.

Arlete achou que podia melhorar estudando um pouco mais. Quis fazer o curso de estenografia. À noite, disse-lhe o pai: nem pensar. Moça que estuda à noite quer é namorar. Nada disso!  Arlete nunca desistiu de um ideal.  Foi até o Centro Taquigráfico Brasileiro, contou das dificuldades em estudar à noite e sugeriu ao diretor criar o turno da tarde para proporcionar às pessoas que trabalhassem poder estudar. O diretor disse-lhe que ia pensar mas, dependia do número de alunos. Arlete prometeu divulgar. Duas semanas depois, lá volta Arlete com uma lista de dez pessoas para estudar taquigrafia na hora do almoço. Naquele tempo eram duas horas de almoço.  Dava de sobra. O diretor, todo feliz, disse-lhe que voltasse no final do mês que já teria a data certa para início do curso na hora do almoço. E assim, ela  concluiu mais uma etapa. Depois fez o curso de Secretária Executiva que durou dois anos. Agora sim, poderia receber um salário melhor. Aos domingos lia o Jornal do Brasil e de lá recortou uma anúncio. Depois de dois dias de testes, concorrendo com dez candidatas, foi a escolhida. Iria secretaria um rotariano, de setenta anos, aproximadamente, presidente da Câmera do Comércio Brasil-Uruguai. Muito aprendeu com ele. Era austero, inteligente e muito justo. Não havia ainda a lei que obrigava aos empresários pagar o 13º salário a seus funcionários. No final do ano, esse Empresário dava a cada funcionário um envelope contendo uma boa quantia para que fizesse o seu Natal com a família e agradecia a cada um pela colaboração prestada à  empresa durante aquele ano. Arlete o admirava muito e com ele muito aprendeu.Nos fins de semana, dava aulas para os meninos da vizinhança e alfabetizou muitos deles. O gosto pelo ensino tocou seu coração. Outro sonho, ser professora. 

Acontece que cupido flechou seu coração e o moço era marinheiro. Foi uma luta para sair esse casamento. O pai não aceitava que Arlete escolhesse para se casar, justamente um rapaz pobre como eles. Iria ter as mesmas dificuldades que sempre tiveram. O moço estava estudando, ele iria ser promovido, mas o pai não arredava pé. Foram seis anos de muitas angústias, por um lado, amava seu pai, por outro, amava o moço. O que fazer?. Conversou com seu pai, disse-lhe que o amor tudo constrói. A vontade de vencer aliada ao amor vencerá qualquer barreira. O pai aceitou, não aceitando, mas, no dia do casamento, ele não compareceu para levar Arlete ao altar.  Foi emocionante a cerimônia, sua mãe e irmão subiram com ela.
Estava radiante com seu véu e sua grinalda e seus olhos ressaltavam sua virgindade.  Depois de algum tempo, seu pai compreendeu o quanto digno era seu genro e o aceitou, finalmente. 

O tempo passou, Arlete perdeu seu primeiro filho na hora do parto por erro médico. Era uma criança de quatro quilos e cinqüenta  e quatro centímetros. Tentou-se o fórceps para depois se fazer uma cesariana de emergência. Ela ficou entre a vida e a morte, não viu seu filho, que nasceu na quinta e morreu no sábado com afundamento do crânio. Foi muito duro, mas ela não se revoltou. Agradeceu a Deus por ter continuado a viver após ter médico na cabeceira por trinta dias. Dr. Waldemar Dutra, que nada cobrou a família para lhe dar assistência. A viu nascer e lamentou muito o ocorrido. Depois de algum tempo, Arlete ficou grávida novamente. Sua mãe, apavorada, queria que ela abortasse o bebê. Na família, todos tiveram seus filhos em casa e a parteira era Dna. Carolina, a avó de Arlete. Temiam que dessa vez acontecesse tudo de novo.  Mas, Arlete, confiante em Deus e na Graça que recebeu de engravidar novamente, estava muito feliz e recusou-se a abortar. Chegou a hora e lá foi ela para um hospital particular. Tudo transcorreu às mil maravilhas, equipe atenciosa, bebê saudável.  O tempo correu. Após 7 anos, chegou outro bebê, uma menina. Agora tinha um casal. Terceira cesariana, era hora de encerrar a fabricação. Arlete ensinou aos filhos a cozinhar, limpar e arrumar a casa e ter responsabilidades, como cuidar dos avós quando chegaram a velhice. Os preparou para a vida. Quando estavam com 13 e  6 anos, resolveu revirar as cinzas de seus sonhos. 

Num sopro a brasa reascendeu e lá foi ela  preparar-se para enfrentar o Vestibular. Faria Letras. Trabalhando, estudando, cuidando da família e agora de seus pais, conseguiu ser aprovada em sua segunda opção. Ingressou na Universidade, ficou um pouco decepcionada com tudo que viu. Alunos despreparados, professores sem vocação. Na aula inaugural, o professor catedrático fez uma palestra que mexeu com os sentimentos de Arlete. Ela não pôde deixar de escrever-lhe um longo texto, dizendo-lhe quanto a emocionou. Ficaram amigos. O professor ficava orgulhoso da aluna que o perseguia pelo corredores da Universidade para tirar dúvidas, para perguntar-lhe sobre a matéria, quando a totalidade dos alunos passavam de longe e nem o cumprimentavam. Até hoje Arlete se corresponde com o mestre e fez para  ele uma poesia que o deixou emocionado. Lecionou durante oito anos. Compreendeu que a educação no país era um comércio e não um meio para elevar o povo a melhores patamares. 

Desiludiu-se tanto que resolveu abandonar o magistério e estudar Direito. Iria ajudar a tantas pessoas carentes que necessitam de justiça neste país e não conseguem ver seus direitos respeitados. Com a ajuda do marido que a esperava todas as noites quando chegava quase à meia-noite em casa, formou-se. Os colegas a convidaram para oradora da turma e a fazer o juramento. Foi emocionante. O orgulho de seus pais já bem velhinhos era grande.  Doentes, Arlete os trouxe para casa e cuidou deles até à morte, com a ajuda dos filhos, preparados desde a infância para cuidar dos avós quando doentes e necessitados de ajuda. Ela também fez o curso de primeiros socorros para quando fosse preciso, assistir melhor a seus pais.  Assim era Arlete que lhes aplicava injeção, fazia curativos, etc. etc.  Nesta luta, nunca deixou de trabalhar. 

Pela vida afora, sempre retratou suas angústias e alegrias, e a dos amigos que a faziam de confidente. Os presenteava com poesias que retratavam os problemas que compartilhavam com ela.  Tinha o sonho de editar um livro com suas poesias. Mas, o fator econômico prejudicava. A maior alegria da Arlete é ver alguém sofrido,  desamparado, sorrir de alegria por sentir-se gente, por alguns momentos, já que é tão marginalizado e desprezado pela sociedade.   

Um dia, o filho mais velho chegou com a novidade. O presente de Natal que daria a mãe seria pagar para ela o valor do custo para a edição do seu primeiro livro de  poesias. Arlete sentiu-se como criança que ganha o primeiro brinquedo. Alegre demais deu Graças a Deus, não morrerá sem ver realizado este sonho. Foi uma festa, o livro foi lançado no Clube Militar, no Rio de Janeiro, num dia chuvoso e frio, mas lá compareceram 64 amigos para prestigiá-la.  Arlete é sensível à  pobreza deste país tão rico com o povo paupérrimo, adora a natureza e não entende como o homem a destrói sem pensar como está destruindo a si mesmo. Por outro lado, nosso Brasil imenso cobiçado pelos estrangeiros, nossa Amazônia sendo internacionalizada e os dirigentes fazendo de conta que nada está acontecendo. 

Continuo sonhando em ver um Brasil sem fome, sem analfabetos, com suas riquezas preservadas, seus velhos e índios respeitados. Peço a Deus que não seja uma utopia.

        

Alguns trabalhos de Arlete Moreira dos Reis

MEU VELHO PAI - Homenagem Póstuma

SONHO DE UM BRASILEIRO

REFLEXÕES

AMIGOS

AMAZÔNIA







  MEU VELHO PAI
Homenagem Póstuma 

Quantas histórias bonitas, toda noite me contavas 
As adivinhações que fazias, minha infância alegravam, 
E juntos nos divertíamos, cada vez que eu as errava. 
O tempo passou depressa, a maturidade chegou, 
Os valores que me ensinaste, se enraizaram, 
E tenho certeza papai, de mim, te orgulhaste.   
Aos noventa anos partiste, quanta saudade deixaste 
no coração desta filha que te amou e se orgulhou 
do nordestino que foste, lutador, bravo guerreiro. 
Quando no Rio chegaste, para os políticos trabalhaste 
acreditando em condições de uma vida melhor, 
Mas logo compreendeste, eram promessas só.   
A cegueira chegou, não te deixaste abater,  
Mantiveste o humor e o sorriso também, 
Dando lição de vida a todos ao teu redor. 
Não te revoltaste com mais essa provação, 
mantendo sempre a fé em tuas orações.   
A muita gente ajudaste, eras querido sim, 
É que as pessoas esquecem de quem as serviram. 
Deus no seu reinado, tenho certeza papai, 
Reservou um lugarzinho todo especial 
para o Luiz cearense, lá de cima abençoar, 
seus filhos e netos, ajudando-os a arrancar 
Os espinhos desta vida, até nos encontrar.    





SONHO DE UM BRASILEIRO
                                     

Se asas Deus me desse, com o vento voaria
e visitaria cada chão deste Brasil.
De volta , eu gostaria de poder contar
a todos os brasileiros o que vi por lá.

O Nordeste verdejante, há água por todo canto,
o sertanejo colhendo, o gado bem gordinho,
as crianças só estudando, o velho feliz sorrindo,
recebendo só carinho dos filhos e dos vizinhos.  

Já não se morre à mingua, há hospitais equipados,
Médicos bem  responsáveis, enfermeiros tão gentis,
bem cuidando dos enfermos e querendo dar a eles
força pra recuperarem a saúde que perderam.  

Os índios em suas terras, vivendo do seu roçado,
amparados pelas autoridades que a malária erradicaram.
As riquezas da Amazônia, dádiva da natureza,
estão sendo preservadas, já não tem árvores cortadas,
sua fauna é estudada para o bem estar nacional.

A Justiça, cega mesmo, acabou o jeitinho.
O respeito, a disciplina, a todos envolvendo.
As leis deste país, todas sendo cumpridas.
Não importa negro, branco, pobre, rico ou princesa,
todos são iguais como reza a carta magna.

Nos colégios muita paz, só estudos,brincadeiras.
Os políticos trabalhando para o Brasil progredir.
Os trabalhadores, todos estão empregados.
O Brasil não deve nada ao FMI estrangeiro
E todo povo se orgulha de ser Brasileiro.








REFLEXÕES
                              

A vida em Itaipu,no meu cantinho gostoso,
refúgio de minhas mágoas e lembranças tão queridas,
onde a cantiga dos pássaros me faz feliz acordar,
me leva a refletir sobre a arte de amar.

A natureza dá ao homem tudo que ele precisa
pra viver,criar os filhos,ser feliz com a família.
Ele é incapaz de amar, mais ainda de entendê-la.
Desmata sem precisar, põe fogo em tudo que vê,
mata os animais, destrói os vegetais,
enche de lixo o lugar que abriga o seu lar,
joga nos rios toda sorte de detritos,
fere o ecossistema, muda o clima do universo,
torna difícil a vida pelas suas próprias mãos,
e quando a natureza ferida lhe causa destruição,
chora, se desespera,sem entender a razão.  







AMIGOS
                           

A riqueza deste mundo
Não é só dinheiro não.
Muitos com tanto dinheiro
Sofrem de solidão.
Sou alegre e feliz,
Cultivo a amizade.
Tenho amigos sinceros
Que me querem de verdade.
Ricos seremos todos
Se buscarmos com ardor
As dádivas desta vida:
Saúde, paz e amor.




AMAZÔNIA

És a menina dos olhos
De todos os estrangeiros
Tens riquezas que interessam
À grandes e ricas nações.
Dizem, que do mundo és o pulmão
E o Brasil tão privilegiado
Nunca te deu atenção.

Hoje estou muito triste
Vão te internacionalizar.
Dizem que és da humanidade,
É mais uma farsa, deixa pra lá.
Com o meu grito poético
Vou tentar te ajudar.
Governantes e governados
Vamos juntos protestar.  

Acorda Brasil, acorda!
Já chega de exploração.
Nossas madeiras levadas,
Nossa fauna dilapidada,
A Amazônia é nossa
Não à internacionalização!!

 
   

 

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Editoração
Irene Serra
irene@riototal.com.br