Francisco Simões


Alguns  poemas

   

 


   









MUITOS ANOS DEPOIS

Pouco me importa o que teci, o que perdi,
As lágrimas, as saudades, os desencantos,
Tantos disfarces, infernos, tantos véus,
E quantos céus que eu rejeitei, e quantos.

Pouco me importa agora esse tempo
Que traçou rugas, desenhando o envelhecer,
É o mesmo tempo que hoje pára e escuta
O que a vida sempre me ouviu dizer:
Eu te amo.

 



   


   
   


A MANHÃ SEGUINTE

Por isso hoje
A alvorada despertou no silêncio
E a Natureza não abriu suas asas.
Por isso hoje
Havia um tom cinza de outono
No verão da manhã entardecida.
Por isso hoje
Havia apenas sombra na alma do mundo
E uma ânsia de passado no tempo que seguia.
Por isso hoje
Na nossa solidão cresceram espinhos
E as rosas foram todas para o céu.
Por isso hoje
Um suspiro soluçava numa lágrima
E o amor dividia o coração com a saudade.
Por isso hoje
A vida antiga, o efêmero, te perdeu
E o espaço sempiterno é agora tua vereda.
Por isso hoje
Tu és uma lembrança, muito mais que um retrato,
Uma dor que não machuca
Mas nos acorda pra orfandade,
Um sorriso etéreo que não abandona,
Que abençoa, compreende e ainda perdoa,
Uma essência de vida unitiva
Comungando com a Eternidade,
A luz que acenderá nossas trevas
Sempre que a ilusão apontar nosso caminho,
A nostalgia tão presente nos detalhes,
A ausência que esvazia nosso amanhã.
Por isso hoje
O orvalho amanheceu salgado,
É que ontem, a noite chorou.
Por isso hoje
Também estou com essa vontade de chorar
Mas recordo que tu nunca foste triste
E que se ainda existe neste corpo cansado e vivo
Colheita de amor, ternura, solidariedade,
Tolerância, indulgência, perseverança
Foste tu que semeaste.
Por isso hoje
Apenas vou lembrar teu rosto, agora eterno,
E se teu sorriso para nós virou saudade
Tua bondade de fada, madrinha, teu Dom materno
Sempre estarão em cada um de nós que tanto amaste.






   

VÔO DE PAPEL

Solta a tua alegria
Feliz e vadia no ar,
Faz flutuar no espaço,
Rompendo o mormaço
Com teu braço gigante
De linha ou barbante
Tua asa, teu céu,
Teu vôo de papel.
Rege com as mãos o bailado
Aéreo dançado,
Teus sonhos cruzando
Com sonhos rivais,
Buscando tais quais
A mesma vitória
E ter uma história
Para depois contar.
Guarda na tua alegria
Feliz e vadia, menino,
Teus sonhos bem pequeninos
Para poderes crescer e sonhar.
Nas tantas batalhas perdidas,
Nas muitas linhas partidas
Foge sempre um pouco da gente.
Estes sonhos não vão voltar.

             ( Fevereiro/1996)











 

TANTOS MUROS


Quando fez dez anos que derrubaram
O muro que dividia o mundo,
Um mundo antes repartido
Por interesses desiguais,
Tantos e tantos comemoraram
Pois o "muro da vergonha"
Agora não existiria mais.
E então não existe mais vergonha?
Enfim aprenderam a repartir as flores?
O sorriso já não morre nas crianças?
O sangue corre apenas pelas veias?
Já extraíram da política a peçonha?
Nunca mais replantaram velhas dores?
A certeza já caminha com a esperança?
O mar não é mais de lágrimas para as baleias?
Nem a noite, hoje, espalha mais o medo?
Os oceanos não se encontram mais doentes?
A paz agora cresce junto com o homem?
O perdão já entendeu que é sempre cedo?
O mundo já se uniu num continente?
Só o passado conta histórias de fome?
As manhãs se repetem iluminadas? Para todos?
O espinho já não inveja o beija-flor?
A derradeira vítima já foi sepultada?
O carinho já desfez toda tortura? Para sempre?
O preconceito já aprendeu o que é o amor?
Os soldados hoje só usam enxadas? Todos?
Já baixou a neblina das ditaduras? Todas?
E então?
E tantos comemoraram
A queda de um muro a mais,
Mas tantos nem se lembraram
Que dividindo este mundo
Ainda há tantos muros iguais.

( Dezembro/1999)




 

   

O SAPO E O POETA

 

Alguns gordos e felizes sapos
Ainda batem longos, longos papos
Nos seus lodosos e felizes charcos
Marcos dessa civilização
Que imuna a emoção,
Que desumana o convívio.
Tanto canto de sereia,
Uma filáucia que se ateia
Nas tribos, nos saraus, à mesa,
Uma bazófia burguesa,
Burgomestres emproados,
Sabujos entronisados.
Estamos ficando enfermos
Qual um roseiral apétalo,
Qual noite que esqueceu o orvalho,
Órfãos pensamentos, acéfalos,
Na ventura de virtual sermos
Se virosos não tombarmos falhos.
Estamos deixando poluir-se o amor,
Esvaziar-se a ânsia do sonho impossível,
Grassar a epidemia do torpor,
Arder a brenha, esfumar as estrelas,
Sobejar o medo, desalentar a paz,
Fugir a vida ao escondê-la.
Enquanto isso ainda há gordos sapos
Que batem longos, longos papos,
Que têm a noite, as estrelas, o tempo de amar
Na cumplicidade do silêncio e do luar.
Oh! Trevas, Oh! Bruxas, alerta:
Transformem em sapo este poeta.

Autor : Francisco Simões
Em : Agosto / 2000



         


            

            

          

 

MEIA-NOITE


Meia-noite, meia-lua,
Meio tom, meia verdade,
Meia paz pela cidade,
Meio trânsito na rua.
Passos meio hesitantes,
Braços meio picados,
Copos meio bebidos,
Corpos meio tombados.
Meio cigarro apagado,
Meio jornal esquecido,
Meia luz e dois amantes,
Meio-fio, dois assaltantes.
Um calor meio atrevido,
Uma janela meio aberta,
Um corpo meio despido
E uns olhos meio alertas.
Meia-noite, meia hora,
Meia lua, meia volta,
Meio mundo dorme agora,
Meia polícia na escolta.
O morro meio às escuras,
A vida meio assustada,
Silêncio, meio amargura,
Uma paz meio acuada.
Meio banco faz um leito,
Meio jornal, cobertor,
Meio olhar é preconceito,
Meia ajuda é pouco amor.
Tiroteio, meia-paz rompida,
A escuridão meio riscada,
É uma bala inteira perdida
E uma vida inteira apagada.
Meia-noite, meia lua,
Meia rua vermelho manchada.

Autor : Francisco Simões
Em : Maio / 1995
Este poema foi 2º lugar no concurso da Fundação Cultural de Foz do Iguaçu( outº / 2000)  e  a "Melhor Poesia-Crônica" no 4º  Expressão da Alma, no Rio, final no Teatro Café Arena, em Copacabana. 



              

                  



SORRISO BRASILEIRO

 

É salgado o gosto deste solo agreste
Pelo pranto da seca, da fome e da peste.
É doce o sabor deste asfalto tão quente
Ao molho de sangue, de violência inclemente.
É triste o olhar da infância-ameaça
Fugindo da vida, do medo e da caça.
É trêmula a mão do idoso que aguarda
A consulta, o salário e a esperança roubada.
É preconceituoso todo olhar que ignora
Feridas expostas e a indigência que implora.
É covarde toda força que age escoltada
Tirando a vida de quem não tem mais nada.
É falsa a democracia que a poucos banqueteia
E destina à maioria as sobras da ceia.
É muita comissão para tão pouco inquérito
E parcos resultados a merecer tanto mérito.
É lama, é brejo, é areia movediça
Engolindo a verdade, a honra, a justiça.
É avalanche que arrasta, oprime e apequena,
E a sociedade? – De costas para a cena.
É bonito, saudável, feliz, que imagem
O sorrir do poder e da politicagem.
É sem teto, saúde, comida ou brejeiro
O olhar que se esconde no sorrir brasileiro.

Autor: Francisco Simões
Em : Março / 2000.
(Este poema foi selecionado junto com outros 59, em Londres – Inglaterra, e integra a Coletânea Internacional de Poesia e um
áudio-CD do "Cantinho do Poeta"- Participaram da seleção 498 poesias de vários países, em nov. / 2000. Ficou também entre os 20 melhores na 6ªedição do Expressão da Alma, no Rio, em junho/2000.)
        


           

 
             

             

Esta página é parte integrante da Revista Rio Total

 

Direção
Irene Serra
irene@riototal.com.br