Francisco Simões

Outros Novos Poemas

     





ÀS POMBAS



Pombas, pombas, pombas,
Fujam da Paz,
Da Paz que faz bombas,
Das bombas dos homens
Que defendem a Paz.
Fujam para a vida,
Escapem da bala,
Do tiro que cala
E da asa partida.
Fujam da cruz,
Da traição, do suplício,
Do tormento e sacrifício,
Que vive a se repetir.
Fujam do rugir
Do monstro, da besta,
Do homem que pretexta
Seus atos de destruir.
Fujam do siso
Que assassina a loucura
Na cura pelo juízo
Que vence, cresce e tortura.
Fujam do sábio
E de suas tolices,
Tentem ler nos seus lábios
O que ele não disse.
Fujam do culto,
Do mito, da idolatria,
Pois toda mente vazia
É a morada do inculto.
Fujam do sonho
Que não puderem tê-lo,
Pois o pior pesadelo
É acordar desse sonho.
Fujam da cabala
Que trama pelo poder
E do tolo que fala
Somente para obedecer.
Fujam do silêncio
Que a verdade atrofia
E que não denuncia
Porque é conivente.

Fujam do ardente
Discurso político
Que no mote é eloqüente
E na ação é paralítico.
Fujam do bem,
Da bem-aventurança,
Que nos planta esperança
Para colhermos só no além.
Fujam do pó,
Da poeira que nos cega,
Que violenta e desagrega
E na ilusão deixa só.
Fujam da rosa
Sem perfume, venenosa,
Hoje ainda mais poderosa,
A “Rosa de Hiroshima”.
Fujam da rima
Dos meus versos de utopia
Por uma vida que um dia
Não torture, não oprima.
Fujam das sombras
De um grande sol virtual
Quando a vida real
Sucumbir ante as bombas.
Pombas, pombas, pombas,
Fujam enfim
Desta visão tão escura,
Da consciente loucura,
Pombas, fujam de mim.

(Junho/1999)




 



LEMBRANÇAS DO POETA


Recordas do vulcão
Que em permanente erupção
Jorrava suas lavas
Aquecendo tuas entranhas
Enquanto ardias, deliravas
Numa fúria louca de amor
Injetada em tua sanha
E na manha de mulher-flor
Que se abria e despetalava
E se rendia em torpor?

Recordas do alpinista
Que tua epiderme escalava,
Que ascendia e que descia
Na sinuosidade do teu corpo
E em teus pêlos se embrenhava,
Se encontrava, se perdia,
Deslizava em teus sulcos
E inflamada escorrias
Liquefazendo teu desejo
Que um beijo consagrava?

Recordas do leão
Que te jazia no chão
Em total dorsal decúbito
E que irrompia súbito
Teus caminhos mais secretos
Entre os desertos de tuas nalgas
E tu, domada e domadora,
Sugavas-me até a última semente
E ardentes sucumbíamos ao cansaço
Estirados no mormaço do prazer?

Hoje te resta este poeta,
Um leão envelhecido mas desperto,
Um alpinista que por certo já se cansa
Mas ainda alcança o prazer, teu absinto,
Um vulcão adormecido, não extinto,
Um homem apaixonado, enleado
No viver e nas lembranças,
Paladino das andanças do coração.


(Janeiro / 2001)





PARA TI


A vida que me passou rasteira
Foi também a primeira
A chorar junto comigo
E a me oferecer abrigo
Pra mitigar minha dor.
Enquanto me sufocava em desencanto
A vida lançou-me um manto
De esperança, de paz e de amor.
Redimiu-se do sofrimento, da aflição,
Que plantara em meu consternado coração
Ao trazer-me pela mão do destino
Esta semente, este algo pequenino,
Que cresce no meu peito, ainda doído,
Que brota, que viceja e dá sentido
Ao que pressinto no olhar e no carinho:
Que o meu caminho pode continuar contigo.


(Outubro / 2004)


 

 



EXCELÊNCIA
 



Fizeram-me promessas e eu ouvi,
Pediram-me calma e atendi,
Rogaram-me confiança e eu cri,
Cobraram-me paciência e esperei.
Ouvi, atendi, cri, esperei
E depois o que vi? O que presenciei?
As esperanças continuam mutiladas,
Cada ano novo tão velho e reprisado,
Quando falseiam anseios replantados,
Quando a ilusão como milagre é anunciada,
Pelo mentir repetitivo e consagrado,
Pelo deboche de sorrisos masturbados,
Na prepotência infiel e imunizada
De mãos que assinam e rasgam compromissos,
De olhos com antolhos que enxergam só por cima
Dos ombros, dos problemas, da penúria, da fome
De bocas sem nome, da dor que se aclima.

E ainda me exigem “tolerância , por favor”,
Enquanto a ganância e o desamor
Limpam suas botas em meu jardim, na sua flor,
Nos limites do mundo e da decência
Onde a inclemência insiste em se impor
Sem pudor, sem pejo, sem indulgência.
Excelência, a vida clama por amor.


(Janeiro / 2001)


 



ARDENTE DESEJO



Vem dormir nos meus sonhos,
Traz promessas aos meus desejos.
Sem pejo, despudoradamente,
Pressente meus anseios,
Me banha com teus beijos,
Me inunda de paixão,
Conduz a minha mão
Ao encontro dos teus seios
E, sem pressa, devagarinho,
Ensina-lhe o caminho,
E deixa que meus dedos,
Na avidez da ansiedade,
No roçar de mil meneios,
Te incendeiem de emoção o peito.
Flutuarás então na excitação,
A mesma que todas as noites
Me põe na tua direção,
Vagando em pensamentos
Buscando nossos momentos,
Esperando que de repente, num açoite,
Saltem do imaginário pro real
E nos atirem do sonho para o leito.


(Maio / 2001)
 




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