AQUELA CASA ROSA, ALI NA ESQUINA.....

   

No meu tempo de criança, aquela casa rosa tinha outra cor... Tinha mais vida, mais alegria e felicidade.. É que ali, vivia uma família feliz. D.Lica, a dona da casa, criava, com todo carinho, os seis filhos que tivera, para torná-los, no futuro, homens dignos e bons chefes de família: Celso, Sinésio, Joel, Antônio, Vicente e Ailton.

A casa era enorme e cada filho levava para lá uma turma de amigos: uma festa constante.

A casa era contornada pela entrada da garage, a lavanderia, depois o pomar. Nesse pomar vivemos grandes aventuras, (uma das quais citei em meu livro, recentemente editado).

A parte da frente era toda cercada por canteiros e jardineiras, onde D.Lica, com suas mãos de fada, plantava e cuidava de rosas maravilhosas e uma coleção de “Amor Perfeito”, de todos os tipos e cores imagináveis. Eram a “menina-de-seus-olhos). D.Lica cuidava da limpeza da casa, do pomar, do jardim, dos filhos e de nós, os amigos, que freqüentávamos a casa para brincar, andar de bicicleta, ir ao pomar e também merecer o direito de seu carinho, principalmente quando arrumava aquele farto lanche para toda a turma

Junto com ela, sempre fiel, nossa querida Vicentina, que a ajudava nos afazeres domésticos, mas era ela, D.Lica, que dava vida àquela casa. Não parava um instante desde cedinho até a noite. Pouco saía de casa, pois criar seis filhos homens, não era brincadeira. Ela era mãe, pai, irmã e amiga deles. Felizmente Deus lhe deu forças para criar todos muito bem e, pouco a pouco, um a um foi casando, constituindo sua família e se mudando para outra cidade. Imagino que, a cada partida, um pouco da vida de D.Lica ia também., juntamente com aquele filho, aquela nora e depois os netos. Impossível descrever  o que sente uma mãe com a casa cheia de filhos, de alegria, movimento, atenção para um e outro e,depois, vê-los partindo, um por um, para longe, onde construiriam suas famílias...

A  casa foi perdendo um pouco de sua vida... O jardim já não era tão bonito como antigamente, acho que as jardineiras, já não tinham mais “Amor-Perfeito”... O pomar... não sei se o pomar contém agora as mesmas frutas daquela época. Mas para tudo isto se dá um jeito...

A casa foi pintada de rosa, já faz tempo. O jardim poderá ser refeito, o pomar, novamente plantado, não sei como anda agora. Mas.. falta dentro da casa, a rosa-viva, a vida querida, a presença da grande mulher, o carinho da mãe extremosa, até mesmo a nossa presença dentro da casa, que por fora é rosa, mas por dentro é toda tristeza...

Falta a estrela maior, falta a D.Lica, que nos deixou há poucos dias, seguindo a sua travessia via Terra-Céu.

D.Lica partiu e deixou atrás de si uma vida exemplar, uma vida coroada  de êxito, pela família maravilhosa que formou e educou tão bem, tirando de dentro de si tudo quanto pôde para que seus filhos fossem homens corretos e seguissem, à risca, todos os ensinamentos que ela lhes deu durante o tempo em que  conviveram.

D.Lica foi tão boa amiga.. foi tão boa filha... irmã. Ela foi tudo na vida e agora partiu, para a viagem sem retorno. É certo que deixou entre nós, seus parentes e amigos, uma saudade que jamais será esquecida. Em nosso coração, a saudade daquele tempo feliz de nossa infância, quando ela era toda ternura. Seu nome, quase ninguém sabe, e eu mesma, agora, não me lembro. Minha "Enciclopédia" sobre parentes e tudo da cidade de Santa Rita do Sapucai, também partiu, há pouco mais de dois anos, levando consigo toda uma inteligência, uma memória espetacular, um "amontoado"  de grandes virtudes, que até hoje faz com que  os amigos sintam sua falta:  minha mãe....

Mas, o nome de D.Lica não importa. Ela era conhecida assim, era amada assim e com este nome ela atravessou uma vida inteira, servindo aos seus com a mesma boa vontade e carinho de sempre.

Aquela casa rosa, ali na esquina... agora está triste. Podem pintá-la de mil cores que ela jamais será a mesma. O pomar, o jardim, nada será igual, como antigamente. A parte fundamental da casa, a sua dona, a sua rainha, a sua mestra, a sua amiga, esta partiu, atravessando os” portões dourados”, sem olhar para trás, deixando cair sobre si a nuvem da vida eterna...

Descanse em Paz, D.Lica....

     (16-11-1.982)
                                               (Do livro: Passarela da Vida)

 




 
   

 

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