Rozelia Scheifler Rasia


Além da Alucinação

 

Encolhido  no fundo da sala, Tim  estava perdido em  lembranças  que insistiam em atormentá-lo.

Reprovado no ano anterior, ele procurava concentrar-se nas lições escolares. Mas um grande desconforto, uma insatisfação injustificada invadia seu ser e minava sua vontade.

Um gigantesco monstro disforme, lembrando vagamente um réptil, sentou-se ao seu lado. Personagem antigo, companheiro de sua solidão, a estranha figura não o assustava. Aliás, ele sentia-se tranqüilo. Sabia que só seus olhos tinham alcance suficiente para vê-lo, e só seus ouvidos captavam sua voz.

Tim começou a resolver as difíceis questões de física que estavam no quadro e seus olhos brilharam de satisfação, quando a professora silenciosamente passou ao seu lado e olhou as repostas certas.

Dona Silé, não entendia como o desempenho do filho variava tanto. Brilhantes e péssimos resultados eram estampados em seu boletim.

As melhores notas apareciam em história e geografia. Ele era fascinado pela história antiga, falava sobre a civilização egípcia, grega e romana e às vezes surpreendia os professores com seus conhecimentos e com suas opiniões sobre filosofia, sociologia, religião e até astronomia.

Na aula de matemática, Bethi pediu-lhe que a ajudasse em um difícil exercício que poderia ser feito em dupla. Tim respondeu-lhe que não sabia nem começar os cálculos. De repente, silenciosamente, ele desligou-se de tudo e fez o trabalho sozinho. Bethi ficou magoada e o chamou de tipo estranho, ignóbil e egoísta.

Após a aula, quando Tim e os colegas subiam a escadaria que dá acesso ao portão, Bethi  enfrentou seu olhar, jogou os cabelos para trás e numa careta simulou que estava  vomitando.

Ele  desejou revidar a agressão, seu coração disparou e seu corpo tremeu de indignação. Porém, antes de trocar o passo, a escada abriu-se e ele viu Bethi sendo violentamente arremessada para trás. Assustado, correu para ajudá-la, mas parou incrédulo ao ver que a escada estava intacta. Havia apenas pequenas manchas de sangue perto dos livros, que ficaram esparramados sobre os degraus. Ela levantou-se com a ajuda dos colegas, pois quebrou o pé e esfolou os joelhos.

Mais tarde, em  sua ampla e confortável casa, Tim sorridente examinava os primeiros fios de bigode. Nutria indiferença ao estranhamento no olhar do outro.    A  imagem refletida no espelho revelava que todas as chacotas, todas as insinuações dos colegas a seu respeito não atingiam o conceito que ele tinha de si próprio. Sentia-se um adolescente normal, sem grandes preocupações com o presente ou com o futuro.

A invasão de estranhos seres, nos ambientes em que ele freqüentava, não o preocupavam mais. Resolveu compactuar com sua imaginação, sem rotular como alucinação, ilusão ou loucura o que lhe acontecia. Queria viver a seu modo, diferente ou igual, vivia cada momento, como eles se apresentavam.

Às vezes, sentia-se saído de uma das múltiplas narrativas que lera, mas até aquele momento sentia-se confortável como figurante; achava que assim não recairiam sobre si as expectativas dos outros no decorrer dos fatos e nem a responsabilidade pelo desfecho da trama. Repentinamente, desejou ser o principal personagem de sua história e decidiu aceitar que a vida lhe entregasse prontos os cenários, apenas escolheria  ou escreveria os melhores scripts.

Uma manhã, quando ia para  a escola, Tim percebeu que seu cachorro o seguia, então ordenou-lhe que voltasse, mas ele insistiu em ir junto. Ao atravessar a rua, já com intenso trânsito, ele gritou ao ver o cão embaixo das rodas de um ônibus. Instintivamente, concentrou-se e ordenou-lhe, que corresse dali. O tempo parou, e após alguns segundos, o animalzinho saiu ileso. Após o incidente seguiu sua rotina.

Logo após, Tim encontrou um cartaz anunciando um curso  sobre os poderes da mente. Chegando em casa, resolver investigar-se. Trancou-se em seu quarto e ficou em pé; fixou o olhar em um livro fechado, que estava sobre a mesa e ordenou-lhe que viesse até ele. Após alguns segundos, incrédulo, sentiu o livro tocar suas mãos, que estavam espalmadas. Euforia, estranheza, medo e fascinação o perturbaram.

Inscreveu-se no curso; era o mais jovem participante. O palestrante abordou temas  que ele  achava fascinantes, como a hipnose para recuperar a lembrança de situações dramáticas com o objetivo de superar  traumas e, também, o poder que algumas pessoas têm de falar línguas  que jamais  ouviram.

_ Xenoglossia, disse o palestrante. _ É  assim que chama-se este fenômeno.

As resposta que Tim buscava não estavam ali, mas resolveu ir até o final. Queria muito perguntar sobre o que o acometia, mas faltava-lhe coragem. Ensaiou várias vezes, mas temeroso calava-se.

Ao seu lado, uma senhora perguntou se era possível alguém mover objetos com a força do pensamento. O professor explicou que este fenômeno deriva-se de um poder cinestésico e que algumas instituições fazem pesquisas sobre cinestesia. Ele acrescentou que se alguém quisesse inscrever-se para algum programa de pesquisa para aferir poderes paranormais, poderia indicar os endereços de pesquisadores conceituados.

Por alguns instantes, Tim achou que transmitiu a sua pergunta àquela senhora por telepatia, mas logo esqueceu deste detalhe. Ele sentiu uma imensa vontade de inscrever-se no programa de pesquisas sobre a paranormalidade, porém  mais uma vez, não conseguiu romper a barreira que o mantinha afastado de tudo e de todos.

Após o curso, recolheu-se em seu quarto e entregou-se à leitura sobre os deuses egípcios. De repente, homens e mulheres, bem vestidos  e sem cerimônia,  sentaram-se em sua escrivaninha que transformou-se numa grande mesa, à  volta da qual uma dezena de cadeiras  acomodavam os visitantes. Tim tomou seu lugar entre eles. O quarto adquiriu dimensões de um imenso salão de conferências, com  móveis em “designer” moderno e com grandes lustres  no teto.

Discutiram política  internacional, astronomia e medicina  nuclear. Todos lhe pediam informações e acatavam suas palavras com atenção e respeito, também lhe revelavam dados complementares sobre os assuntos tratados.

O cenário se desfez, quando seus pais abriram a porta e espantados lhe perguntaram com quem  estava conversando e em que língua estava falando. Tim respondeu-lhes  que estava apenas simulando uma situação exposta no curso e fingindo que era portador do dom da xenoglossia. Eles não se convenceram. Dona Silé descontrolou-se e falou que a única saída seria interná-lo. Mas, desistiu diante dos argumentos que Tim usou. Ele disse que desejava ardentemente viver e encontrar explicação para os pesadelos que o atormentavam, mas que preferia morrer a ser tratado como  psicopata, e se  fosse internado acabaria com a própria vida.

Durante vários dias, saía de casa somente para ir à escola, mas ia  para a biblioteca. Conversava com Platão sobre Antígona. Analisava os antigos traçados das constelações, e lia até os manuscritos perdidos de Aristóteles. Passeava  por Atlântida e pelo antigo Egito.

Um dia, entrou em uma pirâmide e seguiu com outros rapazes por seus labirintos de rochas avermelhadas com entalhes e inscrições indecifráveis. Ao entrar em uma salão com inúmeros tesouros, distraiu-se e perdeu-se do grupo. Não se importou em ficar sozinho e começou a procurar indícios que atestassem a identidade do morador daquele lugar. Examinou as inscrições na parede, olhou atentamente as jóias de ouro e as pedras preciosas que decoravam o ambiente. Ao encontrar um sarcófago em uma câmara mortuária que era iluminada por uma luz  verde, aproximou-se na busca de uma possível resposta. Olhou o rosto feminino, de beleza resplandecente, esculpido em uma máscara de ouro. Maravilhado, concluiu que deveria ser uma rainha desconhecida, que talvez ocupasse o cargo de Faraó, como Cleópatra.

Sentindo-se exausto, procurou a saída da tumba, andou no escuro e instintivamente passou a mão pela parede. Um ponto fosforescente chamou sua atenção; tocou-o e a sala iluminou-se. Estava diante de uma  grande porta fechada. Em pânico correu à recepção, retirou de uma gaveta uma agenda amarelada e discou o número da portaria do prédio. Logo, chegou o vigilante que há décadas trabalhava na biblioteca. Quando a porta abriu-se, ele sentiu um imenso alívio mesclado com um inexplicável desejo de continuar ali.

Tim voltou a ficar calado. Reprimia suas emoções, principalmente as mais primitivas, aos poucos exercitava o autocontrole. Fugia do espelho e ignorava os rostos e as vozes que insistiam em fazer-lhe companhia. Interessou-se em ajudar a mãe na rotina da casa e dedicou-se mais ao estudo. Precisava ser aprovado para que todos o aceitassem melhor.

Este desejo de aceitação era novo para ele. Aos poucos entendia que preocupava-se com os outros e consigo mesmo. Ele ainda não tinha certeza se seus amigos invisíveis tinham algum tipo de vida ou se existiam apenas como subproduto de sua imaginação, mas estava disposto a descobrir o porquê e de onde eles vinham.

O toque do telefone, trouxe-o de volta à realidade. O escuro da sala lembrou-lhe que já estava no final de mais um expediente. Percebeu o quanto estava encolhido na cadeira.  Alongou-se, ajeitou a gravata e atendeu ao telefone.

_ Alô ...

_ Dr. Timotheo???

Seus olhos fixaram-se no diploma, que na parede exibia a titulação que conquistara, e antes de responder, leu para si mesmo: “Doutor Timotheo Jalisah”..

_Sim, às ordens.

Enquanto ouvia a voz que vinha do outro lado, apontou o indicador para o interruptor, que estava pouco distante e não ficou surpreso quando a luz acendeu-se.

     
    



 
   

 

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