Rozelia Scheifler Rasia

      

Diálogo: a concepção de valores nas atividades cotidianas

 

O diálogo se constrói de forma ética e solidária. A palavra, substrato do diálogo, é o instrumento mais eficaz para a democratização dos saberes, para a resolução de conflitos,   para a interação entre os povos e para consolidação do desenvolvimento cultural, técnico e científico que impulsiona o processo civilizatório.

Nas palavra de GADOTTI (1997, p. 121)” O diálogo é uma relação de unidade de contrários, não antagônicos. Entre antagônicos só pode haver conflitos. Só há diálogo e parceria quando a diferença não é antagônica.”

As atitudes, a conceituação, os projetos, os ideais, o cotidiano e a coletividade alicerçam-se sob bases éticas. O descompasso entre a ética e a vivência diária causam a desfragmentação entre o ser e o fazer. Este descompasso aniquilam as bases do diálogo e em conseqüência, arruinam  as relações entre as pessoas.     

DOWBOR, (1999, p. 397) leciona que “Hoje, a ética volta à linha de frente, já não como acompanhamento, filosófico com suspiros de impotência, e sim como eixo central das condições de sobrevivência do sistema”.

            Quando falo em ética, refiro-me a uma reflexão de caráter crítico sobre a dimensão dos códigos comportamentais, sociais e legais.

A convivência de muitas culturas nas sociedades atuais, que são abertas à imigração e à comunicação de massa, apresentam uma diversidade étnica e multicultural, na qual transitam diversos valores e diferentes códigos morais e sociais. Sobre este tema, LIMA VAZ (1997, p. 58) salienta que “O pensamento ético contemporâneo apresenta-nos, pois, uma pluralidade de perfis e tendências que correspondem aos tipos de racionalidade atualmente vigentes na nossa sociedade.”

A dialogicidade que se estabelece entre as diferentes culturas, com as quais convivemos, permite a superação dos limites impostos pelas normas que regem o contexto no qual estamos inseridos.

Para que as questões éticas sejam a base do diálogo no cotidiano, é preciso pensar o homem na sua singularidade, totalidade e unicidade. A construção ética na educação se faz através formação de indivíduos reflexivos, autônomos, comprometidos com os valores que lhe permitam alcançar seus objetivos sem ferir os valores do outro.

A queda das fronteiras advindas pela tecnologia, impulsiona a multiculturalidade e aprofunda as possibilidades de diálogo entre todos os habitantes da aldeia global. GADOTTI (1997, p. 119) com propriedade salienta que “a diversidade da cultura é riqueza da humanidade. Pluralismo não significa ecletismo, um conjunto amorfo de retalhos culturais. Pluralismo significa, sobretudo, diálogo com todas as culturas, a partir de uma cultura que se abre às demais. Escola autônoma significa escola curiosa, ousada, buscando o diálogo com todas as culturas e concepções do mundo”.

A sociedade brasileira está alicerçada na pluralidade cultural. A ética é o fio condutor do diálogo que se estabelece entre as pessoas de diferentes credos e costumes singulares.

A liberdade para dialogar com as divergências das variadas comunidade para a busca de superação solidária das dificuldade coletivas deve ser pautada pelo respeito aos propósitos que sustentam as relações entre o homem e a evolução.

A valorização da solidariedade, da dignidade e do respeito mútuo passa por inúmeros saberes, como os direitos e os deveres constitucionais, as diferenças individuais que são explicadas pela psicologia e pela sociologia, os movimentos sociais que são abordadas pela economia e pela história, a territorialização e a imigração tratadas pela geografia.

Estes tópicos ganham maior relevância e compreensão, quando são abordados de forma ética e metodológica com o objetivo de superação da fragmentação do conhecimento.

Segundo ARRUDA ARANHA (1999, p. 118) O homem precisa escolher os meios e os fins da ação a partir dos valores. É em função dos valores que sentimos atração ou repulsa, desejamos ou rejeitamos coisa, situações e pessoas. Desde o nascimento nos encontramos envoltos por valores construídos ou herdados, porque o mundo cultural é um sistema de significados estabelecidos pelo “eu” e pelo “outro”.

A interação entre a homem e o meio ambiente é, assim, destacada pelos autores BERGER & LUCKMAN (1999, p. 241): “Na dialética entre a natureza e o mundo socialmente construído, o organismo humano se transforma. Nesta mesma dialética o homem produz a realidade e com isso se produz a si mesmo.”

Segundo PAULO FREIRE (1997, p. 152) “Ensinar exige disponibilidade para o diálogo.” Este mesmo autor (p.154) afirma que “O sujeito que se abre ao mundo e aos outros inaugura com seu gesto a relação dialógica em que se confirma como inquietação e curiosidade, como inclusão em permanente movimento na história.”

ARRUDA (1999, p. 119) salienta que “A educação se tornará mais coerente e eficaz se formos capazes de explicitar estes valores, ou seja, se desenvolvermos um trabalho reflexivo que estabeleça as bases axiológicas da educação”.

Atualmente, a mudança ocorre muito rápido. Alguns valores nesta transição se descaracterizam, outros perdem o sentido; valores novos surgem e alguns valores dos nossos ancestrais são questionados, ou esquecidos.

O sistema mercadológico atual coloca os valores de lucratividade e competitividade acima dos valores morais e espirituais pregados pela escola e pela igreja. Pelizzoli In ROSÁRIO LIMA (2000, p. 159), questiona esta imposição de valores dizendo: “Se a tranformação dos valores objetificantes e mercantilizantes da sociedade moderna, se impõem como configuração alternativa, deve-se começar a pensar a partir da construção e um novo sujeito com nova relação ética com o ambiente e com o outro.”

A sociedade, como elemento formador e produtor de uma base de referenciais éticos, precisa parar para questionar de forma coletiva os valores divulgados pela mídia e defendidos pelo mercado.

As etapas evolutivas da sociedade baseiam-se em relações de interesses de poder, políticos e econômicos. A classe dominante, para evitar choques entre os diferentes segmentos que compõem as forças de transformação, codifica os valores de uma forma desprovida da clareza necessária para a formação de uma base conceitual que permita a definição de opções políticas e sociais pelo conjunto dos cidadãos.

Esta prática influência no cotidiano de todos, pois a cada momento precisa-se fazer opções alicerçadas em diversos valores. Os mandatários impedem que o homem possa optar pelo que é melhor para si e para a comunidade onde vive, já que a minoria impõe os valores à maioria. Na base da formação dos valores encontram-se o substrato da lucratividade, da competitividade, da rede de poder e da perpetuação das benesses da classe dominante.

Os valores de cidadania desrespeitados ou não conquistados no Brasil, possuem raízes profundas na formação histórica nas sociedades brasileira que desde o colonialismo está subordinado à dominação e à exploração. Da origem portuguesa, vem a prática de esperar as decisões do rei, esta prática perpetuou-se na República e segue até os dias atuais. Assim, instalou-se o clientelismo e o paternalismo, a partir dos quais os mandatários decidem os rumos do país, enquanto o povo não tem poder decisório sobre os direitos individuais e fundamentais, mesmo sobre os mais elementares.

Reverter este quadro, é uma aspiração das classes populares que são dominadas por valores impregnados de regras de submissão, de conformismo e de uma aparente paz.

O diálogo, como elemento de união, paz e prosperidade, é um valor a ser concebido coletivamente com um único objetivo: a busca da felicidade para todos os seres humanos.

       
    



 
   

 

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