Fábio Frohwein

    

Fábio Frohwein nasceu em Salvador, Bahia, em 1976. Formou-se em Latim pela Faculdade de Letras da UFRJ, onde ainda fundou a revista literária O Grito!. Em 1998, obteve menção honrosa da Academia Petropolitana de Poesia Raul de Leoni. Em 1999, foi selecionado em concurso nacional para representar a região sudeste na 1º Bienal de Cultura em Salvador, sendo premiado ainda no mesmo ano pela Hebraica-Rio e pelo Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro. Em 2000, foi premiado pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores; em concurso municipal de poesia promovido pela Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro; em concurso literário internacional que teve a participação de 1469 trabalhos de 10 países (Brasil, Argentina, México, Costa Rica, Portugal, El Salvador, Venezuela, Peru, Chile e EUA); no I Concurso de Poesias de Aricanduva, São Paulo; nos concursos de conto e poesia organizados pela Hebraica-Rio; e agraciado com menção honrosa pela Cátedra Jorge de Sena para Estudos Luso-afro-brasileiros, na Faculdade de Letras da UFRJ, com o ensaio João Alberto: um morto-vivo na pátria perdida acerca da narrativa Dos mitos: o tríptico dos barcos, do escritor português João de Melo.

Frohwein é autor d’A Conjuração Carnavalesca (romance) e das narrativas infantis Eusou e o chapéu e O mistério da Casa do não fui eu, esta última a ser lançada no corrente ano pela editora DCL (Difusão Cultural do Livro).


   



POEMAS

Epitáfio para Portugal

O Mar da minha Terra

Debruçado ao seio da janela...


CONTOS

Do gelo para a água: uma diferença muito sutil

Lata d’água é na cabeça

A casa
 

 







Epitáfio para Portugal

Neste exato momento
Agonizante e mortuário
De um Portugal,
Pai e algoz a um só tempo,
Eu e meus irmãos,
Terras que comungam entre si
Talvez apenas o sangue
E a estirpe de heróis
Com seus elmos já cabisbaixos,
Apagados pelo limbo do tempo,
Somos chamados
A compor este desconfortante epitáfio.

Quiçá por sincera piedade
Ou mesmo por obrigação de prole.
Uma vingança nossa agora sem sabor algum,
Que nunca sequer fora cogitada.
Memória que ainda por muito
Desgraçadamente cobrará
Postura desbravadora
De nossos progenitores.
Lembrança amaldiçoada
Que continuará, por todo o restante
De nossa sarcástica existência,
Se renovando,
Se multiplicando,
Não obstante o contragosto
Da matriz ibérica,
Não obstante a sua dor,
Não obstante a sua insistência
Em apagar para sempre
Essa mácula cravada na história
Por uma Epopéia que paradoxalmente
Teima em reacender as cinzas
De uma idade de ouro
Em fase final de esquecimento.

E por onde quer que o espírito
Moribundo de nosso pai
Caminhe ou, por força do hábito, navegue,
Lá estará o nosso mordaz epitáfio.










O Mar da minha Terra


O Mar da minha Terra
              
não erra
mais.
Há sempre um incômodo
de silêncio em cada
Cais.
Esse Mar da minha Terra
        que nunca foi Vela
               antes.
Mas espada-vibrante
        no ar.
Antigo pesadelo de sangue
alucinado pelo próprio
        Mar.

O Mar da minha Terra,
onde vislumbro
           mudo
Ondas e barcos e gotas de espuma
E Cascos e ca-cos-de-his-tó-ria
          confusos.
Esse Mar da minha Terra
que sou eu já hoje
cicatrizado,
          tecendo uma nova história,
reconstituindo o poder do Verbo
sonhado.
Mar de lutas perdidas, gentes vencidas
          na recordação,
Mas o Mar que se agora
cala para o anúncio da futura
      
  comunhão.








Debruçado ao seio da janela...

 

Debruçado ao seio da janela
       insone,
distraio as horas da manhã
que tarda em despertar.
O sino oculto no alto
      da torre
do santo quinhentista
       Sebastião,
por mais que se esconda,
entre as colunas da cúpula
       da escuridão,
silencia a toda a cidade.
Mas em mim é constante
o seu toque, a sua
       Música,
notas de uma implícita
      
pergunta.

Como a imagem misteriosa
                 do Redentor,
que filtrada por nuvens de chuva
emite embora algum
                fulgor.
Como as pedras do calçadão
                de Ipanema,
embaladas pelo verão ameno
                das estrelas,
já aguardam sôfregas pelo calor.
Como todos os arcos
                da Lapa,
dormindo tranqüilos e serenos,
pelo bonde incansável que nele
                passa.
Ou ainda como dezenas e dezenas e dezenas
               de monumentos,
  nas ruas, nas avenidas nos bairros,
               nas praças,
inquisidores irrefutáveis dos meus
               desejos.
Todos sempre me troçando
com seus joguetes
de um invisível e onipresente
                 espelho,
onde não vejo a mim no que fui
ou mesmo no que sou,
mas num tempo ainda para o meu definir,
incerto e, porque incerto,
                      mudo,
uma esfinge que se chama
                    
futuro.

 


           

 
             

             

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Direção
Irene Serra
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