Fábio Frohwein

Lata d’água é na cabeça
    

E já nem mesmo o corpo meninava tanto pra me separar da lata d’água. Sede de seca é muito mais desgraçada. Não tinha passo dado que eu pagasse caída no chão com os braços feitos em cruz. Só lamentos. Ligasse ele ao menos pro meu não viver? Indiferência que fere provém do esquecimento. Ele próprio se ignorava. Mulié, criança dá é como em árvore frutífera! Meu sofrer era passatempo de reclamação.

                O no berço ainda assim nunca desabitado. Ainda que depois da morte das Dores. Conservava a lata d’água no lugarzinho dela. Nhá das Dores, me arruma essa lata d’água pra mim pegá uma ruma d’água lá no poço? Pode não, fia. Magoasse comigo fosse quem fosse. Fazia não era de perversidade. Seca braba, com remédio só pelo carregar água mesmo. Mas a lata, meu mim. Meu sofrimento ali dentro aumentava. Aumentava. Aumentava com a enchente dos olhos. Ironia. Debruçava os anseios na borda, na margem da lata. E a água me devolvia os olhos. Meus olhos. Meus? Os das Dores! Nossa filha, agora só minha, quando nasceu, nasci também. E por gratidão do favor de me retrazer no mundo, chamou-se a filha igual a mãe. Dia tudo de felicidade. A menina cresceu de botar inveja no tempo. Cresci em mim junto com ela. Mas a vida quis recompensa pra tamanha alegria. Cobrasse de mim? A vida é pessoa ingrata com olho gordo. Pagamento veio aos poucos, lento como o arrastar dos anos. Minha filha fez que um dia pegou birra de não falar. Mania de mula quando empaca no meio da estrada. Ficava com os olhos obrigando adivinhação de tantos mistérios. Eu sem entender o que era naquela cabecinha. Depois, zangou mesmo foi com o de comer. E foi que foi que definhava dia-a-dia. Das Dores queria era só ficar consigo, desfiando pensamento. Quietinha no seu canto, carecia de mais nada não. Ela era o só dela.

                Manhã veio pra dar cabo das tristezas. Agora, passava aos braços ásperos da agonia. Das Dores tinha sumido. Nem rastro de esperança. O fato achou-se como a morte. Meu lamento pela filha que veio de mim e foi pra onde nem sei que foi. Eu também sumi.

                Ocupação? Devoção ao chorar. Ter chorado as águas pra satisfazer toda esta gente. Nhá das Dores, me arruma um tanto dessa água pra matá a minha sede? Pode não, fia. A água servia só pra refletir. Mirasse nela a mãe mais carcomida a cada momento? Mais cheia a lata, passados da vida. Lá ia junto de derramar, a imagem bem mais próxima da origem. Pelos olhos, acabar por dentro. Restava nada pouco agora que continuasse pelo que era antes.

                Maria das Dores ajoelhada no chão em prece, rogava ao ser que primeiro lhe acudisse uma oração só por ela compreensível. Regava há muito a lata d’água com o seu pranto, sem fraquejar um único instante. Não havia velhice tal que a dissuadisse de perder-se em si própria.

Mas a lata um dia se encheu de todo. E, desta forma, transbordou. Alagou o pequeno quarto da filha das Dores, inundou a casa, tomou completamente a cidade. Aquele foi o verdadeiro dilúvio antevisto por Noé. Sozinha, Maria enfrentava em vão as correntezas dos seus desatinos. A lata d’água, origem de grandiosas torrentes, não poderia mais, ela solitária das demais, conter a força do que existiu um dia e ousava manter-se em continuar. Veio um vizinho. Veio outro também. Vieram todos com suas latas de propriedade cada um, para somar uma empresa já, de início, vitoriosa.

O povo ia crescendo na comunhão. A água foi-se indo. Contradição do destino foi observar nas pessoas o regozijo do aproveito de toda aquela água. Por ventura, a seca bestializava mesmo os seres? Não, era pura satisfação de eles se derrotarem a si próprios, auxiliando Maria das Dores.

Lata d’água na cabeça, lá se foi a prisão do eu no eu, a opressão do passado insurgido na fraqueza de apenas estar. Lata d’água na cabeça, Maria das Dores voltou para casa, bem como todos os outros, e encontrou coisa nova de, com efeito, se admirar. Ajoelhou pela última vez ao pé do berço e pôs-se a chorar. Um choro que todos desta vez puderam deleitar. E a oração também não se fez mais como que somente por ela. Pois a filha das Dores, ressurgida no milagre sem medo de nós, retomava o leito resistente à intemperança dos destinos, num sono extático que nem o tempo com a sua foice inexorável poderá sequer tanger.

 


           

 
             

             

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