Fábio Frohwein


A casa  
  

Quando o transporte parou, desci eu única, sozinha. Durante toda a viagem, satisfez-me por completo somente a companhia dos cavalos. Pedi-lhes, ao partirmos, que me levassem para onde eles achassem que eu deveria ir. Agora, havíamos chegado. Senti uma poderosa agonia revirar os mais obscuros pontos da minha mente. Sentia muito medo. Medo da casa. Medo de mim. Mas medo também da chuva que cantarolava irritantes melodias.

A chuva sempre desejou revelar minhas formas. No colégio, eu era a menina que encantava a todos. Faziam-se disputas por beijos nunca concedidos pela minha boca em vão procurada. Guardava-me. Quanto deixei de ser? Por apenas vaidade de ter-me a mim própria. Afastava-os. Detinha-me. Desprezava-os, sim. E a chuva reconduzia-nos até mim. Não possuía a necessária força para vencê-la. Eu: espetáculo tão aguardado por eles. As gotas penetrando pela minha carne, descobrindo a minha armadura de não permitir ser tida. A chuva sempre me derrotou.

A casa estava ali. Cobrou-me em um só instante por todo o passado, por todas as dores, por todas as coisas que nunca se contentaram com o haver existido. Cada peso do imperioso concreto esmagava a minha débil alma. As janelas hermeticamente fechadas abriam-me para dentro. A sala vazia e apagada. O meu próprio caminhar não movendo. Se avançava, por entre as amarguradas paredes – você não nos vinha a muito – nada mais. Estancasse desamparada, toda eu. Esvoaçadas cortinas tentavam um abraço. Fingimento de mãe quando o filho já nem se foi ainda.

No porão, reencontrei as velhas correntes sorrindo suas lembranças. Ferro de insípido gosto. Era como que as marcas houvessem se desintegrado para aquelas sádicas serpentes. Os punhos não negavam o encontro, porém desacreditavam da necessidade de mais uma vez cederem ao capricho de eu me tornar contra mim. Quisera fosse diferente. O corpo era só para me castigar. E as lágrimas borravam o único que eu conseguia enxergar com a máxima luta subsistida na memória. Cá fora, alegrava com o intento. No profundo, morria.

O metal foi ao chão. Libertou-me. Elo por elo, diante elo, produziu música bastante finita. Vencia, enfim. Inanimadas, as algemas retomaram suas formas convencionais. Suspirei aliviada. Pelos vinte degraus matematicamente retangulares, conduzi-me, com destreza extrema, para o andar principal. Os cômodos, os quartos, o pavimento em sua amplidão. Aquilo se normalizava. Quiçá não se modificara em momento algum. Pura ilusão minha. Os arcos das portas sobejavam de sobriedade. As fechaduras, embora trancadas, ofereciam gentilmente as chaves dependuradas nos trincos. Pilastras, azulejos, as torneiras dos banheiros e da cozinha permaneciam paradas onde sempre estiveram. Troçavam das minhas outrora alucinações.

Apartando-me de uma casa de grandes dimensões, dois andares, portas várias e janelas gradeadas, com um jardim portentoso, cruzei a chuva. Apenas, gotejava linearmente. Pingos grossos, por demais incisivos. Todavia, pingos. Apreciei deleitada a sensação gelada que água me imprimiu. Molhava-me. Ao notarem a minha presença, pelo barulho na grama coberta de folhas secas da amendoeira, os cavalos relincharam. Acariciei-os, e logo silenciaram. Galgado o banco da charrete, tomei as rédeas nas mãos rijas, desfiz o nó, que há muito me aprisionava os cabelos longos e estimados, e guiei os animais pelas sombras inofensivas do caminho.

 


           

 
             

             

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