Silas Corrêa Leite

"TEENS", FAMÍLIA E SOCIEDADE

                                                    "Ao invés de arrumar uma casa/ Arrume uma
pessoa/More no coração dela"
   (Yoko Onno)
   

               O que é ser jovem? Estado de Espírito? Situação de circunstância? Adrenalina e "alienação"? Sonho e energia? Não existe uma resposta pronta. Trabalhei na área jurídica, batalho na literatura e no jornalismo, no entanto só me realizei na docência, trabalhando principalmente com "teens". Não usando muito da linguagem deles (soaria falso), mas sendo autenticamente eu mesmo com minha plantação de sonhos, com meu imaginário “criando o inexistente” feito grande fã de Raul Seixas, Rita Lee, Lulu Santos, Cazuza e Renato Russo, entre outros. E descobri: o lúdico e a "loucura" se somam na paradidática; na prática pedagógica vivenciada. E os alunos tendo em mim uma espécie de "pai que eles não tinham"(...). Não tinham? Fui uma espécie de "Pai de Classe". Ou, "tio" referencial. Sim, porque os pais estão ganhando dinheiro (poucos reais e muitos sonhos em um tempo de neo-consumismo bobo), e os filhos (seres humanos!) estão literalmente perdidos. Há décadas, aliás, num poemeto escrevi: "Pobre juventude engarrafada/Tanto rótulo/Quando o conteúdo é nada". Lares de grife e famílias de araque. Acabam, os jovens, no associacionismo extra-lar. Com os outros "pais de ruas": traficantes, assediadores; gangues e máfias de todos os estilos e níveis(...), mais os acidentes e incidentes de percursos. Os pais? Pós-graduados (tempos pós-modernos). Carro do ano, Internet (sem terra, sem pais, sem conexão - sem Amor). E o aluno sendo depositado (esse é o verbo) na Escola, onde o Professor passa a ser mestre, psicólogo, analista, enfermeiro, vigia,  provedor, interprete e, principalmente, um "pai de ocasião", onde o aluno até ousadamente encontra canal de réplica e-ou contestação. E aí surge o risco, via meio, de drugs, sex and Aids. Será que os pais são aquilo que pensam que são? Será que os pais pensam que pensam? Antes de ser um pedagogo, sendo um escritor, um "sentidor" (para citar Clarice Lispector), captei o jovem perdido, alienado, indo na vazão do momento, à deriva. Os pais (que amavam os Beatles & Tonico e Tinoco), sobrevivendo na nau society mostrando posses. Mas, e o conteúdo de serem pais? Despejam (esse é o outro verbo) os filhotes nas escolas e, seja o que Deus quiser! Os pais pediram (implicitamente até) demissão de serem pais? Confiam nos Educadores; na sociedade em total decadência também ético-humanista? Deus tenha piedade do amanhã. Não haverá nenhum futuro sem uma reavaliação do sentimento eco-humanista em um viver comunitário, plural, todos por todos. Que tempos são esses? Citando Brecht, "tempos tenebrosos". Os filhos entre a erva & o exctasy, a cerveja e o laptop on-line. Os pais acreditando no que os filhos dizem. E, às vezes, quando os jovens não dizem nada de nada, eles querem dizer exatamente isso: "Socorro Pai! Socorro Mãe! - Vocês ainda estão aí?..."  -  Sua filha está transando sem camisinha, sem tomar pílulas? Seu filho (sim,  o cara-pálida do Júnior!) já "deu um tapa" na maconha rueira, entrou nalguma canoa furada mas você acha que os olhos vermelhos são sinais de hormônio (testerona) fluindo no cérebro e vermelhando os canais de irrigação sanguínea dos olhos? Santa ingenuidade. Ou descaso?  O mundo está perdido. O Brasil está em feia decadência social. A globalização da miséria (sem fronteiras como a violência) absoluta. Tempos de mudanças, travessias. Por que nós os "seres humanos" (com regras e exceções) estaríamos salvos? Quem nos salvará de nós mesmos? Depois da promovida decadência do Comunismo sem resultados e da bem oxigenada também decadência do capitalismo (tão vil, inumano e infame quanto); com as privatizações-roubos (vide Brasil "Real") e um neo-liberalismo amoral (corrupção endêmica institucionalizada em todos os níveis), há um  decodificado realismo emergencial já sentido pelas massas na França (querem o "Socialismo de Resultados" de volta); na Itália (derrubaram um Primeiro-Ministro que queria implantar um "Plano Real" do FMI lá); na Inglaterra (Partido Trabalhista em ascensão); na Alemanha que derrubou o muro de Berlim mas os ex-orientais estão frustrados e saudosos (foram enganados com os que pareciam "irmãos do outro lado") e querem de volta não o funesto muro do neo-nazismo ocidental mas a dignidade sócio-comunitária que uma tal social-democracia só preconiza mas também tem seus muros vários. E onde os jovens tupiniquins encontram perspectivas? No poder da Mídia bancada por oligopólios de banqueiros e agiotas? Nas famílias bancadas por narcotraficantes ou contrabandistas informais com impunidade parlamentar? No Educador bem formado e ganhando menos o que um camelô de esquina? O Estado Público (propositalmente sucateado) sendo na realidade Privado e destruindo serviços públicos essenciais? No flanco, traficantes e contrabandistas dando popularesca assistência social e até elegendo políticos bicheiros (ou contrabandistas e narcotraficantes informais). Na verdade, corruptos novos com imunidades em ninho de escorpiões de históricos e coloniais corruptos velhos; herdeiros dos emplumados órfãos do funesto golpe de 1964. Confessemos: nós, os saudosos quarentões, cinqüentões, estamos perdidos. E os jovens sentem isso na alma. Porque também não sabem o que virá no ruflar do amanhã, do terceiro milênio e um neoconsumismo tantã. Claro que não é tarde demais para o papai ir tomar uma Coca Cola com o filho no Mc-Alguma-Coisa e dizer de relembranças, amores; indagações (e trocas) no confeito do diálogo esquecido em desuso. Claro que nunca será tarde porque mãe não tem essa de "incompatibilidade de gênio" com os filhotes, pois que mãe é Mãe e pronto! Ou as mães se vêem nos filhos e não se encontram porque se perderam delas mesmas? Que as mães abracem as "mauricinhas"(...) estilo Sandy ou não; saiam com elas, conheçam as tribos, falem em AIDS, camisinhas e, é claro, redescubram o amor próprio, o respeito mútuo, no amor e na dor. O que as mães não podem é querer um carro importado, um tênis de marca para os sensíveis filhotes, um pentium última geração, quando nunca leram um livro (a melhor pedagogia é o exemplo); nunca criaram uma balada & poesia de aniversário para os filhos, nunca ouviram Legião Urbana  ou Barão Vermelho com eles. E Cazuza está morto, Renato Russo também. E eles "eram" mas, principalmente, "estavam" jovens. Isso quer dizer alguma coisa; significa uma situação de risco coletivo? De que forma os pais  podem reconquistar os filhos? Eu sou só um mero poeta-educador, também eterno aprendiz. Talvez lance pedidos de socorro por atacado nas chamadas "lanternas dos afogados". Isso nem é direito uma crônica. Talvez um  quase rascunho de mero pré-ensaio. A canção-rock diz: "É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã". Ou: "Eu canto para as pessoas que estão no mundo e perderam a viagem". Será que os pais ouvem o que os carentes filhos ouvem e com o que (de arte/resistência/sensibilidade) se identificam como fatais pontos de interrogação ou portos de encalhe?  -  Pais: saiam das asas do nosso selvagem amoral capitalismo selvagem e babaquara, esqueçam o neo-esoterismo tantà de fién-de-sécle e acenem flores para seus "teens". Para não dizer que não falei das flores, digam esperanças novas, ternuras revistadas. Nunca é tarde para sempre. Vão buscar seus filhotes na Escola. Vão resgatá-los de dentro de si mesmos. Vão levar seus filhos ao cinema, ao camping, ao show dos Titãs, do Kid Abelha ou do U-2. Eu sou apenas um pedagogo recolhedor (desesperado) com fragmentos de presenças em ausências familiares. Talvez tenha ainda o meu espírito vívido quando uso giz, jazz, poemas ou a fala comum os jovens,  a fala fácil e doce dos jovens. O amor não tem tempo e nem lugar. Não há errado e nem certo. Há apenas relação humana. O adulto discute sabedoria com o adulto. Com o "teen" o adulto sempre se reaprende. A grande lição é a mão estendida, o demorado e cativante abraço natural; a soma como elo de continuação. Talvez, então, não seja tarde demais. Como diz o comercial "brega-cafona" (que vou parafrasear): Não basta Ser: TEM QUE PARTICIPAR!                                                                                                                    

 





 
   

 

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Irene Serra
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